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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Filme do Dia: Daisy Miller (1974), Peter Bogdanovich

Daisy Miller (EUA, 1974). Direção: Peter Bogdanovich. Rot. Adaptado: Frederic Raphael, a partir do conto de Henry James. Fotografia: Alberto Spagnoli. Montagem: Verna Fields. Dir. de arte: Ferdinando Scarfiotti. Figurinos: Mariolina Bono & John Furniss. Com: Cybil Shepherd, Barry Brown, Cloris Leachman, Mildred Natwick, Eileen Brennen, Duilio Del Prete, James McMurtry, Nicholas Jones.
     O culto e refinado jovem norte-americano expatriado na Europa, Frederick Winterbourne (Brown) se apaixona pela jovem norte-americana em visita a Europa, Daisy Miller (Shepherd), considerada por todos como o cúmulo da vulgaridade, passeando e conversando com homens indiscriminadamente em todos os lugares e horas consideradas socialmente impróprias. Daisy se encontra próxima sobretudo do italiano, o Sr. Giovanelli (Del Prete), com quem canta no hotel e cuja mãe (Leachman), afirma que se divertem muitíssimo. Enciumado e quase paranoico, Winterbourne segue os passos de Daisy e finda por considera-la igualmente como uma moça vulgar, após encontra-la as duas horas da manhã no coliseu semi-deserto e palco de encontros amorosos fortuitos. Ele afirma para ela e Giovanelli sob o intenso risco de adquirir malária. Dá-lhe a entender que não se preocupa mais a respeito de Daisy, chocando-a. Daisy morre do mal pouco depois. Em seus funerais, Giovanelli afirma a Winterbourne que nunca conhecera uma jovem tão inocente e esse chega a conclusão que naquele verão cometera um grande erro, talvez o maior de sua vida.
        Destroçado impiedosamente pela crítica quando de seu lançamento, sendo um ponto de virada para a carreira até então vitoriosa de seu diretor e que nunca mais se recuperaria, em termos de prestígio, comparativamente, aos três filmes dirigidos anteriormente, tal intensidade do furor crítico parece hoje algo excessiva. Apenas a construção de toda a perspectiva do filme sob o ponto de vista de seu obcecado personagem casmurriano já seria digna de algum interesse. Dividido entre o intenso clamor interior que o leva a jovem e a repressão moral advinda da sociedade que acaba fortemente introjetando, o personagem de Winterbourne é vivido com relativo brilho por Brown. Shepherd vive uma Daisy Miller talvez demasiado factível de flertar com o público contemporâneo, não apenas por apontar o quão antiquado são os modos europeus, personificados pelo próprio Winterbourne, como pela própria interpretação da atriz, massacrada impiedosamente pela crítica da época. Em vários momentos, Miller aparenta ser não mais que uma adolescente suburbana norte-americana contemporânea à época que o filme foi produzido, palrando incessantemente. Pode-se perceber, no entanto, certo encanto involuntário emergir da relação entre a pretensão de se encenar um drama histórico e as fortes reverberações, inclusive canhestras, em termos de produção e da época que foi produzido, quase como se o filme se situasse entre esses dois polos. E também não menos digno de nota é o constante “flagrante” de mais que comentários, mas de situações em que a pose da criadagem é explicitamente encenada, seja no caso dos valetes que abandonam a conversa e voltam ao seu posto de impassibilidade habitual ou dos mensageiros de hotel que transformam o riso de deboche sobre o interesse de Winterbourne para com Daisy Miller numa postura de serena e neutra compleição física em questão de não mais que segundos. É contra essa apresentação dos rituais que comandam a parte mais capilar das relações sociais que a força de Miller parece ir de encontro, não sem sofrer reveses – como é o caso do constrangimento pesaroso que sente ao cumprimentar e não ser cumprimentada pela dama da sociedade a qual fora participar de uma festa. Por mais cinéfilo que seja, provavelmente não passa de coincidência o cineasta ter escolhido dentre outros vários temas uma rápida menção a um mesmo tema de Schubert que Fassbinder utilizara grandemente em O Machão ou a locação em um hotel que é o mesmo observado ao início de Martha. Referências provavelmente mais certeiras são a do momento em que Miller corre pelos aposentos do castelo de forma jovial, sedutora e desapegada tal como o personagem vivido por Claudia Cardinale fizera em O Leopardo (1963), de Visconti. O resultado, em termos comparativos, é bem canhestro diga-se passagem. O olhar melancólico de Brown – que se suicidaria 4 anos após – do início ao final é um dos trunfos do filme. Copa del Oro/The Director’s Co. para Paramount Pictures. 91 minutos.

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