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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Filme do Dia: Laura (1944), Otto Preminger




Laura (Laura, EUA, 1944). Direção: Otto Preminger. Rot. Adaptado: Jay Dratler, Samuel Hoffenstein & Elizabeth Reinhardt, a partir de um romance de Vera Caspery. Fotografia: Joseph LaShelle & Lucien Ballard. Música: David Raksin. Montagem: Louis R. Loeffler. Dir. de arte: Leland Fuller & Lyle R. Wheeler. Cenografia: Thomas Little. Figurinos: Bonnie Cashin. Com: Gene Tierney, Dana Andrews, Clifton Webb,  Vincent Price, Judith Anderson, Grant Mitchell, Dorothy Adams, John Dexter, Ralph Dunn.
O detetive McPherson (Andrews) investiga a morte de Laura (Andrews), jovem publicitária que ganha as graças do esnobe Waldo Lydecker (Webb). Lydecker, completamente obcecado pela jovem, a afasta de todos os homens que se interessam por ela como o artista Jacoby (Dexter), destruindo o que ainda restava de reputação. Porém, a situação é diferente quando ela se agrada de fato do oportunista Shelby (Prince), amante-gigolô da tia de Laura, Ann (Anderson).  Sem conseguir avançar nas investigações, McPherson também passa a se tornar obcecado pela figura de Laura. Enquanto dorme no apartamento dela, é surpreendido por seu retorno. Ficam sabendo então que o cadáver encontrado no apartamento de Laura era o de uma modelo que trabalhava na agência. Resta saber quem é o assassino.
Com marcante fotografia em p&b, esse clássico noir consegue, com sutileza, um nível de ambiguidade incomum para o cinema norte-americano de seu período. Tudo se dá, sobretudo, com o ressurgimento de Laura, que pode ser interpretado, a partir de uma aproximação da câmera similar a convenção que antecipava um momento de transição da descrição objetiva para um espaço onírico ou de forma literal.  O que o filme apresenta de virtuoso em termos de apresentação de sua narrativa – incluindo, por exemplo, uma narração over ao início que acena para a possibilidade de Lydecker ser o protagonista do filme -  talvez fique a dever em termos de elaboração/identificação com seus personagens, apresentados de forma decepcionantemente rala. À exceção da personagem-título de Tierney que, no auge de sua carreira, encarna uma protagonista ambígua como o filme, suave e doce no trato, mas ao mesmo tempo passível de ser observada como volúvel em relação aos homens e mesmo interesseira, já que ascende socialmente a partir de sua “amizade” com Lydecker. Já encarnando esse último está Webb, que não vivia ninguém além de uma persona cinematográfica muito próxima dele próprio, um dândi elegante e algo efeminado – notável aqui é seu costume de datilografar seus artigos de sua banheira; trata-se da retomada triunfal da carreira do ator, em seu  primeiro longa em 19 anos. Uma das possibilidades mais interessantes de se lidar com a ambiguidade narrativa é observar que, juntamente com ela, pode-se observar igualmente dois tipos masculinos e de visões de mundo diametralmente opostas, a do “tira durão” e misógina representado por Andrews e a do homem refinado e culto de Webb. Ao se apostar na versão dele como assassino,  observa-se mais um exemplo de vilão reservado a senão exatamente personagens, atores homossexuais de longa lista na Hollywood clássica (como demonstra o documentário O Celulóide  Secreto); ao se apostar nas ironias (que podem servir como pistas para o caráter psico-paranoico do herói) de Lydecker/Webb, tem-se uma potencialmente sutil reversão da romantização do tipo “durão” pelo gênero. E o mesmo vale para a construção da personagem principal, mulher emancipada e autonôma a se crer em Lydecker, passiva, submissa e típica candidata a esposa a se crer em  McPherson. Preminger, um dos mais ousados cineastas da década seguinte, com temas que iam contra o que ficou popularizado como Código Hays, já antecipa aqui algo de sua verve iconoclasta. 20th Century-Fox. 88 minutos.


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