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domingo, 9 de agosto de 2015

Filme do Dia: O Beijo da Mulher Aranha (1985), Hector Babenco


O Beijo da Mulher Aranha (Kiss of the Spider Woman, Brasil/EUA, 1985). Direção: Hector Babenco. Rot. Adaptado: Leonard Schrader, baseado no romance de Manuel Puig. Fotografia: Rodolfo Sánchez. Música: John Neschling. Montagem: Mauro Alice. Dir. de arte: Clóvis Bueno. Figurinos: Patrício Bisso. Com: William Hurt, Raul Julia, Sônia Braga, José Lewgoy, Milton Gonçalves, Mírian Pires, Nuno Leal Maia, Fernando Torres, Patrício Bisso, Herson Capri.
Dividindo a mesma cela de prisão numa situação de ditadura, encontram-se o homossexual acusado de pedofilia Luís Molina (Hurt) e o preso político Valentin Arregui (Julia). Molina distrai Valentin contando histórias sobre filmes antigos, enquanto busca ganhar benefícios junto aos investigadores (Lewgoy e Gonçalves). Ele propõe revelar tudo o que Valentin lhe contar aos mesmos, mas se apaixona por ele. Não apenas deixa de contar como, quando indultado, envolver-se-á com o grupo armado ao qual pertence Valentin e que o levará à morte.
Mesmo sofrendo com a ambiguidade entre uma ditadura abstrata que poderia se localizar potencialmente em qualquer país latino-americano (e a manutenção dos nomes originais hispânicos apenas acentua essa dimensão) e evidentes referências, inclusive em termos de locações, ao Brasil e uma dupla protagonista que não consegue atuar no mesmo registro do elenco brasileiro (efeito multiplicado com a dublagem dos mesmos), trata-se de um dos melhores filmes de Babenco. Até mesmo o que há de canhestro ou kitsch, na representação do drama da Segunda Guerra ou no filme sobre a Mulher-Aranha  que são narrados por Molina, adequam-se à perfeição as convenções dramáticas dos filmes-B que faz menção, assim como a própria pulsão homo-erótica de seu protagonista. Há um evidente espelhamento entre as tramas narradas por Molina e a sua história pessoal, passando tanto pelas situações de desejo nos filmes que narra, quanto por sua própria morte. A própria encarnação de Raul Julia e Sônia Braga interpretando tais papéis é uma feliz síntese do imaginário da dupla – com Braga sendo uma evocação da ex-amante de Valentin, enquanto Julia evidentemente é uma fantasia de desejo de Molina por seu companheiro de cela. O melodrama vivido de modo espalhafatoso e auto-irônico nos filmes narrados aos poucos se desloca, sob chave séria, para o próprio filme que, no entanto, teima em não se render às convenções estilísticas do gênero. Essa sobriedade, no entanto, torna-se relativizada por um certo tom sentimental, sempre presente na obra de Babenco, que talvez fosse neutralizado se a personagem de Molina mantivesse a ambiguidade entre informante e amante ao mesmo tempo, o que o aproximaria por esse viés dos melodramas de Fassbinder e de uma situação semelhante vivida num filme como Capote. Por outro lado, inviabilizaria o jogo de espelhamentos narrativos propostos. Talvez uma fraqueza menos justificável no filme seja o de um certo esquematismo excessivo entre o militante de horizontes estreitos e o homossexual humano que abrirá seus horizontes através de uma imaginação criativa utilizada como arma não somente de fuga, como igualmente de resistência e que se torna, em última instância a “mensagem moral” que o final apenas coroa. É curioso como o personagem do homossexual aqui se encontra na mesma representação clássica em que para ganhar uma maior respeitabilidade dramática, faz-se necessário seu auto-sacrifício. Hurt acumulou o Oscar e o prêmio de melhor ator em Cannes. HB Filmes/Sugarloaf, 120 minutos.

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