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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

The Film Handbook#37: Francesco Rosi

Francesco Rosi
Nascimento: 15/11/1922, Nápoles, Itália
Morte: 10/01/2015, Roma, Itália
Carreira (como diretor): 1952-1997

Adaptando os métodos neo-realistas para os seus próprios propósitos, Francesco Rosi se tornou uma figura de liderança no cinema político durante os anos 60. Embora seus filmes mais recentes tenham tendido a se tornarem menos controversos e mais próximos de temáticas vinculadas a um cinema de arte, sua melhor obra permanece provocativa e estimulante.

Após trabalhar com radiojornalismo e teatro, Rosi adentrou o mundo do cinema como assistente para diretores como Visconti e Antonioni. Tendo co-dirigido, em 1956, Kean, com Vittorio Gassman, imediatamente revelou uma preocupação por problemas sociais contemporâneos em A Provocação/La Sfida e Renúncia de um Trapaceiro/I Magliari, lidando com práticas de negócios corruptos em Nápoles e na Alemanha. Porém foi com O Bandido Giuliano/Salvatore Giuliano>1, sobre um notório bandido siciliano encontrado morto por bala em 1950, que Rosi apresentou pela primeira vez seu estilo distinto: filmagens em locações e fazendo uso de um grande elenco de não profissionais, avançando e retrocedendo no tempo para acumular uma riqueza de fatos pertencentes a vida, ações e tempos de Giuliano (que, dele próprio, pouco se vê), o filme traça uma teia de conexões entre a Máfia e o estado para retratar um país dividido entre Norte-Sul e imerso em violência e corrupção. Igualmente contemplando o abismo entre documentário e ficção e a respeito de  conspiração e acobertamento, As Mãos sobre a Cidade foi um controvertido olhar sobre a especulação imobiliária em Nápoles, enquanto Os Bravos da Arena/Il Momento della Veritá, filmado  na Espanha, lida com uma saga de touradas ao estilo Sangue e Areia contra um pano de fundo de exploração financeira e desprezo burguês por seu protagonista matador.

Após uma menos bem sucedida incursão na comédia com o fantástico Felizes para Sempre/C'Era una Volta e uma exposição da incompetência militar em A Vontade de um General/Uomini Contri, O Caso Mattei/Il Caso Mattei e Lucky Luciano - O Imperador da Máfia/Lucky Luciano>2 observam o retorno de Rosi a uma análise dos laços estreitos entre política, comércio e submundo. O primeiro é uma complexa e fragmentada hipótese sobre as razões sobre a misteriosa morte de um magnata do petróleo, o segundo uma estilizada e subversiva variação sobre o filme de gangster, associando o retorno do fora-da-lei à Itália com drogas e o envolvimento norte-americano na política do pós-guerra italiano. No último e ainda mais em Cadáveres Ilustres/Cadaveri Eccellenti - um filme de ação ficcional sobre um detetive que, embora investigando as mortes de vários líderes do judiciário, desmascara uma gigantesca conspiração política envolvendo tanto a Esquerda quanto a Direita - Rosi se afasta do docudrama para criar estudos visuais extravagantes sobre a paranoia e o abuso institucionalizado do poder. Nos filmes posteriores, no entanto, seu tom incisivo e anti-establishment tem visivelmente arrefecido: Cristo Parou em Éboli/Cristo si è Fermato a Eboli no qual um escritor, exilado pelos fascistas, vive entre os camponeses indigentes do sul, tendo a um pictorialismo pastoral; Três Irmãos/Tre Fratelli>3, sobre três homens (sintomático dos temores contemporâneos de terrorismo, delinquência, etc.) chamados à casa por seu pai para o funeral da mãe, é um comovente, porém irregular, tributo ao desaparecimento da vida rural. Ainda mais lustroso e convencional foi a versão relativamente realista da Carmen de Bizet e uma adaptação visualmente esplêndida, mas com elenco inadequado, do romance Crônica de uma Morte Anunciada, de Gabriel Garcia Marquez, sobre todo um vilarejo colombiano mantendo uma conspiração de silêncio sobre um misterioso assassinato por vingança.

Apesar da obra de Rosi ter declinado nessa última década, ele é importante por seu uso de certos elementos do neo-realismo para forjar uma forma original de jornalismo investigativo no cinema. Questionando e criticando as posições oficiais sobre crimes, política e problemas sociais, ele mesclou as qualidades didáticas do realismo documental com a acessibilidade dos gêneros ficcionais tradicionais.

Cronologia
Rosi pode ser visto como influenciado por Rossellini e, talvez, Eisenstein. Torna-se interessante compará-lo com Gillo Pontecorvo, Elio Petri e Costa-Gravas.

Leituras Futuras
Italian Cinema from Neo-Realism to Present (Nova York, 1983), Peter Bondanella.

Destaques
1. O Bandido Giuliano, Itália, 1961  c/Frank Wolff, Salvo Randone, Pietro Camarata

2. Lucky Luciano - O Imperador da Máfia, Itália, 1974 c/Gian Maria Volonté, Edmond O'Brien, Rod Steiger

3. Cadáveres Ilustres, Itália, 1976 c/Lino Ventura, Fernando Rey, Max Von Sydow

4. Três Irmãos, Itália, 1981 c/Charles Vanel, Philippe Noiret, Michèle Placido

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 247-8.
























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