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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

The Film Handbook#41: Alfred Hitchcock

No set de Psicose Hitchcock prepara Janet Leigh para o que seria a mais famosa cena de chuveiro de todos os tempos; com duração de 45 segundos foi reunida a partir de 70 planos separados

Alfred Hitchcock

Nascimento: 13/08/1899, Leytonstone, Londres, Inglaterra
Morte: 29/04/1980, Los Angeles, Califórnia, EUA
Carreira (como diretor): 1926-76

O auto-intitulado "mestre do suspense" Alfred Joseph Hitchcock tem sido descrito como teólogo católico, como um formalista importante por seu uso manipulativo da narrativa e como um  austero moralista. Porém tais denominações parecem em desacordo com a experiência de fato de se assistir sua obra: preocupado principalmente com a psicologia do medo, ele estava sempre buscando novas formas de assustar tanto seus personagens quanto o público. A consistência temática, à parte os diversos motivos em comum a maior parte dos filmes de suspense (culpa, inocentes perseguidos, femmes fatales e morte) é conspícua por inexistir em sua obra. Antes, sua grandeza consiste no desenvolvimento de um estilo homogêneo que foi aplicado a gêneros diversos, transformando todos em suspense.

O primeiro emprego na indústria cinematográfica de Hitchcock foi como desenhista de entretítulos para os filmes da Famous Players-Lasky nos estúdios de Islington, em Londres. Repentinamente, encorajado por Michael Balcon, ele progrediu a direção através da escrita de roteiros, e realizou seu primeiro longa-metragem, The Pleasure Garden. Porém foi com O Pensionista/The Lodger, também realizado em 1926, que se estabeleceu como talento promissor. Sobre um homem suspeito de ser Jack, o Estripador, fez livre uso de visuais expressionistas, enquanto apresentava o próprio diretor numa breve ponta - algo que se tornaria recorrente, com crescente sagacidade, em cada filme seu. Ao mesmo tempo,  sua admiração pelos cinemas alemão e soviético era clara e, em seu melhor filme silencioso, O Ringue/The Ring>1 (um jogo sobre um triângulo amoroso ambientado no universo do boxe), a visão de um bêbado quando desmaia é representada por uma imagem que se dissolve e escorrega para fora do quadro; de forma semelhante Chantagem e Confissão/Blackmail>2, o primeiro filme sonoro tanto de Hitchcock quanto do cinema britânico não somente mergulha sua história (a namorada de um policial é chantageada após matar um lascivo assaltante) em sombras, embora revele um criativo entusiasmo para o som - quando a garota se sentindo culpada escuta uma conversa, somente a palavra "faca" é de fato ouvida que constantemente é ouvida mais alta na banda até apagar qualquer outro ruído.

Porém não foi antes de 1934, após diversos melodramas, comédias e musicais, que Hitchcock se tornou um diretor regular de filmes de suspense com O Homem Que Sabia Demais/The Man Who Knew Too Much, seguido por The 39 Steps/Os 39 Degraus>3, Agente Secreto/Secret Agent, Sabotagem/Sabotage, Jovem e Inocente/Young and Innocent e A Dama Oculta/The Lady Vanishes>4. De ritmo rápido e notáveis por virtuosos cenários, personagem cheios de vida, diálogos vibrantes e engenhosos e uma preferência por locações familiares e dramáticas, os filmes frequentemente articulavam um MacGuffin: algo que é puramente um motor para a narrativa, sendo tão irrelevante para o tema do filme que sua exata natureza nunca é divulgada. Em Os 39 Degraus, por exemplo, os planos roubados servem meramente para por o herói em perigo, forçando-o a viver por sua conta e risco quando tem que se deparar com a polícia, agentes inimigos e uma mulher que equivocadamente suspeita que ele seja um assassino. Ainda mais irrelevante foi a espiã que misteriosamente desaparece de um trem europeu em A Dama Oculta um virtuoso e deslumbrante filme de suspense-comédia ambientado às vésperas da guerra; sua função real era unir um casal aparentemente incompatível em meio aos apelos para ficarem alertas contra os nazistas (até mesmo dois ingleses fanáticos por críquete por fim se armam e esquecem seu ridículo desdém por aqueles que não compartilham a obsessão deles).

