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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Filme do Dia: Um Filme Falado (2003), Manoel de Oliveira

Um Filme Falado (Portugal/França/Itália, 2003). Direção e Rot. Original: Manoel de Oliveira. Fotografia: Emmanuel Machuel. Montagem: Valérie Loiseleux. Dir. de arte: Zé Branco. Figurinos: Isabel Branco. Com: Leonor Silveira, Filipa de Almeida, John Malkovich, Catherine Deneauve, Stefania Sandrelli, Irene Papas, Luís Miguel Cintra, Michel Lubrano di Sbaraglione.
A professora de história Rosa Maria (Silveira) parte em cruzeiro com sua filha, Maria Joana (Almeida)  que atravessa recantos turísticos do Mediterrâneo na França, Itália, Grécia, Turquia, com o objetivo de encontrar o marido na Índia, comentando a história que há por trás dos monumentos que visitam. No Egito, Rosa Maria é surpreendida pelo conterrâneo ator Luís Miguel Cintra (Cintra), que a leva ao hotel onde foi firmado o Canal do Panamá. No navio, Rosa Maria é surpreendida pelo interesse do comandante do navio, John Walesa (Malkovich), sendo convidada a sentar em sua mesa, ao lado da francesa Delfina (Deneauve), da italiana Francesca (Sandrelli) e da grega Helena (Papas). No meio da reunião, no entanto, o comandante é avisado por um de seus subordinados que há  bombas a bordo prestes a explodirem.
Com maestria e sensibilidade, Oliveira utiliza o pretexto do cruzeiro de mãe e filha para realizar uma reflexão sobre a situação de Portugal no cenário contemporâneo, ao mesmo tempo sendo bastante ilustrativo que ganhe uma dimensão fundamental nessa reflexão o peso do passado – a protagonista refaz o trajeto de Vasco da Gama para a Índia. Para tanto, faz uso de recursos dos mais diversos do cinema moderno como um distanciamento emocional diante das personagens retratadas – não existe qualquer interesse em aprofundamento psicológico das mesmas -, uma narrativa banal e um intenso interesse poético, para além de meramente reflexivo, proporcionado pelo olhar sobre o mundo filmado. Nesse sentido, não faltam tanto imagens belas e vaporosas da costa de Lisboa quanto dos monumentos gregos e da Mesquista de Santa Sofia em Istanbul quanto o contato com personagens locais como um pescador na França ou um padre ortodoxo na Grécia. Uma outra característica eminentemente moderna é justamente essa utilização de  pessoas que “representam” algo de muito próximo de si mesmas, como nos casos acima citados (evocativo de estratégia semelhante por Straub em seu Gente da Sicília), o que parece valer, em grande parte, para os atores de renome escalados por sua representatividade com relação às suas nações – sendo a cena à mesa de Malkovich com as três mulheres, quando a narrativa desiste momentaneamente de seguir a trilha de mãe e filha, uma das mais interessantes do filme. A cena final e o comportamento esquivo da protagonista, assim como sua dificuldade de se integrar ao discurso poliglota dos que se encontram à mesa, um comentário irônico sobre a cultura portuguesa. Ao utilizar-se de paisagens geralmente evocadas apenas por seu potencial turístico como ponte para reflexões históricas, remete a um dos filmes-chaves para a compreensão do cinema moderno, Viagem à Roma (1952), de Rossellini. Madragoa Filmes/Gémini Films/Mikado Film/France 2 Cinéma/ICAM/RTP/CNC/Canal +/Ciné Cinémas/Eurimages. 96 minutos.


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