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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Filme do Dia: Nós, Meninos Pródigos (1958), Kurt Hoffman


Nós, Meninos Pródigos Poster


Nós, Meninos Pródigos (Wir Wunderkinder, Al. Ocidental, 1958). Direção: Kurt Hoffman. Rot. Adaptado: Heinz Pauck & Günter Neumann, a partir do romance de Hugo Hartung. Fotografia: Richard Angst. Música: Franz Grothe. Montagem: Hilwa von Boro. Dir. de arte: Franz Bi & Max Seefelder. Figurinos: Elisabeth Urbancic. Com: Hansjörg Felm, Johanna von Koczian, Wera Frydtberg, Robert Graf, Elisabeth Flickenshildt, Jürgen Goslar, Liesl Karstadt, Michl Lang.
Anos 1930. O jornalista Hans (Felm) vê sua situação profissional abalada gradativamente com a ascensão do Nazismo. Algo que também afeta sua vida pessoal. Apaixona-se grandemente por Vera (Frydtberg) que, numa viagem a Europa, após ter postergado o casamento com Hans para realizar seu doutorado, decide não mais voltar a Alemanha por conta da pressão em relação a seu pai.  Hans continua morando na pousada dos tempos de estudante e uma jovem dinamarquesa, Kirsten (Koczian), que havia flertado com ele em uma festa de carnaval, muda-se para lá e tenta se aproximar, sem muito sucesso, dele. Ao retornar da viagem para a Itália, na qual teve que se separar de Vera, Hans também descobre que Kirsten não mais mora por lá. Ele também perde seu emprego. Tenta buscar apoio em Bruno Tiches (Graf), colega de escola, mas após visita-lo em sua mansão, não concorda em ingressar no partido. Passa a trabalhar como auxiliar numa livraria. É lá que Kirsten o reencontra. Ela o chama para uma viagem a Noruega, onde ele conhece a família dela, casam-se, mas decidem retornar para a Alemanha. Passam por um período de provações no imediato pós-guerra. Hans volta a reencontrar Bruno, afastado do establishment nazista, mas ainda vinculado com situações que o beneficiam, agora como contrabandista do mercado negro. Tempos depois, Hans recebe um convite para um novo emprego e local para morar. Ele passa a comandar uma revista. Certo dia recebe a visita de ninguém menos que Bruno Tiches, incomodado com a notícia sobre o seu passado. Ao sair do escritório por engano entra no elevador que estava em reparos.
O filme surpreende por buscar conciliar o estilo romântico-escapista das produções alemãs rotineiras da época com talvez uma primeira incursão satírica (e corrosiva) sobre o recente passado alemão. E, mais que isso, o faz dentro de uma moldura abertamente reflexiva, a partir dos músicos que comentam sobre as ações que ocorrem no filme, assim como apresentam a própria música que serve como trilha sonora do mesmo, provocando ao mesmo tempo um relativo distanciamento diante do que é narrado e uma aberta alusão a tradição da cultura de cabaré berlinense anterior a eclosão do nazismo. Embora a história compreenda desde 1913 até os anos próximos em que o próprio filme foi produzido, o miolo de tudo se desenrola entre os anos de ascensão e derrocada nazista. Antes, tudo é apresentado sob a forma segmentada de estilo cinejornal com os referidos comentaristas. O filme apenas adentra de fato em seu universo ficcional no período em questão. Sobre o período do Milagre Econômico na qual a narrativa se encerra, não se deixa de explicitar a presença de boa parte das fileiras nazistas no topo da pirâmide econômica, sua sátira indo desde uma menção mais genérica aos veículos de luxo da Mercedes-Benz até a mais precisa menção de membros de famílias que se estabeleceram na Argentina (não por acaso um dos países que mais acolheu nazistas foragidos) retornando ao país para os funerais de Bruno Tiches. Ousado, em termos de sua abordagem e esteticamente, com os creditos iniciais desprezando o colorido e a fantasia com que eram até então habitualmente acompanhados por um fundo branco com tipos em negro que mais se aproxima do tom seco e anti-espetacular do Novo Cinema Alemão da década seguinte, tampouco se deve ressaltar os limites de tal ousadia, que também, tal como seus pontos fortes, são artísticos e ideológicos. A própria elaboração das vinculações amorosas de Hans soam algo frágeis (e o fato dele não ficar com a mulher mais independente, que pensava em sua própria carreira antes da união conjugal por outra, submissa e não atenta a qualquer outra coisa que o papel de dona-de-casa é algo sintomático de um aceno para um personagem progressista, mas cujo perfil não se estende a sua companheira); e o esquematismo, um tanto proposital, que contrapõe desde criança a sua personalidade daquela de anseios autoritários de Bruno, mesmo em se tratando de uma sátira, encontra uma saída demasiado fácil, a da queda no elevador, para se contrapor ao passado-presente comentado ao final; talvez vá igualmente por aí ficarem fora de esquadro qualquer menção mais forte às agruras sofridas pela Alemanha durante o final da guerra, aos campos de extermínio judeus, etc., preferindo uma suave demonstração da falta de alimentos que ainda encontra todos bem humorados, bem vestidos e limpos como o habitual, sem ter a dignidade posta a risco. Lacunas que talvez devam ser relativizadas em termos de perspectiva histórica. De certa forma o que o filme se aproxima, ainda que de forma bem mais modesta e parcial, é  da sátira dos valores sociais de seu pais, tal como Masumura o faz em relação ao Japão em seu contemporâneo Giants and Toys. Ao contrário desse, no entanto, a compreensão da empreitada de sucesso de Hans como associada somente ao seu caráter e a de Bruno como da ausência de na sociedade marcadamente liberal que emerge do pós-guerra soa como demasiado impregnada de valores mais afinados com os melodramáticos. Tampouco se pode esquecer o ajuste de contas empreendido bem menos tempo após os eventos envolvidos na Itália, e também possuidor de um forte recorte moral, que é o de Anni Difficili (1947), de Zampa. Destaque para as saborosas canções que comentam a trama, sendo que essa moldura que comenta as ações vai arrefecendo até simplesmente sumir ao final, deixando que o fecho se dê com a história e não seus articuladores, algo bastante sugestivo igualmente dos limites dessa reflexividade. Liesl Karlstadt, que vive a dona da pousada, foi parceira de muitos anos de Karl Valentin, famoso humorista dos anos 20 e 30.  Filmaufbau para Constantin Film. 108 minutos.


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