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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

60 Anos Sem Carman Miranda


Hoje se completa os sessenta anos da morte da "pequena notável". Embora tradicionalmente avesso a efemérides, por completa coincidência li ainda esse ano a biografia sobre ela (bastante volumosa e "completa", na medida do possível) de Ruy Castro.

Miranda é um daqueles ícones sobre os quais qualquer pessoa medianamente informada no país já ouviu falar e até mesmo tem alguma imagem sobre...de preferência como a baiana estilizada que a acompanhou nos 15 anos finais de sua carreira nos palcos da Broadway, boates e produções hollywoodianas (sendo o período áureo no cinema relativamente curto e coincidindo praticamente com a Segunda Guerra, entre 1940 e 1945). Porém, poucos viram (ou reviram)  os filmes, ou ao menos alguns dos filmes, seja o que restou no Brasil, nada deveras extenso,  sejam as extravagantes comédias musicais que estrelou ao lado de Betty Grable, Alice Faye, Don Ameche, Cesar Romero e um recorrente elenco de apoio na Fox. E, menos ainda, pararam para ouvir as canções que gravou.

Capaz de contagiar o público rapidamente com sua persona de fala atrapalhada e ligeira que seria recorrente mesmo quando já encontrava muito distante de tal clichê na vida real, possui vários pontos em comum com outra estrela que a Fox tiraria partido na década de 50, Marilyn Monroe. Ficou presa do estereotipo da mulher latina ciumenta, sensual, brejeira, divertida e um tanto caliente para não dizer "promíscua" (ao menos, em termos relativos, para os padrões da época) que encarnou desde o início com Serenata Tropical (1940), algo que buscava reproduzir na maior parte das entrevistas direcionadas para o grande público norte-americano, como aquela o ficou da "loura burra" e - mesmo "involuntariamente" - coquete. Como Monroe, teve uma vida emocional pouco estável e se a ausência da família provocou seus efeitos na americana, a demasiada presença da mesma no caso de Miranda talvez não fosse menos problemática. Como aquela sonhou muito em ter uma criança sem consegui-lo, sofrendo abortos involuntários, teve carreira relativamente curta e morte igualmente trágica e precoce no mesmo dia de agosto - Carmen aos 46, Monroe aos 36 - de causas similares; embora os excessos praticados por Carmen tenham provocado dano mais a longo prazo e não se possa falar, tecnicamente, de suicídio

A própria Carmen era consciente de que os filmes que realizou em Hollywood estavam longe de serem obras-primas. Porém a maior parte do que se produziu no período tampouco estava. Seus musicais na Fox  exploraram pioneiramente as cores no gênero (quanto mais extravagantes, melhores, diga-se de passagem) mas nunca alcançaram o status que algumas produções do gênero na rival MGM obtiveram. A fórmula que tal núcleo de produção reproduziu em vários filmes, pode torná-los um exercício algo repetitivo e cansativo de serem vistos enfileirados: Alice Faye com sua cara de melancolia empostada quando cantava, as inevitáveis varandas que davam para alguma vista (fazendo uso de back projections, bem entendido), o patético lançar de pernas ao alto desengonçadamente de Charlotte Greenwood ou a presença de Miranda em um núcleo cômico que fazia contraponto ao casal que deveria ser encarado com maior seriedade, anglo-saxão evidentemente; os números musicais filmados sem grande originalidade, sendo essa toda direcionada (quando muito) para os adereços em cena. Uma exceção acima da média é a produção dirigida pelo coreógrafo Busby Berkeley, que mexeu um pouco (ou até mesmo muito) nas regras do jogo, sobretudo ao instilar uma criatividade visual fora do comum em Entre a Loura e a Morena. Foi necessária tanta mão-de-obra para essa fuga do lugar-comum que Berkeley não faria outro filme para o estúdio.  Trata-se, justificadamente, do filme mais lembrado e ainda referido nas últimas décadas (seja tendo sequencias suas aproveitadas na animação Heavy Traffic de Bakshi, dos anos 70 ou sido citado por um filme lançado no Brasil semanas atrás de título é O Amor é Estranho), portando, igualmente, a imagem mais icônica da estrela, simulando um cacho de bananas monumental a ser carregado por ela. Bem poderia servir de metáfora para o fardo exaustivo, extenuante e viciante que a faria se tornar dependente química em relativamente pouco tempo. Sua sedução, mesmo quando embalada por uma estilização que provocava arrepios nada positivos em boa parte do público brasileiro, tem sua popularidade comprovada através de sua evocação por nomes tão diversos do filósofo Ludwig Wittgenstein, fã de carteirinha de seus filmes até Woody Allen (que fez Denise Dumont recria-la numa ponta de A Era do Rádio) passando por Niñon Sevilla em seus filmes de cabaretera mexicanos ou o anônimo entrevistado a respeito da primeira ideia que vinha quando pensava em Brasil em Olhar Estrangeiro (em 2006!). Isso sem contar, evidentemente, sua exumação cultural efetuada a partir da Tropicália, presente tanto em letras de músicas como no filme Meteorango Kid, o Herói Intergalático.

Para além dessa Carmen, por si só hoje pouco lembrada, existe aquela que gravou dezenas de marchinhas e sambas, das quais muitas podem ser ouvidas até hoje com gosto, em boa parte por conta de sua irrepreensível voz. Essa parte de sua carreira, como se trata de algo relativo mais especificamente a nossa cultura, fica deveras ainda mais esquecida. Uma boa introdução a Carmen pode ser assistir ao documentário de Helena Solberg, Bananas is My Business, no qual a cineasta também se posiciona autoralmente em relação a sua biografada.

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