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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

The Film Handbook#38: Joseph H. Lewis

John Dall e Peggy Cummins em cena do influente filme B "Mortalmente Perigosa", dirigido por Lewis

Joseph H. Lewis
Nascimento: 06/04/1907, Nova York, Nova York, EUA
Morte: 30/08/2000, Santa Monica, Califórnia, EUA
Carreira (como realizador): 1937-66
Um dos melhores realizadores B, Joseph H. Lewis provou regularmente a si próprio ser superior a natureza da fórmula (ou, algumas vezes, pura loucura) de suas empreitadas de baixo orçamento, através de ousados e inventivos visuais, performances intensas e um domínio seguro do gênero. De fato, tal foi sua habilidade de transformar as deficiências econômicas  em vantagem que sua melhor obra rivaliza  com a de muitos dos diretores mais conhecidos.

Tendo ascendido profissionalmente de carregador de câmera da MGM para chefe do departamento de montagem da Republic, Lewis passou a dirigir em 1937. Os primeiros filmes são modestos: dramas de rapazes do Bowery, thrillers de horror inábeis, westerns cantantes.  E, no entanto, a despeito de seus horrendos roteiros e orçamentos próximos do inexistente, Lewis avivava uma cena com aguçado faro visual: uma rixa entre cowboys pode se beneficiar de um imaginativo arranjo dos elementos em cena, diálogos aborrecidos podem ser filmados do alto. Secrets of a Co-Ed finaliza com uma cena de tribunal de dez minutos construída, de forma surpreendente, através de um único plano. Após muitos anos de trabalhos semelhantes, instigado por Harry Cohn, da Columbia, ele teve acesso a orçamentos maiores com o taciturno e elegantemente filmado filme de ação psicológico Trágico Álibi/My Name is Julia Ross; menos polido, mas mais aventureiramente idiossincrático foi Satã Passeia à Noite/So Dark the Night>1, no qual seu pendor por sombras e reflexos corre solto enquanto um detetive investigando uma série de assassinatos descobre que ele é o amnésico culpado.

No final dos anos 40, Lewton acertou o passo com uma série intermitente de superiores filmes de ação criminal: O Czar Negro/Undercover Man combinava uma evocação quase documental de procedimentos de aplicação da lei com uma forte simpatia pelas vítimas do crime; Mortalmente Perigosa/Gun Crazy>2 contava uma história rápida e sombria no estilo Bonnie & Clyde cuja obsessão por armas de fogo beira a sexual. Memorável por seus visuais virtuosos (um ousado assalto a banco filmado do início ao final através de um plano longo e complexo da traseira do carro) e performances subversivamente simpáticas, mas completamente anti-sentimentais. O elegante A Mulher sem Nome/A Lady Without Passport abordava a tentativa de entrada ilegal nos Estados Unidos de refugiados de uma Havana evocada de modo atmosférico; Jornada Cruel/Cry of the Hunted - como diversos outros filmes de Lewis - apresentava um soberbo clímax em um pântano. Melhor de todos, entretanto, foi Império do Crime/The Big Combo>3, um implacavelmente criativo filme de ação noir sobre o crime organizado no qual o policial-heroi, faz uso insensível de todos ao redor dele em seus esforços de prender o amante gangster da mulher pela qual ele próprio nutre uma paixão psicótica. sendo não menos impiedosamente auto-obcecado que o vilão. Lewis está novamente no topo da sua forma inventiva, espremendo de sua tensa narrativa cenas bizarras envolvendo uma dupla de pistoleiros gays, tortura praticada por um surdo e uma referência dissimulada de sexo oral, enquanto apresenta um retrato perturbador e sombrio de variadas relações e obsessões perversas.

Os últimos quatro filmes de Lewis foram sólidos westerns. O Fantasma do General Custer/Seventh Cavalry foi notável por seu uso pouco comum de uma atitude crítica em relação ao papel do  General Custer no massacre de Little Big Horn e um final virtualmente sobrenatural no qual o cavalo do general surge, como fantasma, para liquidar um conflito entre índios e o Exército. Obrigado a Matar/Lawless Street e Ódio Contra Ódio/The Halliday Brand foram mais convencionais e com menos achados nonsense, mas Reinado do Terror/Terror in a Texas Town>4, filmado em dez dias, foi notável tanto por ter envolvido muitas das vítimas da lista negra da Comissão de Atividades Anti-Americanas quanto por apresentar em seu clímax um fazendeiro imigrante sueco vingando a morte de seu pai matando o vilão com um arpão.

Após esse momento, Lewis voltou-se para a televisão antes de se aposentar. Nunca um grande realizador, foi no entanto um espírito talentoso de grande inteligência e enorme desenvoltura. Dando-lhe bons atores e capital suficiente, seu senso de composição e ritmo o capacitavam a transcender as limitações de roteiro; com um bom roteiro, no entanto, suas ambições e talento podiam produzir clássicos memoráveis, ainda que menores.

Cronologia
A carreira inicial de Lewis nos estúdios de Poverty Row provoca comparações com Edgar Ulmer, William Beaudine e Joseph Kane. Nos anos posteriores, em sua melhor forma e conseguindo orçamentos melhores, ele pode ter aspirado o patamar de Siegel, Fuller ou Tourneur. Mortalmente Perigosa possui muitos admiradores dentre os realizadores, notadamente Schrader, enquanto Penn "refilmou" Trágico Álibi como Morte no Inverno/Dead of Winter.

Leituras Futuras

Kings of the Bs (Nova York, 1975), de Todd McCarthy e Charles Flynn.

Destaques
1. Satã Passeia à Noite, EUA, 1946 c/Steven Geray, Micheline Cheirel, Eugene Borden

2. Mortalmente Perigosa, EUA, 1949 c/John Dall, Peggy Cummins, Berry Kroeger

3. Império do Crime, EUA, 1954 c/Cornell Wilde, Richard Conte, Jean Wallace

4. Reinado do Terror, EUA, 1958 c/Sterling Hayden, Ned Young, Sebastian Cabot

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, pp. 173-5.

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