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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

The Film Handbook#88: Henri-Georges Clouzot




Henri-Georges Clouzot
Nascimento: 20/11/1907, Niort, França
Morte: 12/01/1977, Paris, França
Carreira (como realizador): 1942-1968

Embora diversos dos filmes mais bem sucedidos comercialmente de Henri-Georges Clouzot tenham sido vencedores de festivais, ele é frequentemente considerado como um mero técnico, interessado nos mecanismos do suspense. Mesmo que sua visão da humanidade seja mais pessoal e consistente que a de muitos diretores menores que foram proclamados grandes artistas.

Anteriormente crítico, Clouzot entrou para a indústria do cinema como roteirista e assistente das versões francesas de filmes alemães. Sua estreia na direção com O Assassino Mora no 21/L'Assassin Habite au 21 foi um thriller semi-cômico astuto, ainda que relativamente convencional, memorável sobretudo  pelo seu uso atmosférico de  autenticamente velhos cenários de estúdio. Seu filme seguinte, no entanto, Sombra do Pavor/Le Corbeau>1 foi uma obra-prima da misantropia: dissecando o colapso moral de um pequeno vilarejo francês, aflito com uma onda de assassinatos através de cartas envenenadas, Clouzot revela uma visão da motivação humana como azeda e invejosa. Ganância, inveja, hipocrisia e ódio são os instintos primários de seus personagens; crueldade e suspeita mútua se encontram em cada ato de comunicação. Tal foi o poder - e talvez a verdade - da visão provinciana de Clouzot que foi interpretada como um ato de colaboração com os ocupantes nazistas; rumores sugeriram que ele foi exibido na Alemanha como propaganda anti-francesa. Clouzot ficaria desempregado por diversos anos.

A estupidez e falsidade das acusações foram comprovadas em seus filmes posteriores. Até mesmo o relativamente bem-humorado Crime em Paris/Quai des Orfévres>2 revela uma evocação melancólica dos precários cafés-concertos, apartamentos minúsculos e delegacias de polícia sombrias, embora seu casal central, suspeito de matar um lascivo pornógrafo, continuamente minta para si mesmo enquanto seu casamento esmorece sob a pressão da pobreza, insinuações policiais, possessividade e infidelidade. (Inversamente, o policial durão e piadista de Louis Jouvet, acrescido de um filho negro muito amado é observado com rara e surpreendente entusiasmo), Em Clouzot, os relacionamentos são zonas de conflitos: violentos, insensíveis e, frequentemente, destinados a afundar em um redemoinho de enganos e crueldade destrutiva.

Após uma atualização nada glamorizada e amoral de Manon Lescaut em Anjo Perverso/Manon e o inferior Miquette et sa Mère, Clouzot retornou à forma com O Salário do Medo/La Salaire de la Peur>3 no qual quatro desesperados expatriados europeus concordam em dirigir dois caminhões-tanques de nitroglicerina por entre quilômetros de estradas montanhosas repletas de buracos. Uma abertura audaciosamente lenta e atmosférica estabelece tanto os personagens como a influência maligna dos interesses petrolíferos norte-americanos em um empoeirado vilarejo sul-americano, antes que a odisseia se inicie. A tensão nunca se ausenta: a amizade sucumbe a ganância financeira, honra  e suor do medo de uma morte súbita. Igualmente fascinante em termos de suspense foi As Diabólicas/Les Diaboliques>4, mistério ambientado em um internato pobre para meninos. O enredo - um diretor sádico é assassinado por sua esposa e sua amante; ameaçadora e inexplicavelmente, seu corpo desaparece - é demasiado planejado para sobreviver a repetidas visadas, mas suas fortes imagens cinzas que enfatizam a decadência física oferecem um preciso e sombriamente poético correlativo visual para as emoções pervertidas de seus personagens.

Depois de um admiravelmente lúcido documentário que apresentava Picasso em atividade e o irregular e farsesco thriller de espionagem Os Espiões/Les Espions, A Verdade/La Verité>5 foi um retrato sutil dos eventos que levaram o assassinato por uma jovem de seu amante, marcado pela evidente desconfiança de Clouzot da tentativa do sistema judicial de explicar crimes aparentemente insondáveis. Análise mais que condenação das perversidades do comportamento humano ocorrem novamente em A Prisioneira/La Prisonnière, mas - Clouzot adoeceu por algum tempo - o filme foi somente parcialmente bem sucedido.

Clouzot é talvez o mais devotado pessimista do cinema: nenhum outro diretor retratou os vícios humanos de forma tão persuasiva. Se sua visão pessimista do mundo é, no final de contas, limitada e pouco atraente, seu status como um realizador maior, vinculado ao entretenimento através do suspense embora simultaneamente expressando seu desânimo privado com precisão visual elegante e detalhista, permanece intacta.

Cronologia
O pessimismo moral de Clouzot, táticas de choque e desembaraço em apresentar os piores excessos humanos sugere paralelos com Hithcock e Fuller, embora seu foco na crueldade, dominação e decadência possam ser comparados com o de figuras tão diversas quanto Leone, Blier e Fassbinder

Leituras Futuras
French Cinema Since 1946 Vol.1 (Londres, 1970), de Roy Armes.

Destaques
1. Sombra do Pavor, França, 1943 c/Pierre Fresnay, Pierre Larquey, Ginette Leclerc

2. Crime em Paris, França, 1947 c/Bernard Blier, Suzy Delair, Louis Jouvet

3. O Salário do Medo, França, 1953, c/Yves Montand, Charles Vanel, Peter van Eyck

4. As Diabólicas, França, 1955 c/Vera Clouzot, Simone Signoret, Paul Meurisse

5. A Verdade, França, 1960 c/Brigitte Bardot, Sami Frey, Charles Vanel

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 56-7.

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