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domingo, 21 de junho de 2015

Filme do Dia: Mulher (1931), Otávio Gabus Mendes

Mulher (Brasil, 1931). Direção e Rot. Original: Otávio Mendes. Fotografia: Humberto Mauro. Cenografia: Alcebíades Monteiro Filho. Com: Com: Carmen Violeta, Celso Montenegro, Luiz Soroa, Humberto Mauro, Ruth Gentil, Alda Rios, Gina Cavalieri, Milton Marinho.
Carmen (Violeta), jovem provinciana,  assediada pelo próprio padrasto (Mauro), acaba sendo expulsa de casa pelo mesmo, quando se apaixona por Flávio (Montenegro), que mora no Rio de Janeiro. Desesperada e contando apenas com as economias do aleijado, que nutre uma paixão secreta por ela, Carmen descobre que Flávio lhe enganara, dando-lhe o endereço falso de uma pensão. Vivendo com uma amiga mais “moderna”, ela se vê na iminência de ser despejada do quarto em que vive, sendo aconselhada pela amiga a deixar de lado o puritanismo e se pintar e usar trajes mais sensuais quando for buscar um emprego. No primeiro dia que tenta usar o novo método, desmaia na calçada e é socorrida por dois homens da alta sociedade. Um deles, Flávio, tendo igualmente vivido uma grande decepção amorosa apaixona-se e se casa com ela. Carmen, no entanto, tem que lidar com as fofocas sobre sua pessoa em um outro tipo de ambiente. Impõe-se, no entanto,  ao novo meio social, porém se vê cada vez mais desgostosa com o crescente distanciamento de Flávio, que se encontra crescentemente envolvido pela moça da alta sociedade, Helena (Rios). Um amigo de Flávio, Dr.Arthur (Soroa), conhecedor da situação, declara-se para Carmen, mas esta decide deixar um bilhete para Flávio e desaparecer. Seguindo o conselho de Arthur, Flávio vai atrás de Carmen e após mais de um mês a reencontra e faz as pazes com ela.
Notável por seu grande senso estilístico e por uma habilidade narrativa rara para o cinema brasileiro produzido então, o filme pode ser considerado ao lado de Limite (1930), de Mário Peixoto e Ganga Bruta (1932), de Humberto Mauro, como uma das produções mais interessantes, e certamente a menos conhecida do trio em questão, de então (seu desconhecimento, em boa parte, devendo-se a uma cópia restaurada da obra ter sido efetivada somente depois de mais de 70 anos de seu lançamento). Com relação a seu estilo e habilidade narrativa, ambos se sobressaem sobretudo na primeira metade do filme. Ângulos inusitados, montagem dinâmica, boa interpretação do elenco, a sensualidade de Carmen Violeta e da relação do par central, tudo se encaminha para um notável apuro visual, visivelmente à serviço dos “valores de produção” defendidos por Adhemar Gonzaga, produtor igualmente do filme de Mauro, que requerem personagens da elite em ambientes luxuosos. Daí a mudança, tal como um conto de fadas, que transforma a miserável e tediosa vida de Carmen na cidade em luxuosa, feérica praticamente num piscar de olhos (ou perder de sentidos). Ainda que os ambientes luxuosos e o sex-appeal fossem inspirados em Hollywood, lembrando que o segundo item dizia respeito a uma Hollywood pré-Código Hays, há algo de muito peculiar nessa apropriação que se destaca positivamente do padrão que lhe serviu de inspiração, já por demais formatado. Em vários momentos, há uma verdadeira apropriação voyeurística da personagem de Carmen, seja quando ainda no campo, sendo desejada por todos os olhares masculinos locais, ou já na mansão de Flávio, tendo seu corpo observado de baixo a cima por uma panorâmica que reproduz o olhar do mesmo. Porém, deve-se lembrar que também Flávio é visto, em rápida seqüência, no banho, não se esquecendo, ainda que brevemente, de insinuar uma eroticização igualmente da figura masculina. Sua metade final, no entanto, é menos feliz, perdendo o ritmo dinâmico e a ousadia e o inusitado de certas composições de cena. Detalhe para a vigorosa ponta de Mauro como o padrasto cafajeste. Cinédia. 70 minutos.


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