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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Filme do Dia: Os Desajustados (1961), John Huston

Os Desajustados (The Misfits, EUA, 1961). Direção: John Huston. Rot. Original: Arthur Miller. Fotografia: Russell Metty. Música: Alex North. Montagem: George Tomasini. Dir. de arte: Stephen B. Grimes & Bill Newberry. Cenografia: Frank R. McKelvy. Com: Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Elli Wallach, Thelma Ritter, James Barton, Kevin McCarthy, Estelle Winwood.
Roslyn Taber (Monroe) é uma recém-divorciada que se envolve com o vaqueiro Gay Langland (Gable), indo morar com ele em seu rancho em Nevada. Porém, o que parecia ser inicialmente um paraíso, aproxima-se das dificuldades que já alertara a amiga de Roslyn, Isabelle Steers (Winwood). Roslyn terá que lidar não apenas com as bebedeiras de Langland, como com a forma que Lengland ganha dinheiro juntamente com seus dois inseparáveis amigos, Perce Howland (Clift) e Guido (Wallach), capturando e vendendo cavalos selvagens, situação que tornará limítrofe a relação entre ambos.
Mesmo com todas suas fraquezas, esse filme (que se tornou mais célebre como sendo a última produção em que participaram Gable e Monroe) não apenas volta a apresentar muitos dos temas recorrentes na filmografia do realizador como motivos que voltariam a ser retrabalhados, de modo mais amadurecido, em seu posterior Cidade das Ilusões (1972), como a cultura do álcool e dos perdedores em uma sociedade completamente obcecada com o sucesso a qualquer preço. Tal como nos filmes de Hawks uma mulher vem pôr a prova um universo masculino de códigos e práticas já bastante enraizadas. Aqui, no entanto, ela não apenas vem pôr a prova como transformar essas regras, ainda que com certa dose de inverosimilitude, em termos de conduzir a um “final feliz”. Algo que se destaca aqui é justamente essa contraposição entre um universo rude e másculo – em um de seus melhores diálogos Gay/Gable responde as preocupações exageradas de Roslyn/Monroe a respeito de Perce/Clift com algo como “querida, nada pode viver se ninguém morrer” – e a sensiblidade feminina e urbana representada por Roslyn. Nesse universo rude, a presença de Roslyn provoca uma evidente tensão sexual entre o grupo de amigos e, por outro lado, não há como se fugir de um evidente sexismo, por vezes corroborado pelo próprio filme, seja através de um plano subjetivo que privilegia o olhar de Gay sobre a derriére de Roslyn, seja o momento em que a mesma tem a mesma parte de sua anatomia estapeada por um anônimo freqüentador de um bar em Daytona em que o grupo se dirige para um rodeio. Ainda que a extrema sensibilidade de Roslyn descambe para um certo pieguismo, sendo uma das fraquezas do filme, é justamente a sua presença – enquanto, de certo modo, elemento civilizador que apontará para o futuro e novas relações possíveis com o mundo que cerca o grupo – que também o torna atraente em sua ambiguidade. É evidente a simpatia que, como John Ford, Huston nutre por esses valores tradicionais, porém como Ford ele também percebe (ou é pressionado a perceber) uma série de mudanças que põem esses valores em xeque. O esforço hercúleo de Gay para provar a si mesmo a sua força diante do animal possui um elemento de honra masculina herdeiro da literatura de Hemingway. Porém, mais notável do que tudo acima citado no filme provavelmente seja a sua exuberante fotografia em preto&branco destacando seja a penumbra ou o intenso branco de suas locações no deserto de Nevada. Destaque para o momento em que Roslyn abre seu armário e são entrevistas algumas das fotos mais célebres da própria Monroe como pin up ou estrela. Huston evidentemente potencializa (ainda que longe da sensibilidade de um Cassavetes) a dimensão melancólica de Monroe, quando Gay afirma para ela que nunca vira uma mulher tão triste em sua vida ou ainda o próprio tempo marcado no rosto cansado e sulcado de Gable, na sua construção de personagens conturbados.  Entre as notórias fraquezas do filme se encontram o caráter um tanto involuntariamente disperso de sua narrativa que, seja por motivos de roteirização ou da atribulada produção, levam a situações ou personagens completamente descartáveis tais como o vivido pela excelente Thelma Ritter, que simplesmente desaparece da narrativa. Seven Arts para United Artists. 124 minutos.


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