A habilidade de Hitchcock em capitalizar em quase todos os gêneros para sua forma de suspense sombria e cômica se torna ainda mais evidente quando ele vai para Hollywood e tira vantagem de uma tecnologia mais sofisticada. Rebeca, A Mulher Inesquecível/Rebecca>5 (um romance gótico marcado por um mórbido medo da morte) e Suspeita/Suspicion (no qual uma mulher passa a acreditar que seu marido planeja matá-la) transformando material novelesco em pesadelos; em Correspondente Estrangeiro/Foreign Correspondent, Sabotador/Saboteur e Um Barco e Nove Destinos/Lifeboat, o suspense é combinado com propaganda de guerra; A Sombra de uma Dúvida/Shadow of a Doubt>6, empresta uma dimensão sombria e diabólica ao realismo tacanho de um drama doméstico provinciano quando os tediosos sonhos de uma adolescente de uma estimulante vida familiar são respondidos com a chegada de seu tio favorito. Ele demonstrará ser um assassino de esposas. Por volta da época de Quando Fala o Coração/Spellbound, o gosto de Hitchcock por "cinema puro" (se narrar uma história através de meios puramente visuais) o levou a experimentações formais com Salvador Dali sendo contratado para planejar uma sequencia de sonho surreal que embelezasse seu tema psicanalítico. Interlúdio/Notorious>7, uma agridoce mescla de lustroso romance e filme de suspense de espionagem apresentava uma relação excepcionalmente madura de amor entre um homem e uma mulher, enquanto tanto Festim Diabólico/Rope quanto Sob o Signo de Capricórnio/Under Capricorn consistiam de planos bastante longos e complexos movimentos de câmera. O primeiro, sobre dois assassinos que ocultam um cadáver em um baú sobre o qual servirão o jantar para seus convidados - incluindo os pais da vítima, foi elaborado com planos que duram todo um rolo de dez minutos. A montagem, entretanto, foi central para a criação da tensão, e desde então Hitchcock alternaria planos longos com montagem rápida.

Frequentemente focou em psicopatas, observando-os como mais charmosos e inteligentes que suas vítimas, para definir um universo onde a ordem e o caos, o normal e o anormal, co-existem em precário equilíbrio. Pacto Sinistro/Strangers on a Train>8, no qual um tenista concorda em brincadeira numa troca de assassinatos com um companheiro de viagem, que então passa a por o "plano" em prática, cria padrões de luz e sombras dos dois homens como imagens espelhadas um do outro. A Tortura do Silêncio/I Confess (um assassino confessa sua culpa a um padre que possui voto de silêncio) foi digno, mas maçante, Disque M para Matar/Dial M for Murder uma pouco comum experimentação teatral em 3D, antes de Hitchcock recuperar seu tino com uma série de filmes que inclui suas melhores obras. Janela Indiscreta>9 foi um estudo amoral, engenhoso e complexo sobre o voyeurismo, sua câmera confinada com  o  seu herói fotojornalista acidentado, a um aposento e os apartamentos que observa proporcionam as histórias nas quais se tornará crescentemente envolvido, como se assistisse a um filme; como nós, ele se encontra tanto excitado quanto perturbado por sua crença de que testemunhou um assassinato. Um Corpo que Cai>10 foi um lento e sombrio romance sobre um detetive fora de si pela culpa e obsessão necrófila, tentando transformar uma garota em seu ideal de mulher; a ausência de Hitchcock de interesse pelo suspense convencional foi evidente no modo como "explicava" seu mistério por volta da metade do filme. De fato, que tais filmes possuam, de um modo geral, mais força emocional que os realizados anteriormente, pode ser atribuído ao seu foco nos personagens mais que nos simples mecanismos do suspense: mesmo extravagante e repleto de ação (um herói ameaçado por um avião em uma paisagem deserta, uma fuga por entre as sisudas faces do Monte Rushmore), Intriga Internacional/North by Northeast>11 é capaz de nos afetar por conta da ameça à verdadeira identidade do homem o ensinou a temer seu relutante traidor.

Ainda que a melhor obra de Hitchcock diga respeito a pessoas comuns subitamente mergulhadas no caos, poucos filmes foram tão extremos em dar voz a esses temores quanto Psicose/Psycho>12 e Os Pássaros/The Birds>13. O primeiro, famoso por sua cena de assassinato no chuveiro é, ao mesmo tempo, um grito de terror na própria concepção de insanidade e uma implacável comédia de humor negro que brinca com as simpatias do público pelo mórbido, matando sua heroína após 30 minutos e pondo em foco um tímido psicopata que tanto controla e é controlado por sua mãe morte ("A mãe não parece ela hoje"), enquanto satiriza os clichês de horror hollywoodianos. Ainda mais complexo foi Os Pássaros, um suspense de ficção-científica apocalíptico notável por seu prólogo audaciosamente lento ao violento ataque dos pássaros a uma pequena cidade de veraneio costeira; descartando várias hipóteses para explicações possíveis para o súbito ataque, Hitchcock, em última instância, permite a seus pássaros serem simplesmente o que são. Mais preocupado com o temor que com sua causa, não oferece nenhuma resposta ao seu mistério ecológico; as criaturas são aterrorizantes porque normalmente sempre foram vistas como amistosas, familiares e inocentes. E mais relevante aos propósitos do diretor é a forma como seus primeiros ataques os expõe e posteriormente destroem os preconceitos humanos.

