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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

The Film Handbook#42: Georges Franju

Georges Franju

Nascimento: 12/04/1912, Fougères, França
Morte: 05/11/1987, Paris, França
Carreira (como diretor): 1934-74

Georges Franju combinou realismo com fantasia, poesia e polêmica, selvageria e ternura com efeito único.Impregnando seus filmes de uma antipatia surrealista às noções estabelecidas de normalidade, ele foi um dos mais ferozes visionários independentes do cinema.

Antes de se tornar diretor em tempo integral, Franju escreveu críticas, trabalhou em documentários científicos e foi co-fundador (com Henri Langlois, seu parceiro no curta amador de 1934 em 16 mm  Le Métro) da Cinemateca Francesa. Em 1949, o curta documental O Sangue das Bestas/Le Sang des Bêtes>1, um olhar arrojado e inflexível sobre o trabalho brutal em um açougue parisiense, estabeleceu-o como um moralista de integridade rara; suas imagens pungentes e anti-sentimentais, mas admiravelmente compostas são menos de propaganda vegetariana que uma intimação para que lembremos das vítimas de nosso desejo por carne em nossas mesas. Igualmente criativa em sua mescla de montagem de choque e poesia visual foi seu anti-militarista Hôtel des Invalides, que misturava planos do hospital dos militares de Paris - local da tumba de Napoleão e um monumento nacional à glória da guerra - com imagens de veteranos aleijados e, por fim, um crocodilo visitado por crianças, implicando o efeito-dinamite para o futuro.

Nem todos os curtas de Franju foram documentais: Le Grand Méliès foi um tocante tributo ao pioneiro do filme fantástico, enquanto La Première Nuit foi a narrativa ficcional da fuga de um garoto de seu chofer-prisioneiro no mundo solitário e sombrio do metrô, e seus sonhos de uma estranha visão sensual de uma pequena garota no trem. Em ambos, Franju transformou realidade em poesia lírica de inquietante intensidade, testemunho de sua originalidade.

Seu primeiro longa-metragem, A Cabeça contra a Parede/La Tête Contre le Murs>2, revelava seu continuado interesse em vítimas.  Um ciclista delinquente de boa família é submetido a um asilo mental por seu pai: não preocupado com a questão se ele é são ou não, Franju foca na ignorância dos pais e médicos que leva a seu encarceramento, enquanto apresentava através de símbolos visuais (pombos engaiolados, uma linha ferroviária em miniatura), a irracionalidade frequentemente condenada do jovem. Ainda mais sombrio, Rosto sem Olhos>3, voltou-se para as convenções sensacionalistas para criar uma análise soberba sobre a obsessão: culpado por ter destruído a face de sua filha em um acidente de carro, um médico transplanta a carne de garotas sequestradas para restaurar, com o seu bisturi, sua beleza. Franju combina horror e ternura em imagens impressionantes; o sadismo do médico nasce de um eterno amor, enquanto a garota, ainda sem face, assassina-o por se compadecer de suas outras vítimas, antes de vagar pela noite, cercada por pombros brancos esvoaçantes, símbolos ao mesmo tempo de sua inocência, liberdade e (presumida) aproximação da loucura.

Após um suspense relativamente convencional (Pleins Feux sur l'Assassin) e uma austera, sensível e tipicamente ateísta versão  do romance católico de Mauriac, Relato Íntimo/Thérèse Desqueyroux, Judex>4, prestou seu tributo aos seriados de aventura silenciosos de Louis Feuillade. Como um mestre onipotente de fingidas batalhas contra um maléfico banqueiro, Franju revela em coincidências absurdas, imagens impossíveis (homens andando em uma parede) e ainda mais simbolismo animal: Judex faz sua primeira aparição em um baile de fantasias, sua cabeça  transformada em uma soberba máscara de pássaro, suas mãos devolvendo à vida um pombo morto, enquanto seus inimigos incluem uma mulher vestida etéreamente, com um macacão preto colado ao corpo  (exceto pelo momento no qual se veste irreverentemente de freira para facilitar seu crime).Ao mesmo tempo nostálgico e surreal, comedido e alegre, o filme consegue ser plenamente bem sucedido em reviver a capacidade charmosa de encantamento mágico.do primeiro cinema

Uma versão de Thomas l'Imposteur de Cocteau permitiu Franju retornar ao tema dos horrores de guerra: um jovem sonhador, servindo nas tropas de ambulância na I Guerra Mundial observa corpos, trincheiras e explosões como um espetáculo fantástico imaginário, seus sonhos coincidindo com a realidade somente no momento da morte. Le Faute de l'Abbé Mouret, entretanto, fez do romance de Zola se transformar em outra afirmação do anti-clericalismo de Franju, com um pároco do campo, ser levado por sua excessiva devoção à Virgem Maria à tentação erótica. Por volta desse período, no entanto, a obra cinematográfica de Franju se tornou  menos frequente, apesar de algumas vezes ter dirigido diretamente para a televisão: exceto pelo semelhante a Judex, L'Homme sans Visage, uma rica fantasia popular que se delicia em ocultar organizações criminosas, figuras de cera que se movem e um herói misterioso, ele não mais realizaria longas-metragens mas retornaria, em seus últimos anos, a presidir a Cinemateca.

Embora os filmes de Franju exibam seu desânimo com várias facetas da humanidade - hipocrisia, crueldade, piedade e ignorância - ao mesmo tempo revelam seu fascínio com a poesia misteriosa que reside para além da superfície da realidade. Seu surrealismo não foi uma questão de artificio, mas de uma visão altamente pessoal que foi, ao mesmo tempo, elegante, horrível, provocativa, calma e nostálgica.

Cronologia

O surrealismo poético de Franju está relacionado ao de Vigo, da carreira final de Buñuel e mesmo de Resnais, ainda que a reserva com relação à expressão verbal de seus filmes possa ser comparada a de Bresson. Seu amor pelo cinema mudo - de forma mais notória o de Feuillade - encontra-se evidente em toda parte na elegância de suas imagens.

Destaques
1. O Sangue das Bestas, França, 1949

2. A Cabeça Contra a Parede, França, 1958 c/Jean-Pierre Mocky, Pierre Brasseur, Anouk Aimée

3. Rosto sem Olhos, França, 1959 c/Pierre Brasseur, Alida Valli, Edith Scob

4. Judex, França, 1963 c/Channing Pollock, Francine Berge, Edith Scob

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 108-9.

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