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sexta-feira, 19 de junho de 2015

The Film Handbook#28: John Huston



John Huston
Nascimento: 05/08/1906, Nevada, EUA
Morte: 28/08/1987, Middletown, Rhode Island, EUA
Carreira (como diretor): 1941-1987

Ao repetir enfaticamente a importância de permanecer fiel às fontes literárias, John Marcellus Huston inadvertidamente destacou não somente a ausência de uma personalidade artística mas igualmente a provável razão para a diversidade de sua carreira como realizador. Muito de sua obra  é eminentemente digna de esquecimento; seus melhores filmes parecem conter uma combinação fortuita de bom roteiro e um raro comprometimento emocional com seu tema.

Filho do ator Walter Huston, o jovem John se interessou em atuar, boxe, equitação, escrita e pintura antes de se fixar em Hollywood, onde seus roteiros para os filmes da Warner Bros. como Jezebel, Juarez, O Último Refúgio/High Sierra e Sargento York/Sergeant York lhe proporcionaram a oportunidade para dirigir. Sua estréia, Relíquia Macabra/The Maltese Falcon>1, um dos primeiros noirs, teria sido um meramente competente filme de ação se não fosse seus intérpretes, que incluíam Bogart (como o detetive Sam Spade, de Hammett), Mary Astor, Sidney Greenstreet e Peter Lorre; de fato, poucos dos filmes iniciais de Huston foram, de um modo geral, peças de gênero notáveis. Somente após a Segunda Guerra Mundial (durante a qual dirigiu documentários) foi que realizou obras realmente distintas: O Tesouro de Sierra Madre/The Treasure of Sierra Madre>2, a despeito das várias interpretações acima do tom, foi uma alegoria melancólica sobre a futilidade da ganância, sonhos, decepções e mortes de garimpeiros observados com desdenhoso cinismo. O teatral Paixões em Fúria/Key Largo, um claustrofóbico suspense de gangster sobre a busca de compromisso moral, foi mais uma vez redimido pelo excelente elenco (Bogart, Bacall, Robinson), enquanto O Segredo das Jóias/The Asphalt Jungle>3 (um filme de suspense-roubo que localiza as razões para o fracassado roubo no impotente orgulho masculino) foi o primeiro filme a sugerir que o diretor possuía um estilo visual distinto; seus planos iniciais de uma virtualmente deserta e decadente cidade estabeleceram uma atmosfera concreta de fatalismo pessimista.

Ao longo dos anos 50, no entanto, Huston optou crescentemente pela respeitabilidade artística.  A seriedade bastante tensa de adaptações literárias e biografias (A Glória de um Covarde/The Red Badge Courage, Moulin Rouge - com José Ferrer de joelhos como o diminuto Toulouse- Lautrec e Moby Dick) se alternaram com comédias preguiçosas, tanto sentimentais (Uma Aventura na África/The African Queen, O Céu por Testemunha/Heaven Knows, Mr. Allison) quanto cínicas (O Diabo Riu por Último/Beat the Devil). A ênfase demasiada em vulneráveis não conformistas foi frequentemente transformada em veneração engessada: imitações pictóricas de velhas gravuras, pinturas impressionistas e gravuras  de baleeiros em A Glória de um Covarde, Moulin Rouge e Moby Dick acrescentaram pouco ou nada aos filmes. Menos portentoso foi O Passado Não Perdoa/The Unforgiven, um western incomumente sensível sobre racismo, mas Os Desajustados/The Misfits>4 (um épico-rodeio com uma óbvia e carregada mensagem ecológica) foi uma confusa e egotista fábula sobre a impotência masculina e a destrutividade domesticada pela vitalidade criativa feminina, ganhando seu fascínio incidentalmente por apresentar as últimas aparições dos enfermos Gable e Monroe.

