Filme do Dia: Circe (1964), Manuel Antín

 


Circe (Argentina, 1964). Direção: Manuel Antín. Rot. Adaptado: Manuel Antín, baseado no conto O Bestiário, de Júlio Cortázar. Fotografia: Américo Hoss. Música: Adolfo Morpurgo. Montagem: José Serra. Dir. de arte: Ponchi Morpurgo. Figurinos: Angélica Fuentes. Com: Graciela Borges, Raúl Aubél, Alberto Argibay, Alberto Barcel, Josefina Boneo, Lydia Lamaison, Juan Carlos Lima, Victor Martucci.

Jovem homem solteiro (Aubél) se apaixona por jovem e bela mulher (Borges), cujas duas relações anteriores, acabaram na morte dos dois homens. Mesmo despertando a insatisfação de sua família e das pilhérias dos amigos,    decide prosseguir sua relação. Seduzidos pelo seu encanto e mistério pessoal, como de sua ressistência a se entregar, todos sucumbem até se questionar a respeito dela, na noite do noivado.

Embora superficialmente  até se aproprie de uma linguagem do cinema moderno, mais que a adaptação anterior, esse segundo filme da trilogia que Antín efetivou sobre Cortázar sofre com um certo efeito de déjà vu com relação ao anterior, repetição que se prolonga ao próprio nível temático, que desenvolve através de uma chave subliminar irônica e por vezes de aberto humor negro, a mesma morbidez decadente a impregnar seus personagens da classe média alta portenha. Muita de sua ironia vai na contra-corrente de algumas leis do melodrama clássico, já que aqui tanto a sociedade quanto o espectador estão corretos ao perceberem a patologia da personagem-título, ao contrário do herói. Comuns com relação à La Cifra Impar (1962), são a alternância constante entre passado e presente, além da produção visual  e o trabalho de direção de atores. Sua trilha sonora, baseada em temas para cravo, parece se adequar mais à atmosfera decadentista, pontuando de forma mais incisiva e menos interessante a narrativa que a da produção anterior. O final, bastante elíptico, sugere a tomada de consciência do protagonista antes da morte anunciada. Sua  representação da psicose soa mais sutil que a de filmes como O Inquilino (1976), de Polanski. Se a figura feminina que resolve matar várias pessoas sempre se aproveitando dos meandros da docilidade nas relações burguesas sugere uma aproximação com Afinal, uma Mulher de Negócios (1972), de Fassbinder, o próprio retrato de um psicótico traçado pelo cineasta alemão com seu Eu Só QueroQue Vocês me Amem (1976), apresenta uma visão que procura se endereçar a tal universo não enquanto um teatro de horrores, mas enfatizando o quanto ele possui de demasiado humano. 90 minutos.

 

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