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sábado, 12 de setembro de 2015

Filme do Dia: O Pranto de um Ídolo (1963), Lindsay Anderson



O Pranto de um Ídolo (This Sporting LIfe, Reino Unido, 1963). Direção: Lindsay Anderson. Rot. Adaptado: David Storey, baseado em seu próprio romance. Fotografia: Denys N. Coop. Música: Robert Gerhard. Montagem: Peter Taylor. Dir. de arte: Alan Whity. Cenografia: Peter Lamont. Figurinos: Sophie Devine. Com: Richard Harris, Rachel Roberts, Alan Badel, William Hartnel, Colin Blakely, Vanda Godsell, Anne Cunningham, Jack Watson, Arthur Lowe.
Ex-mineiro e jogador de rugby amador, Frank Machin (Harris) vive na casa da viúva Margaret Hammond (Roberts), por quem é apaixonado, e sonha em ser contratado pelo City, clube de prestígio. Em uma apresentação virtuosa chama a atenção de um empresário do clube, Gerald Weaver (Badel). Ele é contratado pelo salário de mil libras, porém sua relação com Margaret continua complicada, pois ela nunca assume de fato a relação com ele e não consegue esquecer de todo o marido suicida. A fama e o sucesso repentinos de Machin, por sua vez, o fazem perceber que ele sempre não será mais que uma figura folclórica no mundo dos ricos e famosos, despertando a atenção tanto da Sra. Weaven (Godsell) quanto do próprio marido. Após uma briga na qual decide sair de casa, Frank retorna para a casa de Margaret, mas a vizinha lhe diz que essa se encontra no hospital. Frank vai visitá-la no hospital e testemunha sua morte.
Esse filme, um dos expoentes do chamado (ainda que erroneamente) Free Cinema britânico [trata-se da corrente que ficou conhecida na Inglaterra como “kitchen sink”], parece ter envelhecido pior do que outro filme referencial do movimento, Um Gosto de Mel (1961), de Tony Richardson. Como nos outros filmes do movimento, o que se destaca é uma preocupação com a abordagem social de seus personagens de origem proletária, numa perspectiva que, guardadas as devidas proporções, também era efetivada no Brasil contemporaneamente. Nesse retrato, as personagens populares são sempre descritas de um modo mais simpático, ou pelo menos contando com a cumplicidade do narrador, enquanto a elite é apresentada como corrupta e devassa. Aqui praticamente tudo o que se vê tem como filtro um dos mais prototípicos angry young man do ciclo.  Aliás, o esporte como uma das formas de destaque para pessoas de baixa renda já havia sido tematizado em A Solidão de uma Corrida sem Fim (1962), também dirigido por Richardson. Como nesse último, a narrativa é longe de linear, sendo costurada em boa parte a partir de memórias de um Frank anestesiado após receber um murro que o fará perder alguns dentes. Apresenta mais que insinuantes alusões a um universo homo-erótico que envolve o esporte, seja na figura de um velho olheiro obcecado por Frank, no empresário que o tem como sua propriedade e que após fechar o contrato e lhe deixar em casa põe a mão na sua coxa ou numa cena de vestiário com vários homens despidos e em situação de brincadeira coletiva, aproximando-se nesse sentido, ainda que de modo mais incisivo, de Rocco e seus Irmãos (1960). O Frank de Harris, sobretudo em sua primeira metade, é demasiado inspirado nos trejeitos de rudeza máscula que não deixa de trair certa fragilidade de atores como Brando, sendo sua interpretação um tanto over e talvez empostada para os padrões de hoje. Em alguns momentos o filme flerta com o melodrama.  Como nos belos planos de Frank  em meio a uma paisagem grandiosa e, ao mesmo tempo, soturna, transformando-se numa apropriada representação de seu embate solitário e ressentido contra um mundo adverso. É mais do que explícita, até no próprio título, e próxima do darwinismo social,  a relação da violência e competitividade do esporte com a própria vida.  Glenda Jackson surge em ponta não creditada como desafinada e atrapalhada cantora de boate.  O estilo e a temática de filmes como esse seriam fundamentais para posteriores realizadores britânicos como Ken Loach, Stephen Frears ou Mike Leigh.  Foi produzido por outro nome influente do movimento, Karel Reisz. Independent Artists/Julian Wintle-Leslie Parkyn Prod. para J. Arthur Rank Film. 134 minutos.



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