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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Filme do Dia: Amarelo Manga (2002), Cláudio Assis

Amarelo Manga (Brasil, 2002). Direção: Cláudio Assis. Rot. Original: Hilton Lacerda. Fotografia: Walter Carvalho. Música: Jorge Du Peixe & Lúcio Maia. Montagem: Paulo Sacramento. Dir. de arte: Renata Pinheiro. Figurinos: Andréa Monteiro. Com: Matheus Nachtergaele, Leona Cavalli,  Dira Paes, Chico Diaz, Jonas Bloch, Conceição Camarotti, Cosme Prezado Soares, Everaldo Pontes, Magdale Alves, Jones Melo.
      Em Recife, uma série de personagens se enredam em teias movidos pela fome de comida e de sexo. Wellington (Diaz), um açougueiro que se autoproclama assassino, possui uma amante explosiva (Alves), que não mais suporta ser “a outra” face da bem comportada evangélica Kika (Paes), que por sua vez suporta tudo menos infidelidade e se incomoda com o apelido de “canibal”, que escuta das crianças da vizinhança, graças à fama do marido. No Texas Hotel, mora o necrófilo Isaac (Bloch), que geralmente é servido pelo funcionário do IML, Rabecão (Pontes), embora  também deseje algumas pessoas vivas, ou mortas somente no espírito como uma dona de bar, Lígia (Cavalli), que não mais vê sentido na própria existência. Seu cozinheiro é Dunga (Nachtergaele), gay e que possui desejos secretos por Wellington. Também mora no hotel um padre decadente (Melo), que possui como últimos “fiéis” os gatos que alimenta nas escadarias da Igreja hoje fechada. Decidindo acabar de vez com a relação com Wellington, sua amante avisa Dunga do intento. Esse manda uma mensagem para Kika, que não só comparece ao encontro como confirma o apelido ao arrancar a orelha da amante. No caminho de volta para casa, aceitará uma carona de Isaac, que havia sido escorraçado pela segunda vez do bar de Lígia e fazendo um amor como nunca ousara fazer com o marido. Enquanto isso, Wellington chora as mágoas da perda da amante e mulher ao mesmo tempo nos braços de Dunga, que ainda se encontra sob o impacto da morte do dono do Hotel, o velho Nicanor.
       Bem construído, em termos narrativos, e com surpreendente senso de ritmo e direção de atores, o primeiro filme de Assis acaba sendo prejudicado por sua construção que equivale miséria econômica à miséria moral. Seu estilo “mundo cão” geralmente apenas acentua o caráter sórdido de seus personagens, aproximando-se, por esse viés, do naturalismo literário do final do século XIX. Centrado nos instintos básicos da sexualidade e da alimentação, reunidos em um momento em que uma hóspede se sufoca no almoço e seu vizinho de mesa, um padre, acaricia-lhe os seios quando tenta livrá-la do engasgo, mesmo personagem que, em outro momento, proclama que “o ser humano é estômago e sexo”. Ou ainda quando apresenta cenas documentais de populares se alimentando em meio ao caos urbano. Seu humor, uma forma de tornar mais palatável sua ácida visão de mundo, deve-se em grande parte a excelente interpretação de Nachtergaele, talvez o único personagem de feições verdadeiramente humanas, embora paradoxalmente seja uma caricatura do homossexual afetado. Um dos trunfos do filme é desconstruir os personagens machistas e o temor de sua violência. Enquanto um deles termina por chorar a perda de suas mulheres justamente nos braços de um homossexual, o outro é sodomizado pela mulher traída do primeiro. As inserções documentais, próximas ao final, de populares que posam para as câmeras com a mais absoluta serenidade e dignidade são um testemunho que apenas acentua ainda mais o tratamento pouco generoso que o filme dispensa aos seus próprios personagens igualmente populares. Olhos de Cão. 100 minutos.


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