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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Filme do Dia: Memórias do Subdesenvolvimento (1968), Tomás Gutiérrez Aléa

Memórias do Subdesenvolvimento (Memorias del Subdesarollo, Cuba, 1968). Direção: Tomás Gutiérrez Aléa. Rot. Adaptado: Tomás Gutiérrez Aléa, baseado no romance Edmundo Desnoes. Fotografia: Ramón F. Suárez. Montagem: Nelson Rodríguez. Dir. de arte: Julio Matilla. Figurinos: Elba Pérez. Com: Sergio Corrieri, Daisy Granados, Eslinda Nuñez, Omar Valdés, Renée de la Cruz, Yolanda Farr, Ofelia González, Jose Gil Abad.
Havana, 1962. Sergio Carmona (Corrieri) decide permanecer em Cuba, enquanto todos os seus familiares e sua esposa partem para os Estados Unidos. Aos 38 anos, escritor frustrado, vive dos aluguéis da família. Envolve-se com a jovem de classe média baixa de 16 anos, Elena (Granados) que, rejeitada por ele, acaba-o acusando de estupro. Enquanto isso, vive-se em cuba a tensão da crise dos mísseis e da invasão da Baía dos Porcos.
Talvez o mais interessante desse filme seja a – ainda que involuntária – ambiguidade com que descreve toda a sua narrativa. Com um protagonista que aposta em permanecer em Cuba menos por vínculos diretos ou ideológicos com o regime e mais por “curiosidade desinteressada” e por nojo do estilo burguês de vida que levou até então, ainda que tampouco se engaje em qualquer medida na nova situação político-social que se estabelece. O retrato de um “fracassado” Sergio, que não conseguiu engrenar sua carreira literária e tampouco decidir sobre sua vida, com idade já tão avançada, bem poderia ser motivo para uma representação caricata de uma burguesia alienada e sem rumo após a subida de Castro ao poder (como parece ter sido o foco de uma nova adaptação do romance de Desnoes, intitulada sintomanticamente Memórias do Desenvolvimento, de 2007, em que o protagonista decide partir apenas para se desencantar com o mundo dito “desenvolvido”). Porém, o filme traça com extrema simpatia e autêntica pungência a personalidade de Sergio, suas memórias, a lembrança do único amor e apoio que realmente teve – Hanna, o casamento enquanto pouco mais que mera formalidade e convenção social com outra mulher, os amigos apenas interessados em valores que ele não mais acredita seus. O mais interessante é que, ao contrário de uma produção cubana crescentemente engajada com o passar dos anos, o filme rompe com qualquer esquematismo em sua descrição das relações entre classes na nova Cuba. A jovem de classe popular e, principalmente sua família, são descritos, ao final das contas, enquanto grandemente oportunistas, a justiça absolve Sergio e, apesar de sofrer um inquérito sobre seus bens materiais e sua fonte de renda, até o final ele continua mantendo o seu estilo de vida e seu apartamento sofisticado com vista para o mar. E, em seu final, tampouco apresenta qualquer “solução” para o impasse vivenciado pelo protagonista. Menos interessante quando resvala para um didatismo documental a partir de fotos fixas e imagens documentais do que quando envereda por uma arqueologia poética do passado do protagonista que, apesar de sua simpatia pelo novo regime, tampouco deixa de lado seu gosto “elitizado” ou passa a ter uma visão melhor do “povo” – visto como ele, de modo bastante conservador, como expressão de um atraso quase congênito. Assim, muito do desprezo crescente que Sergio nutre por Elena advém do fato dele perceber, com o passar do tempo, que a sofisticação que imaginara encontrar nela, nada mais era do que imaturidade e dispersão, e que ela não demonstra o menor interesse por seus refinamentos culturais, numa evidente metáfora para a relação problemática do protagonista com a cultura anti-burguesa e populista crescentemente vigente, também no plano cultural – ainda que o filme não aponte caricatamente para tal, ao contrário de A Morte de um Burocrata. Fica a dúvida se o protagonista seria a expressão do alter-ego do realizador em toda sua extensão ideológica, o que parece afirmativo – a certo momento ele aprecia Marilyn Monroe na TV, um dos ícones cinematográficos que seu filme anterior é dedicado.  Seu tom, de um memorialismo desencantado, atrelado a uma mudança político-social abrupta pode ser passível de estabelecer paralelos com filmes como Antes da Revolução (1964), de Bertolucci e O Desafio (1965), de Paulo César Saraceni, também com protagonistas em crises existenciais diante da situação política de seus países e de seus círculos sociais. Por outro lado, afasta-se das comédias auto-indulgentes e de pobres alusões metafóricas como A Mortede um Burocrata (1966) e Guantanamera (1995). Como em sua produção anterior, faz uso em diversos momentos de cacoetes estilísticos então comuns em um cinema de proposta mais autoral, como a exibição repetida de um mesmo plano. Aléa surge em uma ponta como o diretor a quem Sergio encaminha Elena para um teste. ICAIC. 97 minutos.


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