Após Marnie - Confissões de uma Ladra, um extravagante melodrama sobre o amor de um rico playboy por uma sexualmente perturbada cleptomaníaca, a carreira de Hitchcock teve uma curva descendente com dois banais filmes de espionagem (Cortina Rasgada/Torn Curtain e Topázio/Topaz) reminiscentes dos muitos filmes menores realizados ao longo de sua carreira e notáveis somente por seus ocasionais cenários. Frenesi/Frennzy foi um intrigante mas datado retrato de um assassino maníaco sexual, mas Trama Macabra/Family Plot>14, um vibrante filme de ação cômico com uma irônica trama de sequestro, foi algo como um tardio retorno à forma. A saúde precária impossibilitou a concretização de projetos futuros mas, por fim, em 1980, meses antes de sua morte, o mais famoso diretor do mundo foi tornado cavaleiro.

Já que os melhores filmes de Hitchcock dizem menos respeito ao "cinema puro" (i.e., a mecânica manipulativa e sádica do suspense) que aos temas e personagens, talvez seja lamentável que ele tenha se restrito a forma do suspense. Se o seu astuto humor negro sugere um artista subversor, seu temor da desordem (como pode ser percebido tanto no conteúdo de seus filmes quanto em seus métodos de trabalho, que evitavam a improvisação a qualquer custo) sugerem grande precaução. De todo modo, a despeito da presença de diversos filmes enfadonhos, lentos e até mesmo grosseiros durante sua longa e prolífica carreira, sua obra mais complexa lhe assegura o duradouro status como um diretor maior, com estilo visual único e um senso de ritmo  notavelmente intuitivo e prenhe de suspense.

Cronologia
Ele próprio influenciado pelo Expressionismo Alemão e pela Montagem Soviética, Hitchcock criou virtualmente um gênero dele próprio. Muito admirado por Truffaut e Chabrol, ele também tem sido homenageado em infindáveis thrillers, mais notadamente por De Palma e Richard Franklin, Seu estilo de suspense pode ser interessante comparado com o de Clouzot.

Leituras Futuras
Hitchcock's Films de Robin Wood (Londres, 1965), The Strange Case of Alfred Hitchcock (Londres, 1974), de Raymond Durgnat, Hitchcock (Londres, 1978), de Truffaut é uma entrevista definitiva, The Dark Side of Genius: The Life of Alfred Hitchcock (Nova York, 1982), de Donald Spoto, uma detalha e controversa biografia.

Destaques
1. O Ringue, Reino Unido, 1927 c/Carl Brisson, Lilian Hall-Davies, Ian Hunter

2. Chantagem e Confissão, Reino Unido, 1929 c/Anny Ondra, John Longden, Sara Allgood

3. Os 39 Degraus, Reino Unido, 1935, c/Robert Donat, Madeleine Carroll, Godfrey Tearle

4. A Dama Oculta, Reino Unido, 1938, c/Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas

5. Rebeca - A Mulher Inesquecível, EUA, 1940 c/Joan Fontaine, Laurence Olivier, Judith Anderson

6. A Sombra de uma Dúvida, EUA, 1946 c/Joseph Cotten, Teresa Wright, Patricia Collinge

7. Interlúdio, EUA, 1946, c/Cary Grant, Ingrid Bergman, Claude Rains

8. Pacto Sinistro, EUA, 1951 c/Farley Granger, Robert Walker, Ruth Roman

9. Janela Indiscreta, EUA, 1954, c/James Stewart, Grace Kelly, Raymond Burr, Thelma Ritter

10. Um Corpo que Cai, EUA, 1958 c/James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes

11. Intriga Internacional, EUA, 1959 c/Cary Grant, Eve-Marie Saint, James Mason

12. Psicose, EUA, 1960 c/Anthony Perkins, Janet Leigh, Vera Miles

13. Os Pássaros, EUA, 1963 c/Tippi Hedren, Rod Taylor, Jessica Tandy

14. Trama Macabra, EUA, 1976 c/Barbara Harris, Bruce Dern, Karen Black

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 132-4.








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