Filme do Dia: Os Viciados (1971), Jerry Schatzberg
Os Viciados (Panic
in Needle Park, EUA, 1971). Direção Jerry Schatzberg. Rot. Adaptado Joan
Didion & John Gregory Dunne, a partir do livro de James Mills. Fotografia
Adam Holender. Montagem Evan A. Lottman. Dir. de arte Murray P. Stern.
Cenografia Philip Smith. Figurinos Jo Inocencio. Maquiagem e Cabelos Herman
Buchman & Phil Naso. Com Al Pacino, Kitty Winn, Alan Vint, Richard Bright,
Kiel Martin, Michael McClanathan, Warren Finnerty, Marcia Jean Kurtz, Raul
Julia, Vic Ramano.
Após um
aborto com complicações, Helen (Winn), jovem artista plástica, volta a morar
com o namorado Marco (Julia). O traficante fornecedor de Marco, Bobby (Pacino)
demonstra uma empatia bem maior com ela, fazendo com que decida morar com ele.
Em pouco tempo, percebe que Bobby não apenas trafica, mas é igualmente um
viciado em drogas, apresentando uma realidade desconhecida para ela, com seus
fornecedores, consumidores e prostitutas. A própria Helen, após algum tempo, e
inicialmente sem Bobby saber, também começa a fazer uso de heroína. E quando
este vem ocasionalmente a ser preso, a se prostituir. Inclusive com o irmão e
recente parceiro criminal de Bobby, Hank (Bright). Após sair da prisão, Bobby
se torna o principal homem a serviço do traficante Santo (Ramano). Helen recebe
uma carta da mãe pedindo que ela se encontre com uns amigos de família. A
contragosto, Helen se arruma e esconde as marcas do uso de drogas injetáveis,
porém Bobby fica sabendo que ela está, na verdade, uma vez mais se
prostituindo. O detetive Hotch (Vint), há tempos de olho na movimentação das
drogas na área, propõe que Helen, que após um tempo afastada de Bobby, voltou a
morar com ele, entregue o companheiro, em troca de uma suavização de processo a
envolvendo. Após muita relutância e pressão, Helen o faz, sendo xingada por ele
quando a observa ao lado de Hotch quando é levado preso. Quando ele sai da
prisão, quem se encontra a espera dele é Helen.
Por
alguns segundos se pode esquecer estar assistindo a Al Pacino e se pensar que
se trata de Dustin Hoffman em Perdidos na Noite. Uma diferença
importante é que Pacino podia filmar nas ruas de Nova York sem ser necessário
fechar as mesmas para a produção, como observamos a determinado momento, quando
um transeunte observa a câmera, e se busca a casualidade – que talvez já soasse
afetada à época – da célebre cena de um casal no Champs-Elysées de Acossado.
Já Kitty Winn, fosse mais carismática, e se teria uma precursora do estilo
Diane Keaton de ser. E também se seu papel fosse menos marcado pelo peso de um
tipo e a deixasse mais livre para a espontaneidade. Porém, quando começa a
consumir heroína seu rosto atinge uma dimensão quase transcendental, que chega
a ser difícil acreditar não ter se drogado de fato. Nova York, por sua vez, está desbotada e
decadente de uma maneira mais natural do que habitualmente costuma ser, em
filmes que buscam enfatizar tal aspecto. Outra lição do modernismo europeu que
este filme conseguiu tirar bom partido foi sua ausência de trilha sonora, o que
traz uma fatia a mais de crueza sobre o que descreve, ainda que o descreva com
doses de voyeurismo desnecessário por vezes, como é o caso do ritual de se
injetar heroína, mas ainda assim com bem menos romantização e charme que um Drugstore
Cowboy. E um clichê, e que pode uma vez mais ser vinculada diretamente a Acossado,
é o da traição feminina, por mais que Godard já tivesse bebido em outras fontes
e o mote seja milenar. Sendo resolvido
de forma mais interessante inclusive, que no filme de Godard. Outro lugar-comum
é o do lampejo de uma vida diversa, longe dos vícios, quando o casal parece
apenas mais um casal, realizando um pequeno deslocamento para comprar um cão e
andando com ele por uma região verde. Espécie de efeito-procelária, da calmaria
antes da tempestade, potencialmente disruptiva. Ao menos desse clichê, o filme
de Gus Van Sant soube sabiamente se esquivar.
E neste quesito esta produção surpreende ainda mais, sem apontar para
alguma “superação” ou algo do tipo, como em Van Sant. Ou para a morte de um dos
envolvidos. É como estivesse perfeitamente ciente das convenções, inclusive a
de possibilidade de outra vida, mas esta teve duração curta e pode ter se afogado
juntamente com o cãozinho. Ou não. Parece uma atualização de alguns noirs
do final dos anos 40, menos pelo estilo ou mesmo trama, que pela visão dura da
vida, aqui no entanto, destituída de cinismo. E também das muletas de
compensação para os personagens, assim como para os espectadores. Não há
tampouco interesse intrínseco na violência, sendo esta flagrada mais no âmbito
doméstico. Há determinado momento, o
irmão de Bobby ironiza a letra de Hwe Ain’t Heavy, He’s My Brother,
famosa canção dos Hollies. Schatzberg,
diretor de apenas cerca de uma dúzia de longas para o cinema e longeva vida,
não realizaria infelizmente muitos outros como este – o outro exemplo é Espantalho.
E como estas duas produções que realmente contam, são bastante estranhas ao
ecossistema hollywoodiano, mesmo o de sua época e os outros aparentam serem
menos afortunados neste quesito e provavelmente em outros igualmente, foi
completamente ignorado pela Academia de Hollywood. Uma das ousadias do
realizador neste, foi praticamente abdicar de qualquer nome estabelecido –
vários estão tendo seus primeiros papéis no cinema, caso de Kitty Winn, vencedora como melhor atriz em Cannes, ou ao
menos o primeiro de destaque, como Pacino. E também os que assumem papéis bem
mais secundários como Raul Julia. |Gadd Prod. Corp./Didion-Dunne para 20th
Century Fox. 110 minutos.![]()

Comentários
Postar um comentário