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domingo, 31 de maio de 2015

Filme do Dia: O Amigo da Família (2006), Paolo Sorrentino

O Amigo da Família (L’Amico di Famiglia, Itália/França, 2006). Direção e Rot. Original: Paolo Sorrentino. Fotografia: Luca Bigazzi. Música: Teho Teardo. Montagem: Giorgiò Franchini. Dir. de arte: Lino Fiorito.  Figurinos: Ortensia De Francesco & Jessica Zambelli. Com: Giacomo Rizzo, Laura Chiatti, Luigi Angelillo, Marco Giallini, Barbara Valmorin, Fabrizio Bentivoglio, Luisa De Santis, Clara Bindi, Roberta Fiorentini.
      O agiota Geremia De Geremei (Rizzo), cuja profissão formal é alfaiate, vive com a mãe inválida (Bindi) e ganha a vida extorquindo quantias relativamente pequenas de dinheiro. Num dos casos tipicamente aberrantes da falta de escrúpulos que envolve sua atividade, faz sexo com a noiva, Rosalba De Luca (Chiatti), momentos antes dessa ir ao altar. Ou ainda pretende matar a velha que pediu-lhe dinheiro emprestado a partir de pretensas ações do filho e levando em conta seu vício em morfina, tendo sido vista jogando e sabido que o filho não mais possui as referidas ações. Um grupo de empresários que pretende instalar bidês em duas redes de hotéis com centenas de unidades, pede-lhe um adiantamento de 1 milhão de euros. É a primeira vez que Geremia terá que lidar com um valor que ultrapassa os milhares ou dezenas ao qual está habituado. O conselho da mãe é que não deve arriscar. Rosalba, casada com um homem que crê idiota, passa a se relacionar com Geremia. Porém, tanto o caso de Rosalba quanto o da velha endividada ou ainda o do negócio milionário se depararão com uma das poucas pessoas próximas de Geremia, Gino (Bentivoglio). Para tornar as coisas ainda piores, a mãe de Geremia, a quem havia prometido internar em um asilo, para viver com Rosalba, morre.
       O estilo visual de Sorrentino, monumental e saracoteante, com uma câmera que parece fluir sem impedimentos físicos (quase como se projetada por um efeito digital) tende a fixar uma visão do mundo ameaçadora, imprevisível, sensacional, operística. E que tende a soar cansativa ocasionalmente, por seu excesso. Há uma certa herança de Fellini, referido aqui no momento em que os ex-mafiosos se encontram agora no papel de gladiadores que ganham trocados em plena madrugada nos arredores do Coliseu, e de quem posteriormente o cineasta praticamente faria seu próprio A Doce Vida (A Grande Beleza). Seu universo de caracterização dos personagens é de seres essencialmente ressentidos e cruéis, sempre dispostos aparentemente a rasgarem o já roto tecido das aparências sociais. Há um risco, eminente e não de todo liberto, da contaminação pelo excessivo cinismo e a misantropia de seus protagonistas não deixar espaço para que se consiga ir além, embora ainda se possa observar, de forma oblíqua uma certa reserva de ternura que paira potencialmente sobre a secura com que são descritos. Aqui, um mal amado, destituído de beleza e inescrupuloso rufião que se crê benfeitor. Filmado parcialmente em ambientes escuros, que pouco se divisa o que acontece, como é o caso da claustrofóbica residência de Geremia ou algumas vezes em ambientes nos quais a figura humana praticamente é massacrada pela monumentalidade do que a circunda – como no caso da cena filmada à noite junto ao monumento a Vittorio Emanuele II. Ao final de contas, a mãe se encontrava certa, Geremia errou ao fugir do habitual, investindo numa ação demasiado ousada e se apaixonando. Risco esse que o protagonista de A Grande Beleza não parece disposto a comprar. Mais cômodo continuar a se mover no eterno ressentimento, sobretudo se a alternativa a essa for ainda pior, provocada pelo fracasso do passo fora do esquadro. Ainda que superficialmente a fábula aponte para uma imposição de culpa à mendacidade de Geremia, sua ironia reside em que é ao fraquejar sentimentalmente que acaba se atropelando e não se redimindo como habitualmente ocorre. Algo, no final de contas, perfeitamente ajustado a essa visão de mundo pessimista e moral de seu realizador. Destituída, no entanto, de um maior aceno de empatia para com seus personagens, ao contrário de realizadores como Fassbinder. Aqui já se ensaiam, literalmente, os passos sincronizados de festas de uma elite mais afluente e/ou decadente observados com maior demora em A Grande Beleza.Fandango/Indigo Film/Medusa Film/Sky para Medusa Distribuizone. 102 minutos.



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