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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Filme do Dia: O Golem (1920), de Paul Wegener & Carl Boese


O Golem (Der Golem, Wie er in die Welt kam, Alemanha, 1920). Direção: Paul Wegener. & Carl Boese. Rot. Adaptado: Henrik Galeen & Paul Wegener. Fotografia: Karl Freund. Música: Hans Landsberger. Dir. de arte: Hans Poelzig & Kurt Richter. Figurinos: Rochus Gliese. Com: Paul Wegener, Albert Steinrück, Lyda Salmonova, Ernst Deutsch, Hans Stürm, Max Kronert, Otto Gebühr, Lothar Müthel.
Em Praga, século XVI, o Rabino Loew (Steinrück), decide constroir um monstro, o Golem (Wegener), para deter as perseguições que o tirânico Imperador Luhois (Gebühr) comete ao povo judeu. Inicialmente apelando para a magia para tentar comover a corte do sofrimento dos judeus, Loew invoca a própria destruição do castelo do tirano, que somente é detido pela força do Golem. Loew descobre, no entanto, que a conjunção dos astros fará com que o monstro se volte contra seu próprio criador. Seu  assistente de Loew, Famulus (Deutsch), apaixonado por sua filha, Miriam (Salmonova), amante do Conde Florian (Müthel), reanima o monstro para se vingar do desprezo de Miriam. O monstro assassina Florian e arrasta Mirian consigo, destruindo tudo que se encontra a sua volta. Uma inocente criança, no entanto, irá desarmá-lo.
Fabulosa adaptação da lenda judaica, onde a cenografia e a iluminação expressionistas ganham contornos de grande produção e transformam os cenários de O Gabinete do Dr. Caligari (1919), de Wiene, quase indigentes – embora talvez até mais sugestivos em seus traços básicos. Muitos dos elementos dos filmes de terror posteriores já se encontram presentes na obra e alguns dos mais influentes filmes do gênero certamente foram influenciados pela produção  de Wegener, mesmo que apenas em alguns de seus motivos visuais – como a ascensão do monstro do chão, sem o apoio dos braços, que seria reempregada por Murnau em seu Nosferatu (1922) ou o andar enrijecido, expressão mumificada e empatia com as crianças em Frankenstein (1931), de Whale, para não falar dos cenários e de alguns elementos narrativos que igualmente se tornariam recorrentes em filmes do gênero. Não apenas no cinema de horror o filme influenciou – a cena da invocação do demônio voltaria a ser apresentada em termos bastante semelhantes no Fausto (1926), de Murnau e o tema do herói que possui apenas um ponto sensível, bastante caro à tradição das lendas germânicas, ainda que no caso aqui adaptada para o monstro, voltaria a ser enfatizada  na saga dos Nibelungos, de Fritz Lang. Da mesma forma a contraposição entre a bela e a fera será retrabalhada em King Kong (1933), de Merrian C. Cooper e Ernest Schoedsack.  Em termos narrativos o filme não impressiona tanto quanto visualmente – a narrativa secundária do amor de Florian por Miriam, ainda que bastante sensual para os padrões norte-americanos pós-Código Hays, não possui nem de longe o mesmo desenvolvimento e atração que a relação entre o monstro e a segurança do povo judeu. Em termos políticos, embora o filme aparentemente seja uma exaltação dos valores judaicos, não há como não perceber a ênfase na representação do judeu como um “outro” exótico e repleto de magias e artimanhas, sendo a reunião na sinagoga um verdadeiro congresso de bruxos. Por outro lado, antecipa de maneira surpreendente o que ocorrerá na própria Alemanha pouco mais de uma década depois. Porém, de toda maneira, o que importa frisar é a capacidade que o filme impõe da difícil tarefa de representar o universo mágico e, ao final das contas, grandemente a-histórico em que se desenvolve sua narrativa (como aliás, presente em outras obras-chaves do momento, marcadamente expressionistas ou não, tais como Caligari e Nosferatu). O erotismo implícito na figura do próprio monstro, que se tornaria uma das características de muitas das adaptações que tinham figuras monstruosas como protagonistas  já se faz presente aqui, na forma que o Golem passeia suas mãos pelo corpo de Miriam ou que mulheres da corte se aproximam dele. Uma das cenas mais interessantes é a que o visionário Loew apresenta as cenas de sofrimento diante do Imperador e, em pouco tempo, a tragédia se torna motivo de comédia para os espectadores dessa precursora sessão de cinema. Wegener, que também viveu o próprio Golem em suas adaptações anteriores da lenda, de 1915 e 1917, respectivamente, foi igualmente roteirista de um dos precursores do Expressionismo nas telas, O Estudante de Praga (1913). Salmonova, que se encontra presente nas quatro produções, vivendo sempre a heroína, abandonou a carreira cinematográfica precocemente, dois anos após esse filme. PAGU. 85 minutos.


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