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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Filme do Dia: Civilização (1915), Reginald Barker, Thomas H. Ince & Raymond B. West








Civilização (Civilization,      EUA, 1915). Direção: Reginald Barker, Thomas H. Ince & Raymond B. West. Rot. Original: C. Gardner Sullivan. Fotografia: Joseph H. August, Dal Clawson, Clyde De Vinna, Otis M. Gove, Deveraux Jennnings, Charles E. Kaufman, Robert Newhard & Irvin Willat. Mùsica: Victor Schertzinger. Montagem: Thomas H. Ince, Hal C. Kern, LeRoy Stone & Irvin Willat. Dir. de arte: Joseph H. August. Com: Howard C. Hickman, Enid Markey, Lola May, George Fischer, Kate Bruce, Charles K. French, Herschell Mayall, J. Barney Sherry, Jerome Storm.

O rei (Mayall) de um determinado país inicia uma guerra, mesmo que boa parte da população, sobretudo no que diz respeito as mulheres, seja contra. Um conde pacifista, Ferdinand (Hickman), cientista que havia criado um submarino para destruir o inimigo, no último momento desobedece as ordens de seu superior para afundar um navio de passageiros, amotinando-se e provocando o afundamento do próprio submarino. Tal conversão, de fato, já havia ocorrido sob influência de sua amada, Katheryne (Markey), membro de uma sociedade secreta pacifista. Sobrevivendo em estado terminal, encontra-se com Jesus (Fischer). Ferdinand inacreditavelmente, recupera sua saúde e consegue mover multidões pregando a paz. É condenado a morte pelo rei. Quando vai visitar Ferdinand, o Rei é acometido de visões de Jesus, que mostra para ele todos os malefícios da guerra. Atormentado e arrependido, o Rei assina um pacto de paz incondicional. A alegria volta a surgir em todas as partes do reino. Os homens voltam para suas famílias.

Esta arrastada e tediosa pieguice grandiloquente, que bem poderia ter sido  inspirada no Intolerância (1916), de Griffith, se não tivesse sido lançada alguns meses antes,  talvez hoje possa ser lembrada, quando muito, apenas por sua montagem ultra-acelerada e pelas cenas que simulam naufrágio, pioneiras e bem realizadas. Talvez a maior fraqueza deste filme, provavelmente a mais cara produção norte-americana realizada então (batida pouco após pelo filme de Griffith), quando comparado ao seu mais célebre contemporâneo, seja o caráter eminentemente abstrato no qual toda a história é contada, mesmo que fosse uma evidente mensagem para um mundo em plena I Guerra Mundial. Aliado a isso se encontra o fato do melodrama aqui se espraiar para todas as ações do filme, notavelmente na conversão do rei. Essas duas características drenam qualquer possibilidade, seja de compreensão histórica dos motivos da guerra (aqui surgindo como mero capricho do rei) seja de um moldura histórica objetiva ao qual os personagens “menores” se debaterão em suas histórias eminentemente melodramáticas, tal como surgem no filme de Griffith. Se no caso de Griffith, esta relação entre a história mais ampla e os personagens localizados já se tornava problemática, dada a extensão da empreitada, aqui ela nem chega a ser posta de fato, dada a inanidade da representação histórica mais ampla. Evidentemente a identificação de Ferdinand com Cristo, e buscando fazer do Rei a figura de Pilatos, algo que não se sucede de fato, pois aqui ele o condena literalmente à morte, é selada em sua visita ao céu, onde o filme tampouco deixa de explorar a nudez, evocativa de ilustrações bíblicas, que voltaria a ser explorada por Griffith e DeMille em seus épicos. O excessivo sentimentalismo, uma das marcas registradas do realizador que talvez tenha tido maior peso nesta produção, Ince, encontra-se presente a todo momento e pode provocar momentos francamente patéticos na cruzada quixotesca do protagonista (a certo momento percebido com uma auréola sobre a cabeça) para a paz ou ainda buscar forçosamente a manipulação emocional através do uso de crianças. Uma das críticas evidentes do filme, o da ciência ser utilizada para fins belicistas, cujo exemplo contemporâneo era não só os submarinos mas igualmente os aviões, aqui, como tudo o mais no filme, também é apresentada como capricho moral de um indivíduo, assim como a própria legitimidade de se contrapor a hierarquia militar por uma crença superior (literalmente, já que emanada da ordem divina). As sobreimpressões, sempre evitadas por Griffith, surgem em diversos momentos do filme, sobretudo para representar os espectros de Cristo e de seu novo mensageiro sobre a terra, para não falar de outros achados visuais marcadamente kitsches e inspirados novamente na iconografia bíblica, como a da luz celestial que, a determinado momento, ilumina Ferdinand e as pessoas de bem. Destaque para o uso ainda pouco codificado de imagens representando a imaginação de um personagem, ao contrário tanto do Primeiro Cinema que lhe antecede como do cinema clássico mais maduro. Por dois momentos o filme apresenta imagens de ataque ao navio e somente depois temos consciência que, na verdade, tratava-se de evocações do atormentado Ferdinand. National Film Registry em 1999.  Thomas H. Ince Corp./Triangle Film Corp. para Triangle. 78 minutos.


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