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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Filme do Dia: Interestelar (2014), Christopher Nolan




Interestelar (Interstellar, EUA/Reino Unido, 2014). Direção: Christopher Nolan. Rot. Original: Christopher Nolan & Jonathan Nolan. Fotografia: Hoyte Van Hoytema. Música: Hans Zimmer. Montagem: Lee Smith. Dir. de arte: Nathan Crowley & Dean Wolcott. Cenografia: Gary Fettis. Figurinos: Mary Zophres. Com: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, John Lithgow, Michael Caine, Mackenzie Foy, Ellen Burstyn, David Gyasi, Jessica Chastain, Casey Affleck, Matt Damon.
Num futuro próximo, no qual a Terra é devastada por frequentes catástrofes naturais e escassez, um misterioso elo que une espaço-tempo é descoberto. Uma missão é articulada para uma viagem espacial que significará o potencial senão de salvar o próprio planeta, de salvar a espécie humana. Na frente dessa missão se encontra o Dr. Brand (Caine). Dentre os astronautas que participam da missão, sua filha, Amelia (Hathaway) e Cooper (McConaughey), que parte devastado pois não sabe se voltará a encontrar sua filha, Murph (Foy).
O estranho distanciamento algo hipnótico do filme em grande parte se deve a magistral trilha sonora de Zimmer além de seu ritmo diferenciado que criam uma atmosfera grandemente enigmática e para-real. Porém tudo isso, de certa forma, não impede que lugares-comuns bem mais próximos da produção mainstream pipoquem a todo momento, como a condescendência orgulhosa com que a equipe de cientista troque olhares cúmplices a determinado momento ou que pérolas como a de Brand (“o tempo é relativo, ok?”) ou o melodrama que acompanha a relação pai-filha. Eainda os diálogos sobre o amor disparados pela mesma Brand, como algo transcendental que supera o utilitarismo esquemático de um empostado cinismo de Cooper. Talvez se houvesse menos diálogos o filme ganhasse outra conotação/coloração. Mas aí certamente sequer teria sido produzido. Ou ao menos tido o aparato de produção que teve. Portanto, não há duvida que mesmo com todo seu estranhamento o filme se encontra mais próximo de uma ficção-científica padrão que de um filme como Solaris, com o qual parece igualmente flertar, adaptando aos seus propósitos. Se 2001 traía ainda um forte espírito de conquista associada ao futuro e as novas tecnologias, aqui se luta por uma última esperança não exatamente para a Terra, mas para a sobrevivência da espécie humana. Paralelos podem ser traçados com o cinema de Terrence Malick (não por acaso Zimmer sendo habitual colaborador do realizador e Chastain se encontra em A Árvore da Vida), na sua mescla entre convenções de gênero e estilo super-produção com uma dimensão de pretensões metafísicas e também na grandiloquência algo indigesta com a qual confunde sem constrangimento dramas familiares e a sobrevivência do planeta. E atualizações de convenções que remontam ao melodrama teatral pós-Revolução Francesa como o dos relógios substituindo os medalhões que unem pai à filha e possuem, evidentemente, maior vinculação com a dimensão temporal que é um do cernes do filme. Para não falar da própria Cristandade, da filha moribunda e velha que sempre acreditou no “Retorno do Pai”. Paramount Pictures/Warner Bros./Legendary Pictures/Lynda Obst Prod./Syncopy para Paramount Pictures. 169 minutos.


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