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sexta-feira, 15 de maio de 2015

The Film Handbook#23: Jacques Tati



Jacques Tati

Nascimento: 09/10/1908, Le Pecq, França
Morte: 4/11/1982, Paris, França
Carreira (como diretor): 1946-73


Ainda que fosse um grande mímico e um imaginativo inovador formal, Jacques Tatischeff era inclinado a sátira social simplista que, em última instância, reduzia a sua forma cômica enquanto filme. No entanto, é fascinante se observar que nas suas tentativas de revelar a forma que a moderna tecnologia despersonaliza a existência humana, tenha criado um estilo tão frio, puro e distante, em termos técnicos, quando a sociedade que criticava.

Um bem sucedido mímico de music hall, especializado em impressões sobre homens de esporte nos anos 30, Tati interpretou diversos papéis menores  nos filmes de René Clement e Claude Autent-Lara. Em 1946 realizaria sua própria estreia na direção com o curta L'Ecole des Facteurs, que posteriormente expandiria para o longa Carrossel da Esperança/Jour de Fetê>1. Ambientado em um vila no campo visitada por uma feira itinerante, o filme apresenta Tati como o carteiro impulsionado pelos insultos locais para agilizar seus métodos de trabalho de acordo com as ideias americanas sobre rapidez e eficiência. O estilo de Tati  foi desde o início primordialmente visual, com poucos diálogos; ao contrário dos comediantes do cinema mudo, no entanto, ele derivava seu humor não de situações fantásticas, mas de uma observação basicamente realística dos pequenos absurdos do comportamento humano, abdicando dos primeiros planos para enfatizar tanto a continuidade da ação e a relação do carteiro com o mundo que o cercava. De fato, é defensável que o protagonista de As Férias do Sr. Hulot/Les Vacances de Monsieur Hulot>2 não seja Hulot, (o vagamente excêntrico homem comum da classe média, com cachimbo, sobretudo, chapéu e andar desajeitado) mas o calmo resort costeiro perturbado por sua pouco plausível marca registrada de provocar o caos. O filme de Tati mais bem realizado e menos controverso, revela seu olhar para o detalhe visual e sua habilidade de coreografar intrincadas e inventivas piadas sem recair no exagero, histeria ou desgastados clichês.

Com Meu Tio, no entanto, o  primeiro filme do diretor-roteirista a apresentar um desejo de ser levado a sério como sátiro da sociedade, contrastando uma casa mecanizada e moderna desumana que é um verdadeiro pesadelo com uma visão romântica da vida operária tradicional. O resultado - estranhamente destituído de paixão ou desprovido de personagens sólidos - foi banal e em sua maior parte não divertido: além do que Hulot aparenta ser uma mera figura sobre o olhar detalhado de Tati. Levando nove anos para ser realizado, Playtime - Tempo de Diversão/Playtime>3 foi igualmente fraco, com Hulot posto à margem e um grupo de mulheres turistas tagarelas (visitando uma Paris aparentemente construída totalmente de concreto, aço e vidro) retratadas com notável desprezo pela individualidade ou emoção. Exceto por uma cena virtuosa apresentando uma sistemática, mesmo que negligente, destruição de um restaurante, o filme foi tão abstrato em termos de fotografia e narrativa, seu humor sendo secundarizado por uma mensagem moral banal e reacionária.

Um enorme e custoso fracasso, Playtime foi seguido por As Aventuras do Sr. Hulot no Trânsito Louco/Trafic, uma sátira desigual sobre nossas atitudes fetichistas e dependência em relação aos carros. Novamente Hulot foi marginal ao interesse de amor-ódio de Tati em objetos mecânicos, ainda que muito de seu humor, com todas suas diferenças formais e de seus contemporâneos, pareça demasiado óbvio. Por fim, bastante endividado, ele realizou para a TV sueca Parada/Parade, sobretudo um registro de seus atos de mímicas filmados em um circo.

Houvesse Tati permitido sua visão da sociedade surgir da comédia mais do que o oposto, sua obra poderia aparentar ser menos preciosista. Se sua tentativa de forjar um estilo visual livre de heróis individuais teoricamente oferecem ao público a oportunidade de encontrar humor onde quer que escolhesse, na prática tais inovações resultaram em uma ausência de calor humano e praticamente ausência de caracterizações.

Cronologia
Ainda que o débito de Tati  com os cômicos do cinema mudo como Keaton, Harold Lloyd, Harry Langdon e Max Linder seja claro, também se pode compará-lo com cineastas como Clair, Antonioni e Bresson (a quem admirava grandemente). Ele próprio influenciou Pierre Etaix como seu assistente.

Leituras Futuras
Jacques Tati (Londres, 1976), de Penelope Gilliat  e French Cinema Since 1946 Vol.1 (Londres, 1970), de Roy Armes.

Destaques
1. Carrossel da Esperança, França, 1949 c/Tati, Guy Decomble, Paul Frankeur

2. As Férias do Sr. Hulot, França, 1953 c/Tati, Nathalie Pascaud, Louis Perrault

3. Playtime - Tempo de Diversão, França, 1967 c/Tati, Barbara Denneck, Jacqueline Lecomte

Texto: Andrew, Geoffrey. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 283-4

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