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sexta-feira, 1 de maio de 2015

The Film Handbook#21: François Truffaut

Jean-Pierre Léaud e Kika Markham no lírico e infelizmente negligenciado Duas Inglesas e o Amor/Les Deux Anglaisies et le Continent


François Truffaut
Nascimento: 06/02/1932, Paris, França
Morte: 21/10/1984, Paris, França
Carreira (como diretor): 1955-83

O mais bem sucedido comercialmente dos realizadores da Nouvelle Vague, François Truffaut trabalhou em uma variedade de gêneros e humores, frequentemente dentro de um mesmo filme. E ainda ao longo de sua carreira, seus interesses temáticos (a importância e dor do amor, a relação da vida com a arte, a natureza misteriosa das mulheres) permaneceu constante.

Truffaut emergiu de uma infância semi-delinquente com a fanática paixão pelo cinema desenvolvida durante a frequente falta as aulas; após desertar do exército, foi tomado sob a asa do celebrado crítico de cinema André Bazin, que lhe deu um trabalho como crítico do Cahiers du Cinéma, onde além de conhecer Godard, Rohmer, Chabrol e Rivette, Truffaut formularia sua polêmica politique des auteurs. De fato, ele foi um cáustico e controverso crítico, que desprezava o tom literário obsoleto de muito do cinema contemporâneo francês e que no final dos anos 50 decidiu fazer filmes ele próprio. De seus três curtas (Une Visite, Les Mistons e Une Histoire d'Eau - o último deles completado por Godard), somente o segundo pode ser visto como antecipando algo de sua obra futura, com sua história agridoce de um romance adolescente condenado, observado por um grupo de meninos travessos. Afinal, tendo já servido como assistente de Rossellini em três filmes nunca lançados, realizou sua estreia em longa-metragem com Os Incompreendidos/Les 400 Coups>1, história parcialmente autobiográfica de Antoine Doinel, garoto de 13 anos levado a cometer pequenos furtos pelo desinteresse dos pais e professores. Se o realismo modesto do filme foi grandemente iconoclástico, sua paixão, honestidade e ardor não sentimental eram palpáveis, especialmente nas cenas do confinamento solitário do garoto no reformatório. Muito de seu poder, de fato, deriva da performance fortemente naturalista do jovem protegido do diretor, Jean-Pierre Léaud, que repetiria o mesmo papel nos posteriores filmes com o personagem, que pelos próximos vinte anos seguiriam o tímido, sexualmente ingênuo, auto-respeitoso herói através do amor não correspondido (o curta Antoine e Colette/Antoine et Colette em Amor aos 20), um encontro com uma mulher mais jovem (Beijos Roubados), casamento e infidelidade (Domicilio Conjugal/Domicile Conjugale) e divórcio (O Amor em Fuga/L'Amour en Fuite). Como durante o ciclo Doinel esse se distanciou crescentemente de Truffaut (se tornando um amálgama do diretor, seu ator e pura ficção) os filmes igualmente se distanciaram do realismo por uma ironia crescentemente caprichosa, auto-consciente e jovial que em retrospecto soa demasiado indulgente com seu protagonista imaturo e obcecado por mulheres.

Ainda mais sutil, mesmo que menos obviamente pessoal foram as diversas experiências de Truffaut com os gêneros. Em seu segundo longa, Atirem no Pianista/Tirez sur le Pianiste, variação tipicamente européia sobre o filme criminal hollywoodiano, a história de um concertista de piano que se torna músico de um café envolvido com gangsteres permitiu  repentinas e casuais mudanças de tom, o suspense dando lugar ao pathos, através de cenas de comédia deliciosamente irrelevantes. De forma semelhante, Jules et Jim/Jules e Jim - Uma Mulher para Dois>2, sobre um bizarro ménage-à-trois nos anos 10 e 20, contrapunha uma história de desenfreadas emoções amorosas com uma detalhada e zombeteira voz over. Ao mesmo tempo a montagem fluida e flexível e o trabalho de câmera movimentado, por si só, eram uma celebração da espontaneidade, correspondida por sua imprevisível mudança de temas: Um Só Pecado/La Peau Douce>3, foi uma história melancólica e tocante de adultério que rapidamente se acelera em direção ao assassinato; Fahrenheit 451 (seu único filme falado em inglês e o primeiro em cores) uma versão irregular e ambiciosa  do romance de ficção-científica de Ray Bradbury sobre um repressor universo de incineradores de livros; uma adaptação do romance de Cornell Woolrich, A Noiva Estava de Preto/La Mariée Était en Noir apresenta uma mulher consumida pelo desejo de punir os assassinos de seu marido, sendo uma homenagem estranhamente formal ao herói de Truffaut, Hitchcock; e A Sereia do Mississipi/La Sirène du Mississipi (novamente adaptado de um romance irlandês) foi um languido filme de ação que se move do simples mistério e suspense para um inesperado hino ao amour fou.

