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domingo, 16 de novembro de 2014

Filme do Dia: Effi Briest (1974), Rainer Werner Fassbinder

Effi Briest (Effi Briest, Alemanha Ocidental, 1974). Direção: Rainer Werner Fassbinder. Rot. Adaptado: Rainer Werner Fassbinder, adaptado do romance de Theodor Fontane. Fotografia: Jürgen Jürges & Dietrich Lohmann. Montagem: Thea  Eymész. Dir. de arte: Kurt Raab. Figurinos: Barbara Braun. Com: Hanna Schygulla, Wolfgang Schenck, Ulli Lommel, Lilo Pempeit, Herbert Steinmetz, Ursula Strätz, Irm Hermann, Karlheinz Böhm, Karl Scheydt, Barbara Lass, Rudolf Lenz, Eva Mattes, Andrea Schober, Theo Tecklenburg.
A jovem Effi Briest (Schygulla), aos 17 anos, é recomendada pelos pais para casar com o já maduro e também rico Barão von Instetten (Schenck). Porém, logo o casamento se transforma num fardo para Effi, que passa a viver no campo. Suas limitações culturais a impedem de freqüentar o círculo de seu refinado marido, que viaja a maior parte do tempo. Sentindo-se só e entediada, Effi ainda é atormentada por ruídos que acredita serem do chinês que vivera na casa anteriormente. A proximidade do Major Crampas (Lommel) a faz voltar  sentir atração pela vida. Logo, se tornam cúmplices e amantes. O Barão não vê com bons olhos a amizade de ambos e se sente aliviado quando é transferido para Munique. Certo dia, no entanto, descobre a correspondência secreta dos amantes e, mais por se sentir no dever perante à sociedade que por espontânea vontade, bate-se num duelo matando Crampas. Com o escândalo, Effi torna-se uma criatura que vive completamente à margem da sociedade, passando anos sem ter contato com a filha e sendo apoiada somente pela fiel camareira Roswitha (Strätz). Adoecida, com muita relutância é aceita novamente pelos pais, depois dos rogos do médico que a visitou. Pede que seu túmulo possua apenas o nome de solteira, e aceita que o marido se encontrava com a razão de ter agido assim para com ela.
Essa rigorosa adaptação de Fontane marcada pelos tons brancos de suas poéticas fusões – que evoca o igual uso do recurso, na coloração vermelha, por Bergman em Gritos e Sussurros – explora o quanto às convenções sociais conferem estreitos papéis aos indivíduos, tema recorrente em boa parte da obra do cineasta. Nesse sentido, apontam tanto o comportamento mais explícito do Barão, que se vê dividido entre o desejo pessoal e o bem público, e acaba por acreditar que o segundo é o único possível após ter confidenciado o segredo da traição da esposa ao seu melhor amigo, quanto o dos pais de Effi, principalmente a rigorosa mãe que há todo momento reforça que a culpa fora dela própria. Revertendo às expectativas do gênero, no entanto, a própria protagonista, bastante avançada para os valores de sua época (numa conformação mais terna e menos radical de outra figura feminina deslocada em seu tempo, a Geesche de Afinal, uma Mulher de Negócios) tende igualmente ela, por fim, a ceder à pressão social e, no leito de morte, fazer uma mea culpa de toda sua revolta contra as convenções morais de sua época (nesse sentido o filme sendo menos esquemático e idealista na sua afirmação da protagonista que o anterior). Até mesmo depois de morta, ironicamente seus pais ainda debatem sobre se foram severos demais ou de menos com a filha. Trata-se da primeira incursão do cineasta no drama de época, porém mesmo sendo uma produção com maior requinte que o habitual (até mesmo pelas exigências de se tratar justamente de um drama histórico),  não cede aos encantos vazios de uma mera concepção visual elaborada, mas igualmente mantém seu distanciamento emocional, presente tanto na contenção das interpretações quanto na narração  off e nos recorrentes comentários escritos. Tango Film. 140 minutos.

2 comentários:

  1. Vi o filme há dois anos. Seu comentário elucidativo o reavivou na minha mente. Mais surpreendente que Fassbinder fazendo um drama de época em P&B só seria se a protagonista não tivesse uma personalidade própria. Fassbinder sabia muito bem sobre ser constrangido por convenções sociais rígidas e hipócritas. Não é dos mais festejados do diretor, mas acho um dos melhores que já vi dele.

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  2. Sim, concordo com você Gustavo! Tenho apreço por esse filme também. Grato por seu comentário!

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