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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Filme do Dia: À Procura de Mr. Goodbar (1979), Richard Brooks

À Procura de Mr.Goodbar (Looking  for Mr. Goodbar, EUA, 1977). Direção: Richard Brooks. Rot. Adaptado:  Richard Brooks, baseado no romance de Judith Rossner. Fotografia: William A. Fraker. Música: Artie Kane. Montagem: George Grenville. Figurinos: Jodie Lynn Tillen. Com:  Diane Keaton,  Tuesday Weld, William Atherton, Richard Kiley,  Richard Gere,  Alan Feinstein,   Tom Berenger,  Priscilla Pointe, Laurie Prange,   Julius Harris,  LeVar Burton, Marilyn Coleman.
      Theresa Dunn (Keaton), é uma jovem estudante que vive uma conservadora família católica. Perde a virgindade e tem um relacionamento problemático com seu professsor, abertamente misógino e casado. Um dia parte e diz que tudo estava acabado entre eles. Theresa passa  a ensinar numa escola de surdos-mudos, ao mesmo tempo que sai de casa, após uma discussão com o pai (Kiley), indignado por ter passado a noite fora. Muito próxima de sua irmã Katherine (Weld), de forte instabilidade emocional e vida sexual hiper-ativa, passa uns dias com ela, até alugar seu próprio apartamento. No colégio aproxima-se da garota negra Amy Jackson, a única que não possui dinheiro para comprar um aparelho para o ouvido. Theresa se envolve com seu caso, e faz com que o rapaz do serviço social, James (Atherton), interceda em favor de Amy. Ao mesmo tempo, passa a viver uma agitada vida noturna. Conhece o desequilibrado Tony Lopanto (Gere), que, no entanto, demonstra ser bom de cama, apesar de assustá-la com um canivete e tendo que aguentar a corte do bom-moço  James, que desde o caso de Amy procura se aproxima dela e da família, embora nunca a aborde sexualmente. Lopanto desaparece, e Theresa passa a viver uma série de aventuras com homens que caça na noite.Em uma das noites reencontra  o professor que lhe iniciara, e esnoba- o.  No ínterim, sente-se tocada por uma história que James conta sobre seus pais, embora a tentativa posterior de sexo entre ambos acabe com as gargalhadas de Theresa quando percebe que ele está usando um preservativo.  Quando se encontra se preparando para ir à cama com um homem de meia-idade que encontra em uma discoteca gay, Lopanto retorna e expulsa o homem. Katherine chega, no mesmo momento, e presencia a agressão física que Theresa sofre de Lopanto. Theresa em uma discussão com o pai, que a acusa de uma liberdade irresponsável e de não querer ter filhos, o acusa, por sua vez, de responsabilidade por essa decisão, já que a doença de que foi vítima na infância e que provoca escoliose é genética. Em uma noite do ano-novo, Theresa vai a uma discoteca, onde se envolve com um homossexual (Berenger) que se desligara a pouco de seu parceiro e que procura afirmar sua masculinidade. Quando esse não consegue se excitar e Theresa ironiza um pouco com a situação, este perde o controle e a agride, estuprando-a e posteriormente assassinando-a.
     Ainda que irregular, o filme é um forte registro do que ocorre na sociedade americana no final dos anos 70. Mesclando repressão religiosa de uma típica família católica com sua contrapartida, uma procura insaciável de prazer nas drogas, no sexo e individualismo, consegue, em seus melhores momentos, ser pungente na descrição da solidão e procura de um novo e pessoal estilo de vida na figura de Theresa, auxiliado pela melancólica trilha-sonora. Ou ainda hilário, quando apresenta fantasias sobre amor, morte e repressão, de um modo operístico e  grandemente irônico em relação ao Sonho Americano, representando os pensamentos da protagonista, em um estilo que lembra  Love Streams (1983), de Cassavetes. Em seus piores momentos, não consegue ir além de um melodrama de mau gosto, como no momento em que o pai de Theresa relembra a irmã que suicidou-se por ser inválida. Ou quando a irmã de Theresa chora sobre um dos múltiplos relacionamentos findos.  Em grande parte as virtudes do filme podem ser associadas com a interpretação de Keaton, talvez a melhor de sua carreira, que além de nunca soar artificial em sua espontaneidade, consegue representar com uma sinceridade quase constrangedora, principalmente sob o ponto de vista do repressivo politicamente correto dos dias atuais, muitos dos desejos e frustrações femininas. Já o mesmo não se pode dizer de Weld, que interpreta sua desequilibrada personagem em um registro marcadamente teatral, representando, de certa forma, o que há de pior no filme. A narrativa se inicia nas vésperas do ano-novo de 1976 e se encerra no ano-novo seguinte e, mesmo ousado, o filme não deixa de lado o caráter punitivo que acaba assumindo essa nova postura feminina, com o assassinato de Theresa ocorrendo sobre as mesmas luzes estroboscópicas em que viveu seus dias de prazer na noite e que culminam com os belos planos finais do rosto dela, como uma máscara mortuária, cada vez mais distante. Brooks, um especialista em vasculhar muitas das hipocrisias da sociedade americana, já havia efetuado algo do gênero, também em relação à sexualidade, com Gata em Teto de Zinco Quente (1958), uma das melhores adaptações de Tennessee Williams para o cinema e o romance The Brick Foxhole. Melhor utilização de canções clássicas de discoteca já vista no cinema, extraindo da superficialidade potencial das mesmas, que no cinema sempre foram associadas com deboche ou diversão, o outro lado da mesma moeda: solidão e vazio existencial. Paramount. 130 minutos.   


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