Com a exceção dos filmes do ciclo Doinel, a obra de Truffaut agora apresentava uma nova maturidade, começando com o afetuosa, complexa e comovente avaliação dos benefícios e defeitos da educação em O Garoto Selvagem/L'Enfant Sauvage>4, história lírica, extraída de documentos históricos da tentativa de um cientista do século XVIII de civilizar um rapaz descoberto vagando, sem fala e selvagem, numa floresta francesa; de forma crucial, o esclarecido Dr.Itard, que passa a se dar conta de que está aprendendo tanto quanto o seu pupilo, foi interpretado pelo próprio Truffaut. Igualmente pungente foi Duas Inglesas e o Amor/Deux Anglaises et le Continent>5, uma investigação que sonda os laços entre vida e literatura (e, por extensão, cinema) emoldurado como um condenado triângulo romântico parcialmente inspirado por Proust e as Irmãs Brontë. Então, após um áspero e cômico tributo à independência da mulher assassina e a ingenuidade com Uma Jovem Tão Bela Como Eu/Une Belle Fille Comme Moi, Truffaut explorou o abismo entre ilusão e realidade com efeito deliciosamente engenhoso em Noite Americana/La Nuit Américaine>6, comovente tributo ao poder mágico e caótico da realização de um filme. Aqui, o cinéfilo impenitente, a despeito de seu foco continuado nas relações humanas como seu tema central, sente-se movido a indagar: podem os filmes serem mais importantes que a vida?

Após uma pausa de dois anos, Truffaut retornou à direção com o ineditamente sombrio A História de Adèle H./L'Histoire d'Adèle H., uma intensa história de amor gótico na qual a filha de Victor Hugo viaja o mundo em busca de um amante desprezível, terminando sua vida desesperadamente insana. De fato, muito da obra final do realizador, altamente variada, diz respeito à obsessão romântica; após uma história simpática e sentimental da infância em Na Idade da Inocência/L'Argent de Poche e um demasiado indulgente estudo clínico de um maníaco sedutor em O Homem Que Amava as Mulheres/L'Homme Qui Aimait les Femmes, houve um breve retorno à forma com O Quarto Verde/La Chambre Verte>7. Baseado em conto de Henry James, sua historia de um viúvo (novamente Truffaut) demasiado obcecado pelas memórias de sua mulher morta, que adora em um santuário privado, para amar os vivos e simplesmente morre, é tratado de forma delicadamente discreta; a imagem sombria nunca degenera no melodrama sentimental e mórbido, conquistando uma intensidade serena e melancólica em seu tom, adequando-se ao do protagonista. Em seus três últimos filmes, no entanto, sua muito louvada simplicidade parecia mais real que enganosa -  O Último Metrô/Le Dernier Métro foi uma celebração superficial e complacentemente apolítica da arte, com uma companhia teatral parisiense lutando para sobreviver à ocupação nazista; e os suspenses A Mulher do Lado e De Repente Num Domingo/Vivement Dimanche! - o primeiro abrevia o suspense enquanto  mapeia o avanço do adultero amour fou, o segundo um habilidoso mas desleixado film noir em que uma secretária tenta provar a inocência de seu patrão em relação ao assassinato de sua esposa - não indo além de pálidas sombras de suas experimentações anteriores com gêneros , mais pessoais e imaginativas. Então, tragicamente, ele morreu de câncer aos 52 anos.

No seu melhor os filmes de Truffaut apresentam a sensibilidade suave e romântica de seu amado Renoir, detendo-se na frequentemente absurda e surpreendente espontaneidade do comportamento humano. Frequentemente, no entanto, foi criticado por um enjoativo e ameno humanismo; sua reserva estilística, por assim dizer, abraçando a dor e o caos da vida ao alcance da mão. Mais estranho que tudo, sua obra revela um conservador, em termos morais e artísticos, bastante distante da rebeldia crítica do enfant terrible dos anos 50.

Cronologia
Um admirador fervoroso de Renoir, Vigo, Ophüls e Hitchcock (a quem entrevistou em um livro hoje clássico), dentre muitos outros, Truffaut foi, em comparação com Godard (cujo Acossado escreveu), Rivette e Rohmer, um diretor bastante convencional: sua influência no cinema mainstream francês é, consequentemente, grande, sendo mais evidente, talvez, na obra de seu antigo assistente, Claude Miller. Truffaut também pode ser visto atuando em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Spielberg.

Leituras Futuras
François Truffaut (Londres, 1978), de Annette Insdorf, Finnally Truffaut (Londres, 1985), de Don Allen. The Films of My Life (Londres, 1980) é uma coleção de críticas de Truffaut [No Brasil, Os Filmes de Minha Vida (Rio de Janeiro, 1979)]

Destaques
1. Os Incompreendidos, França, 1959 c/Jean-Pierre Léaud, Albert Remy, Claire Maurier

2. Jules e Jim - Uma Mulher para Dois, França, 1961 c/Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre

3. Um Só Pecado, França, 1964 c/Jean Desailly, Françoise Dorleac, Nelly Benedetti

4. O Garoto Selvagem, França, 1968, c/Jean-Pierre Cargol, Truffaut, Jean Dasté

5. Duas Inglesas e o Amor, França, 1971 c/Jean-Pierre Léaud, Kika Markham, Stacey Tendeter

6. Noite Americana, França, 1973 c/Truffaut, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Léaud

7. O Quarto Verde, França, 1978 c/Truffaut, Nathalie Baye, Jean Dasté

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 289-91.

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