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domingo, 2 de novembro de 2014

The Film Handbook #2: Howard Hawks






Nascimento: 30/05/1896/Goshen, Indiana, EUA
Morte: 26/12/1977/Palm Springs,Califórnia, EUA
Carreira como diretor: 1926-1967

Howard Winchester Hawks, considerado por si mesmo um contador de histórias somente interessado em "divertir e entreter" foi um dos melhores diretores que o cinema já conheceu. Assumido realizador de entretenimento em quase todos os gêneros tradicionais hollywoodianos, trouxe um estilo pessoal e uma visão intuitiva capaz de suprir uma quantidade surpreendente de materiais bem distintos. De fato, pode-se defender que seus filmes de guerra, westerns, comédias malucas, suas contribuições ao filmes de detetives e filme de ação de gangsters, assim como a ficção-científica raramente foram ultrapassados.

O primeiro encontro de Hawks com o cinema foi como auxiliar de cenografia mas, após a Primeira Guerra Mundial, durante a qual serviu na força aérea americana, trabalhou como montador e assistente para diretores como Dwan e Marshall Neilan. Por volta de 1924 tornou-se o chefe do departamento de roteiros da Paramount, e dois anos depois houve sua estreia na direção com Caminho da Glória (The Road to Glory). Seu trabalho no cinema mudo foi rotineiro mas, em sua maior parte, eficientemente  realizado, e Uma Noiva em Cada Porto (A Girl in Every Port) >1, estrelado por Louise Brooks, introduz o duradouro tema hawksiano da amizade masculina ameaçada por uma mulher forte. Com a chegada do som, no entanto, o diretor se sentiu em casa, fazendo uso de rápidos diálogos, frequentemente sobrepostos, para criar tensão, enquanto os gestos e ações definiam os personagens. Seu primeiro filme falado, Patrulha da Madrugada (The Dawn Patrol)>2, estabeleceu uma situação arquetípica de Hawks: durante a Primeira Guerra Mundial, os pilotos venciam o medo da morte através do profissionalismo e respeito mútuo, raramente verbalizado. Grupos de homens, enfrentando estoicamente o perigo, surgem repetidamente nos filmes de aventuras de Hawks, permitindo variações sutis sobre temas como coragem, união, fracasso e responsabilidade. O Código Penal (The Criminal Code) diz respeito a uma revolta penitenciária, Delirante (The Crowd Roars) sobre corrida de carros, O Tubarão (Tiger Shark), com a pesca de atum. Do início ao final, a ação heroica era contraposta ao engenhoso pessimismo e Scarface >3, de longe o melhor dos primeiros filmes de gangster, descreve seu protagonista no estilo de Capone como um idiota sanguinário atormentado pela inveja incestuosa da irmã, sendo a única característica que o redimia o seu amor pela ópera.

Entretanto, ao lado de seus filmes de ação, Hawks também provou ser um excelente diretor de comédias, frequentemente batalhas entre os sexos. Uma das melhores comédias malucas, Suprema Conquista (Twentieth Century), >4, opõe um implacável  e manipulativo hipnotizador contra sua astuta protegida, uma ingênua que havia se transformado em estrela; sátira hilária dos desenfreados hábitos teatrais, seu uso da famosa interpretação exacerbada de John Barrymore é inspiradora.  Levada da Breca (Bringing Up Baby) >5, une um enfadonho paleontólogo  e uma desmiolada socialite numa farsa romântica que retrata a atração da insanidade; de modo interessante, a insegurança com relação as mulheres dos filmes de aventuras torna-se, nas comédias, completa paranoia e impotência.  De fato, pela época de Paraíso Infernal (Only Angels Have Wings) >6, drama aéreo no qual Cary Grant luta para manter no ar um avião carregando o correio sob os Andes, a comédia se torna inseparável da tragédia e o amor platônico entre homens se torna explícito: a súbita morte do piloto é lembrada com piadas e canções que encobrem a tristeza de seus colegas; as mulheres, cuja presença ameaça a unidade coletiva, simultaneamente demonstram seu valor agindo como os homens e ao mesmo tempo servindo como válvulas de escape para as emoções não verbalizadas e ternas dos pilotos.

De forma crescente, Hawks investiu contra os estereótipos sexuais e convenções de gêneros. Seu Jejum de Amor (His Girl Friday) >7, talvez a comédia falada mais rápida de todos os tempos, extrai seu humor de situações macabras (um editor de jornal implacável e auto-centrado luta para prevenir que sua esposa/jornalista de destaque o abandone para cobrir o furo da execução por assassinato de um tolo inocente) enquanto Bola de Fogo (Ball of Fire) traduz a história da Branca de Neves em uma comédia sobre gangsters na qual uma dançarina de burlesco e sete professores infantilizados pesquisam um léxico de gírias. Ao mesmo tempo, Sargento York (Sergeant York) acena para sentimentos pacifistas numa narrativa sobre um herói de guerra, e os filmes de ação Uma Aventura na Martinica (To Have and Have Not) e À Beira do Abismo (The Big Sleep)>tornam-se, mais que tudo, romances engenhosos, incandescidos pelo magnetismo entre Bogart e a descoberta de Hawks, Lauren Bacall. Os diálogos, insolentes e repletos de insinuações, sugerem as barreiras invisíveis que os personagens constroem um contra o outro; as emoções mais profundas são traduzidas através de brilhantes e frequentemente irônicos gestos sutilmente elaborados, notadamente centrados ao redor de rituais comunais de acender cigarros. De forma efetiva, Hawks se encontra agora menos interessado nas histórias que em seus personagens, admitindo orgulhosamente que nem ele nem Raymond Chandler sabiam quem havia assassinado o chofer no labiríntico enredo de À Beira do Abismo.

