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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Filme do Dia: O Rosto (1958), Ingmar Bergman


O Rosto Poster



O Rosto (Ansiktet , Suécia, 1958) Direção: Ingmar Bergman. Rot.Original: Ingmar Bergman. Fotografia: Gunnar Fischer. Música: Erik Nordgren. Montagem: Oscar Rosander. Com: Max von Sydow, Gunnar Björnstrand, Erland Josephson, Ake Fridell, Naima Wifstrand, Bibi Andersson,  Frithiof Bjärne, Tor Borong, Axel Düberg, Lars Ekborg, Bengt Ekerot, Gertrud Fridh, Oscar Ljung, Toivo Pawlo, Birgitta Pettersson, Sif Ruud, Ulla Sjöblom, Ingrid Thulin.
        1846. Uma trupe de curandeiros e hipnotizadores ambulantes formada pelo Dr.Albert Vogler (von Sydow), sua esposa Manda (Thulin), disfarçada de homem, sua avó (Wifstrand), seu ajudante Tubal (Fridell) e o guia Simson (Ekborg). No meio do percurso Vogler encontra o artista decadente Spengler (Ekerot), que morre pouco depois na carruagem. Tendo interrompido sua viagem na alfândega, eles são levados a casa do Consul Vergerus (Björnstrand), que não perde a oportunidade para utilizar suas novas presas como um modelo da maléfica influência dos tempos pré-científicos, contando com a cumplicidade do delegado Starbeck (Pawlo). Após uma apresentação, parece ficar patente a todos que não passam de um grupo de charlatães, a não ser para a mulher do consul, Otillia (Fridh), ainda muito abalada com a morte da filha, que não só reclama da utilização pouco escrupulosa do grupo como piada para seu marido, como sente-se instantaneamente atraída e crente na força de Vogler. Ao mesmo tempo, o tímido Simson cai nas graças da bela criada Sara (Andersson) e Tubal nas da cozinheira Sofia (Ruud), que lhe pede para que ele venda sua poção do amor. A avó de Vogler, que se acredita bruxa, afirma para o cocheiro Antonsson (Düberg), que não teme seu olhar maligno, pois o viu enforcado por roubo. O consul Vergerus descobre a verdadeira identidade de Manda e se apaixona por ela. Spengler, ainda não morto, aparece e é tido como fantasma. Morre realmente nos braços de Vogler. Quando a esposa de Vergerus ouve um barulho na sua porta pensa ser Vogler, a quem confiara que viesse à noite, qual não é sua decepção quando entra o marido, que chama de “maricas”. Numa sessão de hipnotismo, a mulher do delegado, Henrietta (Sjöblom), revela detalhes escabrosos de sua vida conjugal na frente de todos, sob a relutância do marido. Quando o cocheiro é acorrentado por correntes invisíveis, reage violentamente e agride Vogler. Vergerus declara-o morto. Servirá como objeto de estudo e terá seu cérebro avaliado.  A avó de Vogler encontra Antonsson morto por enforcamento. Enquanto Vergerus realiza a necropsia, Vogler, ajudado por seus amigos, aterroriza-o até um grito desesperado e Vergerus descobre que, na verdade, o cadáver era do ator morto. Achando indigente tudo o que ocorrera, enquanto Vogler, desmascarado, humilha-se para que possam partir. Quando se preparam para a partida, Tubal resolve abandonar o grupo e ficar com Sara, a avó desiste de prosseguir e Sara pede para se fazer parte do grupo, para ficar próxima de Simson. A polícia se aproxima. Atemorizados, pensam que se trata de uma ordem de prisão. Na verdade, o Rei afirma que quer assistir a uma apresentação do grupo.
Levando ao primeiro plano, um tema que havia deixado em plano secundário em O Sétimo Selo, a arte e a magia, Bergman aqui vai mais longe e traz uma visão bem mais nuançada e menos apologética de ambas, ainda que o filme esteja longe de se aproximar das qualidades cinematográficas do filme anterior. Se toda a compostura e cientificidade que aureola os homens do poder, cônsul e delegado, são desmascaradas e seu mundo de certezas científicas de cunho positivista começa a desmoronar, juntamente com sua respeitabilidade moral (a mulher do consul que procura apoio em Vogler, a esposa do delegado que conta toda sua vida de aparências), em grande parte devido a estreiteza de seu olhar e pretensa auto-suficiência que deixa para plano secundário o afeto, o “mágico” também não fica atrás. No final, quando a máscara que lhe oculta cai literalmente de seu rosto, Vogler não passa de um charlatão infame implorando sua liberdade. Peca por sua falta de autenticidade. À avó de Vogler cabe o papel de ser o reduto em que a verdadeira magia ainda se preserva, já que, como afirma Tubal, a certo momento, ela é de outra época, onde a ciência ainda não imperava. Porém, ao contrário de O Sétimo Selo, onde a autenticidade era considerada como elemento fundamental para o artista (o casal Mia e Jof sobrevive, enquanto o farsesco Skat é morto), aqui Bergman não só deixa todos os artistas à salvo (com exceção do já condenado Spengler), como o reconhecimento ocorre justamente para os “não autênticos”, já que a avó de Vogler desiste de continuar com a trupe, pouco antes do convite do Rei. Nesta seqüência final fica patente a demonstração da instabilidade da vida de artista - em um momento Vogler implorando dinheiro e liberdade e, no momento seguinte, partindo orgulhoso para à Corte. Ao premiar o ilusionismo na seqüência final, Bergman apresenta uma visão menos amarga que a de Monika e o Desejo, onde este é um frágil pilar que se destroça ao menor sopro de vida real, assim como destaca a falta de autenticidade e verdadeira “magia” da arte contemporânea. Quanto ao irônico retrato da cientificidade positivista da época, Bergman muito se aproxima de Herzog em O Enigma de Kaspar Hauser. Nomes de alguns personagens seriam retomados em dramas  contemporâneos do cineasta como Vogler e Vergerus. Svenskfilmiundustri. 100 minutos.


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