Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#158: Latino Bar

 


LATINO BAR (Venezuela/Espanha/Cuba/Reino Unido, 1991). Um interessante exemplo de uma co-produção interncaional filmada na Venezuela, Latino Bar é um longa-metragem experimental, dirigido pela referência mexicana Paul Leduc, que lutou para buscar financiamento em seu próprio país. Leduc havia sido anteriormente conhecido por seu documentário Reed, México Insurgente (México, 1973), assim como pelo primeiro, e ainda mais interessante, filme sobre a vida da pintora Frida Kahlo, Frida, Naturaleza Viva (Frida, Natureza Viva, México, 1985) que varreu os prêmios da indústria mexicana Ariel, vencendo muitos outros prêmios, e foi lançado comercialmente em diversos países, incluindo os Estados Unidos. Com seu filme, Leduc começou a experimentar com o seu estilo de cinema, especialmente pela cuidadosa encenação das cenas internas, a refltir o estilo pictórico e a intensidade de seu tema e  movimentando a câmera para expressar as narrativas e temas cinematicamente, mais que através dos diálogos. Ele ampliou esta tendência em Barroco (1989), eliminando completamente diálogos e tentando contar a história do México através de tableaux musicais. Também encontrou a necessidade de buscar financiamento em Cuba e na Espanha, para que conseguisse montar seu ambicioso projeto, e para Latino Bar foi incapaz de encontrar qualquer apoio que fosse no México, retornando ao Instituto de Cinema Cubano (ICAIC) e Ópalo Films (Espanha), e mais significativamente conseguindo fundos de co-produção e facilidades, através da Universidade dos Andes, na Venezuela.

Baseado em um melodrama popular, Santa, escrito enquanto romance por Federico Gamboa (1903), e adaptado ao cinema seis vezes, mais destacadamente em 1931 (diigido por Antonio Moreno), em Latino Bar as locações se movem da Cidade do México para um esquálido porto no Mar do Caribe, ainda que a protagonista permaneça uma jovem forçada pela pobreza à prostituição. O filme se inicia com uma cena de fome, com um homem pegando um biscoito no chão; ele então rouba alimentos de um barco, é perseguido pela polícia, e é escondido por estivadores negros. Mas vem a ser preso e espancado, assim como os outros. O filme então se transporta para um bar à beira d'água, onde a bela mulata (Dolores Pedro, nascida em Cuba) entra na chuva. Uma série de episódios musicais se segue, incluindo um envolvendo um saxofonista cego indígena (o mexicano Ernesto Gómez Cruz), que possui luzes em sua bengala. A câmera continuamente se move a descrever o ambiente - por exemplo, garrafas de escaneamento e vidros nas mesas - e a une com as personagens do filme. As únicas vozes ouvidas são aquelas das canções e os suspiros e gemidos, e as emoções do filme são invariavelmente carregadas pela música que abrange o son clássico cubano de Beny Moré e a música de dança congolesa contemporânea de Tabu Ley Rocherau. Um jovem punk branco (o mexicano Roberto Sosa), que é observado na abertura na cadeia, tendo um caso com um personagem santa e incendeia um bar, quando parece que ela partiu com outra pessoa.

Pode-se criticar a representação visual grunge do estilo de vida das pessoas marginalizadas que frequentam o Latino Bar, mas ele claramente se encontra com eles em sua opressão e particularmente no ambiente musical com sabor africano. Por trás dos créditos finais há a estátua de uma mulher negra com sua boca enfaixada, uma imagem a proporcionar uma razão para o silêncio do filme. Com as torres de petróleo que podem ser avistadas no mar, em alguns momentos e a determinada natureza da etnicidade e estilo de vida caribenhos dos dançarinos, atores e músicos do filme - muitos dos quais são venezuelanos - pode-se também reconhecer o filme como uma obra amplamente venezuelana. 

Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 361-62.

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