A arte do diretor atingiu seu auge quando não mais ele sentia necessidade de esconder suas permanentes preocupações. Recorrentemente, filme após filme, cenas e mesmo diálogos utilizados em contextos variados suprem nuances emocionais infinitas; Hawks refez seu Bola de Fogo como musical com A Canção Prometida (A Song is Born). Rio Vermelho (Red River) >9 foi o primeiro dos quatro westerns com John Wayne; de forma típica, o heroico ator, de persona já elaborada se transforma no retrato de um pervertido patriarca enquanto obsessivamente lidera um épico comboio de gado que resulta na perda de fé nele por parte de seus vaqueiros e de seu "filho adotivo". O Monstro do Ártico (The Things from Another World) >10, embora creditado como dirigido pelo montador de Hawks, Christian Nyby, é claramente obra do mestre: novamente, entre agitados diálogos e engenhosas passagens, um grupo isolado (efetuando pesquisa científica no Ártico) ameaça se desintegrar com a chegada de um estranho ao grupo (dessa vez não uma mulher, mas um alienígena intelectual). Porém, a guerra entre os sexos continuava em comédias repletas de referências sombrias à insanidade e humilhação: A Noiva era Ele (I Was a Male War Bride - You Can't Sleep Here), O Inventor da Mocidade (Monkey Business) e o extravagante musical Os Homens Preferem as Louras (Gentlemen Prefer Blondes) >11, que sem muito esforço transforma a farsa sobre garimpeiros em um tributo tanto à malícia feminina quanto uma zombaria da infantil lubricidade masculina.

Próximo do final de sua carreira, os filmes de Hawks se tornaram de estilo ainda mais vagaroso, os diálogos frenéticos dando lugar a um relaxado e contemplativo sumário de temas. Onde Começa o Inferno (Rio Bravo) >12, além de ser uma engenhosa resposta a Matar ou Morrer (High Noon) (o xerife rejeita mais que busca ajuda que desesperadamente necessita contra os vilões) torna-se um comovente retrato de redenção através do auto-respeito, seu delegado bêbado sendo repetido de forma mal disfarçada no posterior e grandemente semelhante El Dorado. De fato quase todos os últimos filmes de Hawks podem ser vistos como variações sobre sua obra anterior. O grupo em safári em Hatari! >13, combina aspectos de Paraíso Infernal, Rio Vermelho e Rio Bravo; O Esporte Favorito do Homem (Men's Favourite Sport), que equaciona de maneira engenhosa estratégias de pesca e corte, faz referências descaradas a Levada da Breca; o frequentemente afetado Faixa Vermelha 7000 (Red Line 7000), revisita o tema da corrida de carros; enquanto um último western, Rio Lobo acrescenta, talvez apropriadamente, o problema do envelhecimento ao conjunto de motivos constantemente refinados por Hawks ao longo de sua obra que abrange cerca de três décadas e meia.

Ao se mover gradualmente dos enredos para os personagens preocupados com questões morais e sociais, Hawks provou ser um grande humanista. Seu estilo modesto (planos médios à altura dos olhos, montagem fluida e narrativas lineares que respeitam as unidades dramáticas) evitam a auto-consciência, refletindo não o olhar de um artista grandioso, mas a riqueza essencial de seus personagens (e, por implicação, de seu público), enquanto o domínio absoluto que concedia aos atores assegura uma rara espontaneidade. Ao adaptar os gêneros aos seus propósitos, Hawks demonstrou uma atitude nada paternalista com o entretenimento popular e transformou uma visão de mundo pessoal em mito universal.

Genalogia
Menos sentimental e determinadamente poético que Ford, com quem é frequentemente comparado, o retrato de Hawks dos humanos definido pela ação possui um paralelo em Walsh, enquanto sua generosidade em relação às vidas interiores ecoa Renoir. A diversidade de sua obra assegura sua ampla influência; mais recentemente, em Bogdanovich, Hill e Carpenter.

Leituras Futuras
Howard Hawks (Londres, 1977de Robin Wood, Howard Hawks, Storyteller (Nova York, 1982), de Gerald Mast, The Cinema of Howard Hawks (Nova York, 1962), de Peter Bogdanovich, apresenta uma entrevista.

Destaques
Uma Garota em Cada Porto, EUA, 1928 c/Victor McLaglen, Robert Armstrong, Louise Brooks.
2 Patrulha da Madrugada, EUA, 1930 c/Richard Barthelmess, Douglas Fairbanks Jr., Clyde Cook.
3 Scarface - A Vergonha de uma Nação, EUA, 1932 c/Paul Muni, Ann Dvorak, Boris Karloff, George Raft
4 Suprema Conquista, EUA, 1934 c/John Barrymore, Carole Lombard, Walter Connoly.
5 Levada da Breca, EUA, 1938 c/Cary Grant, Katherine Hepburn, Charles Ruggles.
6 Paraíso Infernal, EUA, 1939 c/Cary Grant, Jean Arthur, Richard Barthelmess.
7 Jejum de Amor, EUA, 1940 c/Cary Grant, Rosalind Russell, Ralph Bellamy
8 À Beira do Abismo, EUA, 1946 c/Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Ridgely
9 Rio Vermelho, EUA, 1948 c/John Wayne, Montgomery Clift, Joanne Dru.
10 O Monstro do Ártico, EUA, 1951 c/Kenneth Tobey, Robert Cornthwaite, Margaret Sheridan.
11 Os Homens Preferem as Louras, EUA, 1953 c/Marilyn Monroe, Jane Russell, Charles Coburn.
12 Rio Bravo, EUA, 1959 c/John Wayne, Dean Martin, Angie Dickson.
13 Hatari!, EUA, 1962 c/John Wayne, Elsa Martinelli, Red Buttons.

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 126-8.

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