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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Filme do Dia: Maciste no Inferno (1925), Guido Brignone

Maciste no Inferno (Maciste all’Inferno,Itália, 1925). Direção: Guido Brignone. Rot. Adaptado: Riccardo Artuffo, basedo em Dante Alighieri. Fotografia: Ubaldo Arata, Segundo de Chamón & Massimo Terzano. Com: Bartolomeo Pagano, Franz Sala, Elena Sangro, Lucia Zanussi, Umberto Guarracino, Domenico Serra, Pauline Polaire, Mario Saio.
Quando os demônios chegam à terra, sua maior provação é conseguirem capturar Maciste (Pagano), conhecido por sua força física e moral. Esse encontra-se ocupado no momento em oficializar a união de sua prima e o pai do garoto que ela teve, um aristocrata. Os demônios seqüestram a criança para servir como isca para capturar Maciste, que é levado ao reino do inferno, onde enamora-se da filha do rei Pluto (Guaraccino), Luciferina (Zanussi) e sendo seduzido pela possessiva Graziella (Polaire), que o beija, transformando-o em demônio. Tornando-se ainda mais forte enquanto demônio, Maciste será figura fundamental na derrota do Rei Barbariccia (Sala), o que leva ao profundo agradecimento de Pluto, que concede seu retorno à terra. Quando já se acreditava livre, é capturado pela malévola Graziella, que o deixa amarrado, transformando-o novamente em demônio com seu beijo. A salvação de Maciste é a oração feita na noite de natal pelo filho de Graziella.
Esse filme da série que inicia logo após o enorme sucesso que o personagem secundário de Maciste conquista no épico Cabíria, já vivido então pelo tosco canastrão Pagano, e que ainda será encarnado três vezes pelo ator após esse filme, apresenta de forma quase cristalina tanto sua influência de produções de maior prestígio artístico – deve-se levar em conta tal medida, já que o filme não deixa de apresentar nos créditos sua vinculação ao clássico literário de Alighieri – quanto sua reprodução, ainda que involuntária, de muitos dos valores mais arraigados na cultura italiana fascista. Com relação a primeira, ela se faz presente na evidente cópia do cinema expressionista alemão, com direito inclusive a um dragão (tal como Os Nibelungos, de Lang). Tendo em conta que o filme foi lançado vários meses antes do Fausto, de Murnau, não se pode dizer que tenha sido influenciado por este, ainda que os efeitos especiais dos demônios alados seja bastante evocativa, assim como a cenografia do inferno talvez tenha sofrido influência do Häxan (1922), de Christensen; de todo modo, não se pode deixar de destacar a própria criatividade visual, que certamente deve muito à presença de um dos maiores nomes dos filmes de trucagens dos primeiros anos do século, Segundo de Chamón (sua presença aqui como fotógrafo e certamente elaborador de trucagens ópticas, demonstra a mudança do status de tais efeitos no cinema, da atração praticamente única de sua época, para a ilustração de narrativas fantásticas como aqui). Com relação a reprodução dos valores que eram caros ao regime fascista se encontra evidentemente a virilidade, que chega a ser contraposta à intelectualidade, sendo essa associada com certo decadentismo aristocrático – algo que fica mais presente numa cartela que contrapõe o primeiro valor a Maciste e o segundo ao demônio; a forma rude com que Maciste simplesmente espanca os criados do conde que não pretendem deixá-lo ter acesso ao patrão, é igualmente bastante sintomática de uma figura que, consciente de sua “superioridade moral e física”, não pretende se dobrar a meras convenções sociais, espelhando de certo modo a própria mitologia que o Duce criara para si;  já do pai da criança até então bastarda não se pode traçar um retrato tão perverso, afinal ele assumirá a criança e formará uma família tipicamente cristã a celebrar seu amor na noite de natal. Tampouco deixa de estar intensamente presente uma forte misoginia que se encontra no seqüestro da criança quase como punição pelo pecado da mãe tê-la concebido fora dos laços conjugais, como se seu sofrimento quase ao ponto da insanidade fosse passaporte para sua redenção junto à comunidade e a si própria. Ou ainda em cartelas bastante ilustrativas, como a que se comenta que mesmo no inferno as mulheres são “volúveis”, como se o próprio Maciste não fosse igualmente vítima da atração carnal, algo desculpável na figura de um homem tão viril. Como nos épicos italianos e, sobretudo, hollywoodianos, que desde a década anterior já faziam uso de tal expediente, a semi-nudez feminina é vastamente explorada, assim como suas poses sedutoras. Sua versão original constava 95 miinutos, o que talvez explique certos momentos que parecem pouco claros na narrativa, principalmente no que diz respeito às motivações do conflito no inferno. A longevidade do interresse do público italiano pelo personagem pode ser comprovado pela ressureição do mesmo em uma nova série de filmes nas décadas de 50 e 60. Cinès-Pittaluga. 66 minutos.


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