Filme do Dia: Órfãs da Tempestade (1921), D.W. Griffith
Órfãs da Tempestade (Orphans of the Storm, EUA, 1921). Direção:
D.W. Griffith. Rot. Adaptado: D.W. Griffith baseado no romance Les Deux Orphelines, de Adolph d´Ennery
& Eugène Cormon. Fotografia: Paul H. Allen, G.W. Bitzer & Hendrik
Sartov. Música: Louis F. Gottschalk & William Frederick Peters. Montagem:
James & Rose Smith. Dir. de arte: Charles M. Kirk. Cenografia: Edward Scholl. Com: Lilian
Gish, Dorothy Gish, Joseph Schildkraut, Frank Losee, Katherine Emmet, Morgan
Wallace, Lucille La Verne, Sheldon Lewis, Leslie King, Monte Blue, Sidney
Herbert.
França, segunda metade do século
XVIII. Criadas juntas desde recém-nascidas, quando o pai, Jean Girard não
apenas não tem coragem de deixar a filha nas escadarias de Notre-Dame e ainda
acaba recolhendo outra menina lá deixada, Louise, filha de uma relação entre
uma aristocrata, que vem a se tornar a Condessa de Liniers (Emmet) e um plebeu,
assassinado por conta da relação proibitiva para os códigos morais da época. Já
depois de crescida Henriette (Lilian Gish) passa a tomar conta de sua irmã
cega, Louise (Dorothy Gish). Quando as duas decidem viajar a Paris, o Marquês
de Praille (Wallace) fica interessado em Henriette. Seus homens a conseguem
seqüestra-la, separando-a de Louise que se torna vítima do cruel braço de Mãe
Frochard (La Verne), que vive de esmolas e pequenos golpes. Levada a uma orgia
da aristocracia na residência do Marquês de Praille, os abusos do anfitrião e
de outros convivas despertam a fúria do Cavaleiro de Vaudrey (Schildkraut),
sempre condoído com a pobreza oprimida. Explode a revolução. Retornando para
encontrar Henriette, Vaudrey e ela acabam são presos e levados ao tribunal da
revolução, sem que Henriette consiga se aproximar de Louise, que se encontra na
rua e é arrastada por Mãe Frochard. Condenados à guilhotina, Vaudrey e
Henriette são salvos de última hora pelo empenho e zelo de Danton (Blue).
Louise finalmente reencontra a sua mãe e irmã, enquanto a última recebe a
permissão de Louise para casar com Vaudrey.
Melodrama a repetir praticamente todo
o repertório de seus congêneres do teatro de um século antes. Com um enredo
rocambolesco, permeado de encontros e desencontros, em que não falta inclusive la croix de ma mére, o medalhão que
torna possível o reconhecimento entre filhas e mães, vilões perversos que
cometem injustiças atrozes contra os
ingênuos e bravos heróis/heroínas. O final – onde Griffith faz uso do mesmo
recurso da montagem paralela para criar uma situação de suspense frente aos
condenados que no seu episódio contemporâneo sobre a pena de morte em Intolerância – recompensará moralmente
as injustiças morais contra os envolvidos. A mescla entre drama familiar e
histórico, que em O Nascimento de uma Nação, já demonstrara sua presença, aqui ganha uma efetividade bem maior e
ainda mais inverossímil, com os dramas das duas irmãs a todo momento tropeçando
com figuras que se tornarão célebres com a revolução como Danton e Robespierre.
O resultado final, longe da maior sutileza de outros melodramas ambientados na
época contemporânea como O Lírio Partido
(1919), soa por demais redundante e rocambolesco para ser efetivo. Existe
certamente uma identificação moral do filme com personagens cujo perfil se
aproximaria de uma classe média longe tanto das perversidades de uma
aristocracia dissoluta e promíscua – representada na festa do Marquês de
Praille – quanto de uma matula não menos bestial e promíscua, representada
sobretudo pela máscula Mãe Frochard, de bigode e tudo, e pelos sans cullotes. Quanto a esses últimos,
no julgamento sumário que condena os protagonistas, há um divertido plano que
aparece um deles sorvendo do vinho que cai por acaso próximo dele. Ao início as
cartelas, inclusive, fazem menção mais reprovatória ao caráter “bolchevique”
dos revolucionários franceses. Sem esquecer, que mesmo com sua visão moderada,
o Cavaleiro de Vaudrey é um aristocrata. D.W. Griffith Prod. para United
Artists. 150 minutos.

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