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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Filme do Dia: Palavras ao Vento (1956), Douglas Sirk


Palavras ao Vento (Written on the Wind, EUA, 1956). Direção: Douglas Sirk. Rot. Adaptado: George Zuckerman, baseado no romance de Robert Wilder. Fotografia: Russell Metty. Música: Frank Skinner. Montagem: Russell F. Schoengarth. Dir. de arte: Robert Clatworthy & Alexander Golitzen. Cenografia: Russell A. Gausman &  Julia Heron. Figurinos: Jay A. Morley Jr. &  Bill Thomas. Com: Rock Hudson, Lauren Bacall, Robert Stack, Dorothy Malone, Robert Keith, Grant Williams, Robert J. Wilke, Edward Platt.
      Lucy Moore (Bacall), a nova secretária do conglomerado de petróleo texano Hadley, torna-se o objeto de amor tanto de Kyle Hadley (Stack), alcóolatra e playboy, quanto de seu quase irmão adotivo e melhor amigo Mitch Wayne (Hudson), o verdadeiro braço direito do patriarca Jasper (Keith). Porém, a partir do momento que Kyle entabula uma relação com Lucy, Mitch prefere esconder sua paixão. Ao mesmo tempo recusa o amor da meia irmã Marylee (Malone), ninfômana e desestabilizada emocionalmente. Kyle casa-se com Lucy e abandona o vício. A família segue uma rotina anormalmente estável até que Wayne descobre que é infértil e volta a beber. Lucy vê sua vida transformar-se da noite para o dia e passa agora a ser mais enfermeira que esposa de Mitch. A tensão piora quando, após ter flagrado a filha chegando a polícia e um frentista de hotel que a chama de vadia e o filho completamente embriagado, Jasper tem um ataque cardíaco. Mitch pensa em abandonar o país, desiludido com a família Hadley. Por outro lado, após um prolongado período de desestabilidade no casamento, Lucy corresponde a atração que exerce sobre Mitch. Enciumada, Marylee incita o irmão a tomar uma atitude e tudo torna-se um caos completo após Lucy revelar que encontra-se grávida. Espancada pelo marido tem um aborto natural. Quando Kyle volta tarde da noite, alcoolizado e completamente fora de si e ameaça matar Mitch, Marylee aproxima-se e o tiro mata o próprio Kyle. Marylee procura chantagear Mitch, propondo casamento ou a denúncia de que ele havia sido o assassino. No momento em que vai depor, após todos os depoimentos anteriores acreditarem na culpa de Mitch, já que o ouviram jurando Kyle de morte, Marylee vacila, mas termina por contar como realmente aconteceram os fatos. Desimpedidos para viverem seu amor, Mitch e Lucy abandonam a mansão dos Hadley.
         Raras vezes foi descrita com tanta intensidade as paixões e mazelas da elite americana como nesse melodrama extravagante - como Pauline Kael escreveu e Fassbinder acentuou, em filmes como As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972), não há quase como  separar o dramático do hilário -  de Sirk. Um exemplo é a eloqüente e operística seqüência inicial, que apresenta a cena do crime. Mesmo lidando com elementos que não são incomuns ao mais vulgar dos folhetins, como a descrição da mítica infância que o trio vivenciou nas brincadeiras à margem do rio, o cineasta consegue, através das cores berrantes, atuações não mais que medianas e diálogos engenhosos, compor uma atmosfera hipnótica e de um trágico quase sheakespeariano. Um dos momentos mais empolgantes é a seqüência de virtuosa montagem alternada que apresenta a morte do patriarca Hadley contraposta a aflição de Lucy e a algazarra de Marylee. A sua ousadia na descrição da sexualidade dos personagens ganha contornos tão irônicos, surpreendentes e, por vezes, ambíguos quanto os de Gata em Teto de Zinco Quente (1958), de Brooks. Assim não sabemos ao certo até que ponto Lucy se encontro disposta a trair ou não o marido enquanto esse, em outro momento, logo após acreditar-se estéril, abandona o restaurante em que se encontrava e observa irado uma criança que se diverte com um prazer verdadeiramente orgíastico, com um movimento ritmíco que evoca o ato sexual,  em um cavalo de brinquedo. Por outro lado a sua alusão a ninfomania de Marylee é explicitada como poucas, no momento em que o frentista afirma que ela o havia levado ao motel. Mesmo assim, o tom que Sirk consegue é menos sensacional que o presente nos filmes de Preminger e outros. Tanto é que são os sentimentos de amor confusos que os quatro protagonistas vivenciam, cada um a seu modo, que acabam por se sobressair sobre o  aparente mero ataque moral à elite, como tradicionalmente operada desde nomes como Stroheim. O mundo da elite do petróleo também foi objeto melodramático de Assim Caminha a Humanidade (1956) de Stevens, assim como da série televisiva Dallas, grandemente influenciada por esse filme. Universal Pictures. 99 minutos.         


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