A natureza errática de Huston se tornou ainda mais evidente nas três décadas seguintes. Uma biografia sobre Freud e adaptações como A Noite do Iguana/Night of the Iguana, A Bíblia/The Bible e O Pecado de Todos Nós/Reflections in a Golden Eye variaram de irregulares a francamente embaraçosas. A Lista de Adrian Messenger/The List of Adrian Messenger antecipou a inconsequência de obras posteriores como O Emissário de Mackintosh/The Mackintosh Man, Fuga Para à Vitória/Escape to Victory e Annie. Carta ao Kremlin/The Kremlin Letter foi um elegantemente cínico, mas confuso, filme de ação de espionagem; O Homem da Lei/The Life of Judge Roy Bean um animado, mas confuso western, seu desmascaramento dos mitos prejudicado pelo sentimentalismo; e Sangue Selvagem/Wise Blood  uma inteligente, mas em última instância superficial, história de fanatismo religioso e hipocrisia. De longe seus melhores filmes foram Cidade das Ilusões/Fat City>5, uma convincentemente modesta e incomumente compassiva história de boxeadores amadores lutando em vão pelo sucesso e O Homem Que Queria Ser Rei/The Man Who Would Be King>6, uma aventura interessante, bem humorada e visualmente excitante extraída de um conto de Kipling sobre trapaças britânicas na Índia dos anos 1880. Em ambos, assim como na obra de Huston mais agradável, o elenco foi crucial, embora seu evidente deleite em contar uma história sugere que ele se engajou pessoalmente com seu material, aprofundando assim seus insights emocionais e psicológicos.

Nos seus últimos anos, após uma década de filmes indignos de nota que tiveram como auge a mal concebida adaptação de À Sombra do Vulcão/Under the Volcano, de Michael Lowry, demasiado indulgente com o alcoólatra vivido por Albert Finney, Huston parcialmente redimiu sua reputação com A Honra dos Poderosos Prizzi/Prizzi's Honor, uma comédia de humor negro romântica e ingêna sobre assassinos da Máfia, memorável sobretudo por suas atuações descontroladamente indisciplinadas e um tedioso estilo visual plano. Bem mais sincero foi Os Vivos e Os Mortos/The Dead>7, adaptado de um conto de Joyce pelo filho de Huston, Tony, e estrelado por sua filha Anjelica como a mulher que, numa escura noite  após uma divertida confraternização de Ano Novo em Dublin, confessa ao seu marido que anos atrás um jovem morrera apaixonado por ela. Praticamente sem enredo e modesto em sua vívida evocação da sociedade irlandesa da virada do século, o filme de Huston é uma elegante meditação sobre a mortalidade, a memória e a transitoriedade da alegria. E é um comovente testamento tanto de um realizador veterano quanto de sua amada Irlanda, local que adotou como morada por muitos anos.

Como em suas performances (Chinatown, de Polanski, O Vento e o Leão/The Wind and the Lion de Millius e Morte no Inverno/Winter Kills, de William Richert), os filmes de Huston variam entre o bombástico superficial e a diversão genuína em seguir um bom fio narrativo. Normalmente consegue melhores resultados em filmes de gêneros mais que com a Grande Arte, algumas vezes abandonando as convenções dos filmes de ação com peculiar sagacidade; doutro modo, a reverência pelo texto literário tende a drenar o humor, a ironia e a vitalidade de seus filmes mais ambiciosos.

Cronologia
Ainda que Huston fosse claramente interessado em literatura (Hemingway e W.R.Burnett foram influência notórias) seus primeiros filmes de gênero podem ser comparados com os de Hawks e Walsh. Seu filho Danny dirigiu O Elétrico Mr. North/Mr. North, co-produzido por John pouco antes de sua morte.

Leituras Futuras
John Huston: Maker of Magic (Londres, 1978), de Stuart Kaminski.

Destaques
1. Relíquia Macabra, EUA, 1941 c/Humphrey Bogart, Mary Astor, Sidney Greenstreet

2. O Tesouro de Sierra Madre, EUA, 1948 c/Humphrey Bogart, Walter Huston, Tim Holt

3. O Segredo das Jóias, EUA, 1950 c/Sterling Hayden, Sam Jaffe, Louis Calhern, Jean Hagen

4. Os Desajustados, EUA, 1961 c/Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift

5. Cidade das Ilusões, EUA, 1972 c/Stacey Keach, Jeff Bridges, Susan Tyrell

6. O Homem Que Queria Ser Rei, EUA, 1975, c/Sean Connery, Michael Caine, Christopher Plummer

7. Os Vivos e Os Mortos, Reino Unido, 1987 c/Anjelica Huston, Donal McCann, Dan O'Herlihy

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 136-7.

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