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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Filme do Dia: Papai Pernilongo (1955), Jean Negulesco

Papai Pernilongo (Daddy Long Leggs, EUA, 1955). Direção: Jean Negulesco. Rot. Adaptado: Henry & Phoebe Ephron, baseado na peça de Jean Webster. fotografia: Leon Chamroy. Música: Alex North. Montagem: William Reynolds. Dir. de arte: John De Cuir & Lyle R. Wheeler. Cenografia: Paul J. Fox & Walter M. Scott. Figurinos: Tom Krogh & Kay Nelson. Com: Fred Astaire, Leslie Caron, Terry Moon, Thelma Ritter, Fred Clark, Charlotte Austin, Larry Keating, Kathryn Givney.
Jarvis Pendleton III (Astaire) é um excêntrico milionário norte-americano que viaja para a França à negócios e apaixona-se pela orfã Julie Andre (Caron), que possui idade de ser sua filha. Evitando qualquer boato maldoso, Jarvis oferece uma bolsa para a garota estudar nos EUA, porém mantendo-se incógnito. Julie passa a chamar seu protetor anônimo de Papai Pernilongo, a partir do vago retrato que escuta das crianças no orfanato. Ela passa a escrever cumpulsivamente para seu benfeitor, porém quem lê as cartas são os assistentes de Jarvis, Srta. Pritchard (Ritter) e Griggs (Clark). Influenciado pelo sentimentalismo de Pritchard, Griggs leva a conhecimento do patrão o extenso arquivo de cartas. Esse, aproxima-se da garota, através de uma sobrinha sua, Linda (Moon), companheira de quarto da mesma. Julie apaixona-se por ele que, sentindo-se culpado, resolve afastar-se. Porém, ao receber cartas cada vez mais melancólicas endereçadas ao Papai Pernilongo, decide mudar de idéia.
           Mais uma incursão luxuosa (cinemascope, direção de arte e fotografia exuberantes) do cinema americano em uma Europa clicherizada e exótica, tema aliás que não é estranho a Negulesco (realizou algo de bem semelhante com a Itália em A Fonte dos Desejos). Contrapondo, sem maiores sutilezas, os EUA como ícones da modernidade contra uma França ainda presa ao passado, o filme realça a modorrenta vila francesa em que o único veículo automotor data da I Guerra Mundial em oposição a uma excitante Nova York, admirada com êxtase por Julie do avião. Julie é o próprio símbolo de uma juventude européia pós-Segunda Guerra, fascinada pelo padrão de vida americano. Se tal descrição e a falta de constrangimento do milionário em realizar qualquer de seus caprichos, deixando bem evidente que o dinheiro se sobrepõe sob  qualquer princípio ético, pode soar arrogante em visão retrospectiva, não menos o é a tentativa ambígua de dessexualizar a relação de nítida coloração edipiana às avessas do par protagonista. Na disputa entre o calculismo impertinente de Griggs e o sentimentalismo da Srta. Pritchard, que expressa o próprio momento de dúvida de Jarvis, não há dúvida sobre quem levará a melhor. Os números musicais também possuem um papel bem mais secundário que nos filmes de Donen ou Minelli. Detalhe para uma passagem de fantasia musical em que Julie apresenta-se com um grupo para um único expectador – o próprio magnata vivido por Astaire – evocativa de Cidadão Kane, enquanto o personagem da secretária histérica e aloprada vivida por Ritter seria reciclado por Fassbinder em seu Lola. Pelo menos umas quatro versões cinematográficas já haviam sido produzidas em cima da mesma peça. 20th Century-Fox. 126 minutos.


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