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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Filme do Dia: O Grão (2007), Petrus Cariry

O Grão (Brasil, 2007). Direção: Petrus Cariry. Rot. Original: Rosemberg Cariry, Firmino Holanda & Petrus Cariry. Fotografia: Ivo Lopes Araújo. Montagem: Petrus Cariry & Firmino Holanda. Dir. de arte: Lana Patrícia. Com: Leuda Bandeira, Verônica Cavalcanti, Nanego Lira, Kelvya Maia, Luís Felipe Ferreira.
Sertão cearense. Percebendo que se encontra próxima a morrer, Perpétua (Bandeira) conta ao neto Zeca (Lira) uma história sobre as felicidades e viscissitudes de um rei e uma rainha. Enquanto isso, o pai de Zeca consegue a sofrida subsistência levando bodes ao Mercado e sua irmã sonha em se casar e morar na capital.
             Menos importa a história em si, rala e pouco dada a efeitos dramáticos (tal como Cinema, Aspirinas e Urubus ou outras explorações recentes de uma cotidianidade sertaneja ou interiorana sob a chave miúda do cotidiano tal como em O Céu de Suely) do que a busca de representação de um tempo diferenciado, que fica marcado na própria construção do filme, marcado pela repetição – a avó conta histórias, a mãe trabalha no tear, o pai busca os bodes para vender no mercado, a filha sonha com o casamento, Zeca brinca com o cachorro. A comunicação escassa, evocativa de Vidas Secas se une uma mais que razoável interpretação do elenco como um todo (comprometido apenas por algumas participações menores como a da professora, bastante inverossímil) e uma bela fotografia. Assim como enquadramentos dotados de um certo rigor e senso plástico, no qual a comunhão entre personagens e o ambiente que os circunda ganha peso. Destaque para o longo traveling na estrada no prólogo do filme e para a bela imagem do rosto do menino entrevisto pela roda da fortuna de um jogo de azar, proporcionando um efeito semelhante a de certos aparelhos ópticos. Porém, um ponto crucial talvez fique a desejar: justamante uma maior organicidade entre a narrativa contada e o universo retratado. O fato da narrativa contada pela avó apenas servir de mote para um sofrimento compartilhado por todo o ser humano, apesar de tocante, soa pouco aderente ao universo retratado de modo tão arguto pelo filme. Seu desejo de esculpir o tempo, evocativo de uma certa matriz tarkovskiana, é explicitado na utilização da mesma aria de Bach utilizada pelo realizador russo em seu O Sacrificio. Em meio ao seu despojamento explode igualmente um Agnus Dei. Longa-metragem de estréia do realizador.  Iluminura Filmes. 88 minutos. 

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