CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Filme do Dia: Asas do Desejo (1987), Wim Wenders

Asas do Desejo (Der Himmel über Berlim, Alemanha Ocidental/França, 1987) Direção: Wim Wenders. Rot.Original: Peter Handke & Wim Wenders. Fotografia: Henri Alekan. Música: Jürgen Knieper. Montagem: Peter Przygodda. Com: Bruno Ganz, Solveig Dommartin, Otto Sander, Curt Bois, Peter Falk, Hans Martin Stier, Elmar Wilms, Sigurd Rachmann, Beatrice Manowski, Lajos Kovács, Laurent Petitgand, Chick Ortega, Peter Werner, Nick Cave.
         Dois anjos, Cassiel (Sander) e Damiel (Ganz) sobrevoam os céus de Berlim a procura de pessoas solitárias e desesperadas a quem consolar, seja no metrô, biblioteca, trânsito ou apartamentos, eles ouvem todas as situações de conflito e angústia por que passam. As crianças são as únicas que os vêem. Em sua jornada, interessam-se aos poucos por locais e pessoas em particular. Assim Cassiel acompanha por longo tempo as visitas do velho Homer (Bois) à biblioteca, suas reflexões sobre a vida na época da guerra, assim como suas caminhadas por trechos de uma Berlim de seu tempo, que não mais existe, e parece ser futuro canteiro de obras. Damiel, por sua vez, acompanha a desilusão da  jovem trapezista Marion (Dommartin), deprimida após perder o emprego - a trupe circense para a qual trabalhava resolveu ir para a França - e os preparativos de Peter Falk (Falk) para seu novo filme, sobre nazismo - quando este lancha e Damiel se aproxima, ele diz que sabe que ele se encontra por lá e pede que ele venha lhe apertar a mão. Apesar da influência tranquilizadora que provocam em todos aqueles que consolam, os anjos nada podem contra a resolução humana - Cassiel tenta consolar um suicida (Rachmann), mas este termina por se jogar de um edifício. Após seguir exaustivamente os passos de Marion e cansado de nunca viver plenamente a materialidade e a finitude humanas, Damiel pretende se tornar mortal. Certo dia, quando anda ao lado de Cassiel, próximo ao muro que divisa a porção oriental da ocidental, “cai” e se torna humano. Acorda da Queda com pedaços de armadura na sua cabeça jogada por um helicóptero e crianças lhe observando. Feliz por sentir as coisas, apalpa a cabeça e prova o gosto de sangue. Vende a armadura para um antiquário e consegue um casaco para se proteger do frio. Toma seu primeiro café quente. Procura Peter Falk e afirma que fora ele que se aproximara outro dia. Falk afirma que imaginara que ele fosse mais alto. Surpreendido, Damiel descobre que Falk também é um anjo. Vai ao encontro de Marion, mas ao chegar no local onde se encontrava o circo, encontra apenas o vazio. Senta-se no mesmo local onde pouco tempo antes Marion sentara e assistira a partida de seus amigos e é abordado por duas crianças que perguntam o que se passa com ele (como Marion, também sente a presença confortadora de Cassiel).  Encontra-a em um bar, e ajuda-a em seus exercíos de trapézio.
      Partindo de um poema de Rilke que celebra a unidade do mundo sob a ótica infantil, Wenders  realizou um de seus melhores filmes. Prescindindo de diálogos a maior parte do tempo, construiu uma história tocante amparado somente nas belas imagens e nos monólogos interiores de todos aqueles que são visitados pelos anjos. Esse painel que mostra a desagregação e a individualidade humanas levadas ao extremo no mundo adulto, parece apontar como única possibilidade redentora em que ele pode se espelhar o mundo infantil. Quando Damiel se transforma em humano, sua queda no mundo sensível deixa marcas na sua própria aparência física, mais degradada e real que quando ele era anjo. Embora, paradoxalmente, tenha sido considerado um dos filmes mais representativos da década de 1980 e do espírito pós-moderno, talvez o  menos substancial seja justamente um certo clima “down chic” como o momento da apresentação de Nick Cave em um inferninho (e as próprias canções do filme), apenas um elemento que provavelmente será visto como datado daqui há alguns anos. Como depositário de uma memória e de uma vida em vias de cair no esquecimento pelas novas gerações, o personagem de Homer (que possui grandes semelhanças com o que Josephson viveu em Um Olhar a Cada Dia de Angelopoulos) é vivido pelo veterano grande ator alemão Curt Bois (o mesmo de, entre outros, O Senhor Puntila e Seu Criado Matti). Mesmo lidando, por vezes,  com um terreno potencialmente perigoso - como os monólogos interiores que expressam a busca afetiva de Marion ou certas imagens como as  piruetas acrobáticas no trapézio- que pode sucumbir ao kitsch a qualquer momento ou se tornar involuntariamente solene em demasia (como sucede aos monólogos do clássico Hiroxima, Meu Amor de Resnais), o resultado final é plenamente satisfatório e expressa sinceridade e paixão. Wenders deixa evidentes certas “private jokes” ou homenagens durante o filme - assim quando o anjo percorre a biblioteca e se aproxima de uma mulher que toma notas percebemos escrito “o fim do mundo”, projeto do diretor anterior a este filme e concretizado posteriormente sob o título de Até o Fim do Mundo; Peter Falk é ele mesmo, e é motivo de discussão entre um grupo de jovens que passa e pergunta se não é Columbo, o personagem da série que lhe deixou célebre; o nome do circo em que Marion trabalha é Alekan, homenagem ao veterano cinegrafista Henri Alekan, diretor da exuberante fotografia (em p&b e cores). O filme é dedicado a todos os anjos, particularemente os cineastas Ozu, Truffaut e Tarkovski. Argos Films/Road Movies Filmproduktion/WDR. 127 minutos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário