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sexta-feira, 17 de abril de 2015

The Film Handbook#19: Martin Scorsese

Harvey Keitel descobre que você não pode mexer com a Máfia em Caminhos Perigosos, de Martin Scorsese


Martin Scorsese
Nascimento: 17/11/1942, Nova York, EUA
Carreira (como diretor): 1963-

O mais consistentemente revigorante realizador norte-americano dos últimos anos, Martin Scorsese baseou-se em sua própria angústia católica para investir em vários gêneros tradicionais hollywoodianos com rara tensão e acuidade. Se os seus últimos trabalhos não possuem a intensidade de sua melhor obra (ao qual a magnífica e versátil atuação de Robert De Niro tem sido crucial) ele, no entanto, permanece  singularmente desafiador, seu estilo vibrante refletindo os personagens nervosos, violentos e obsessivamente atormentados que descreve.

Sua paixão pelo cinema se desenvolveu durante uma infância doente, Scorsese abandonando suas ambições de se tornar padre. Ele passou a estudar cinema na New York University, aonde realizou uma série de impressionantes curtas e, por volta de 1969, havia completado seu primeiro longa de baixo orçamento, Quem Bate à Minha Porta?/Who's That Knocking at My Door?, história crua e altamente pessoal de confusão, culpa e timidez adolescente ambientada no Little Italy de Nova York, o filme evidenciava o talento estilístico e interesse na psicologia masculina (somado a toques de misoginia) que se tornariam elementos regulares na obra do diretor. Seu primeiro longa comercial, Sexy e Marginal/Boxcar Bertha (filme sensacionalista produzido por Corman e ambientado durante a Depressão dos anos 30, com uma gangue de malfeitores sem posses - incluindo um líder sindical - tornando-se  desesperados rebeldes revolucionários) foi igualmente promissor; e Caminhos Perigosos/Mean Streets>1, um intenso e frequentemente violento retorno às calçadas, bares e bilhares de Little Itally, com a lealdadade de um pequeno criminoso ao seu amigo irresponsável minada pela culpa católica, foi memorável tanto por seu autêntico sentimento da vida nas ruas ítalo-americanas quanto por sua soberba trilha sonora de rock que potencializou o efeito de suas imagens dinâmicas.

Após focar, por uma vez, numa protagonista feminina em Alice Não Mora Mais Aqui/Alice Doesn't Live Here Anymore (que misturava, de forma bem sucedida, o realismo do moderno road movie com o tema - a tentativa de uma viúva de construir uma nova vida - de um melodrama tradicional, Scorsese conquistou um controverso triunfo com Taxi Driver - Motorista de Táxi/Taxi Driver>2, um estudo sobre a loucura urbana na qual um motorista de táxi de Nova York, levado pelo temor da inadequação sexual e um ódio paranoico aqueles que considera inferiores, a assassinar um cafetão e seus amigos em um banho de sangue de pesadelo. Música, cores e uma câmera fluida e inquieta contribuíram para uma visão da cidade como um inferno na terra, e espelharam a crescente insanidade do protagonista. Ainda melhores - talvez por conta de serem mais objetivamente distanciadas - foram as análises da violência masculina (resultado da insegurança e repressão sexual) de  New York, New York>3, um extravagante e estilizado musical ambientado nos anos 40 e 50, descrevendo o tempestuoso e competitivo casamento de uma cantora com um egotista, imaturo e possessivo saxofonista de jazz; e Touro Indomável/Ragging Bull>4, biografia melancólica do campeão de boxe Jake La Motta, que contrasta sua socialmente aceitável violência dentro dos ringues com uma vida privada marcada pelo irracional e brutal ciúme em relação a sua esposa e seu irmão. Ambos os filmes foram variações pessimistas, intimistas e perturbadoras de gêneros clássicos hollywoodianos; eles se destacam por uma intensidade emocional proporcionada por performances de surpreendente urgência e pela habilidade de Scorsese de conseguir um realismo psicológico através de um estilo visual virtuoso envolvendo câmera lenta, cores e iluminações expressionistas, montagem rápida e extensos movimentos de câmera. Ao mesmo tempo, sua técnica discreta criou um documentário de rock acima da média e elegíaco com O Último Concerto de Rock/The Last Waltz, um convite à despedida de The Band.

Talvez o filme mais difícil de Scorsese até o momento, já que sem um único personagem simpático com o qual o público poderia se identificar, O Rei da Comédia/King of Comedy>5, sobre o sequestro de um apresentador de um talk-show televisivo por um par de nulidades destituídos de inteligência, que decidem barganhar por sua vida contra uns poucos minutos no horário nobre da TV. Sinistra e surrealmente divertida investigação das fantasias de um adorado herói fomentado pela mídia, a estática e rigorosa câmera e cores tingidas criaram efetivamente um universo solitário de desiludidos e auto-centrados perdedores. O filme não foi um sucesso e em Depois de Horas/After Hours (uma comédia maluca e negra caracterizada por manobras tortuosas em um enredo de pesadelo no qual um pacato programador de computadores sai para um encontro e quase perde sua vida em uma insana sequencia de eventos no centro de Manhattan) e A Cor do Dinheiro/The Color of Money (sequência temporã de Desafio à Corrupção/The Hustler de Rossen, retratando a difícil relação entre um maduro jogador de bilhar e um jovem ingênuo que ele escolhe educar e empresariar), o diretor empregou consideráveis técnicas para fins mais comerciais e convencionais. O resultado foi a perda de densidade emocional.

A Última Tentação de Cristo/The Last Temptation of Christ>6, no entanto, foi um bem vindo, ainda que grandemente controverso, retorno à forma. Essa adaptação do romance de Nikos Kazantzakis observa a trajetória de Cristo ao Calvário em termos pouco convencionalmente humanos que defendem, como última tentação, seu desejo de verter piedade e levar uma vida familiar normal. Scorsese foi acusado de blasfêmia, a despeito do fato de que o filme, uma sincera tentativa de compreender os tormentos da vida emocional do Messias, tenham como clímax a afirmação de Sua divindade. Interpretado com convicção e fazendo uso criativo das locações no Marrocos e uma trilha sonora com destaque para a percussão, suas falhas residem menos em heresia e mais em um roteiro cujos diálogos algumas vezes caem na banalidade, e na inabilidade básica do meio cinematográfico de iluminar o espírito - que foi, mais que tudo, o tema de Scorsese.

Um talento inquieto, imprevisível e provocador, Scorsese é de longe o mais maduro e ambicioso dos "fedelhos" que se apossaram de Hollywood de forma súbita nos anos 70. Se seus filmes espelham suas próprias ansiedades em questões relacionadas à violência, sexualidade, culpa, fé e dúvida são, ao mesmo tempo, diversão que reflete sobre a sociedade contemporânea com efeito excitante e inteligente tornando-o um dos mais distintos e versáteis artistas do cinema moderno.

Genealogia

Um verdadeiro cinéfilo, pode ser tido como influenciado por figuras tão diversas quanto Minnelli, Nicholas Ray, Fuller, Kazan, Cassavetes, Powell, Bresson, Godard e Visconti. De seus contemporâneos é mais útil compará-lo com Schrader, Demme e James Toback. Ele tem aparecido em diversas pontas de seus próprios filmes e, com efeito memorável, em Por Volta da Meia-Noite/Round Midnight, de Tavernier.

Leituras Futuras
Martin Scorsese: The First Decade (Nova York, 1980), de Mary Pat Kelly e Scorsese on Scorsese (Londres, 1989), de David Thompson e Ian Christie.

Destaques
1. Caminhos Perigosos, EUA, 1973 c/Harvey Keitel, Robert De Niro, Amy Robinson

2. Taxi Driver, EUA, 1976, c/Robert De Niro, Cybil Shepherd, Jodie Foster

3. New York, New York, EUA, 1977, c/Robert De Niro, Liza Minnelli, Lionel Stander

4. Touro Indomável, EUA, 1979 c/Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci

5. O Rei da Comédia, EUA, 1982, c/Robert De Niro, Jerry Lewis, Sandra Bernhard

6. A Última Tentação de Cristo, EUA, 1988 c/Willem Dafoe, Harvey Keitel, Barbara Hershey

Texto: Andrew, Geoff, The Film Handbook, Londres: Longman, 1989, pp. 260-2.

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