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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Filme do Dia: Mishima - Uma Vida em Quatro Tempos (1985), Paul Schrader

Mishima (Mishima - A Life in Four Chapters, EUA, 1985) Direção: Paul Schrader. Rot.Original: Paul&Leonard Schrader. Fotografia: John Bailey. Música: Philip Glass. Montagem: Michael Chandler&Tomoyo Oshima. Com: Ken Ogata, Masayuki Shionoya, Hiroshi Mikami, Junia Fukuda, Shigato Tachihara.
      Sem dúvida uma experiência incomum no panorama do cinema americano dos anos 80, provavelmente Schrader não tivesse conseguido efetivá-la sem a ajuda dos amigos George Lucas e Coppola. Mishima narra a vida e obra do famoso literato e agitador cultural através de três linhas narrativas distintas - o passado (em p&b), trechos inspirados em sua obra literária (em cores esfuziadamente surreais) e o momento atual (em cores realistas) - no caso 1970. De certa forma as linhas acabam por se confundirem, sugerindo uma personalidade em que vida e obra não se distinguiam.
          A opção por uma acentuada e impecável estilização na utilização da cenografia e da fotografia para compor os episódios inspirados na ficção de Mishima parecem, no mínimo, estranhas quando lembramos que os livros do autor, impregnados por uma forte predominância do tátil e sensitivo sobre o descritivo, suscitam um convite aberto à utilização de locações naturais. Por outro lado, carregando a mão na estilização visual Schrader não deixa de se aproximar de Mishima, confesso cultor e conhecedor dos estilos estéticos da arte e cultura que descreve em seus livros.  O resultado, talvez também motivado por questões econômicas, tratando-se de uma produção modesta para os padrões americanos, ficou longe de ser  insatisfatório. Talvez, no máximo, pretensioso ao tentar traduzir uma obra marcada por toda uma riqueza de símbolos, signos e da religião, de difícil transcrição para o cinema, e que são aqui trabalhadas pelo autor em episódios demasiadamente breves. Esse fato, aliado à exploração de temas que despertam mais sensação, talvez seja o motivo do cineasta ter centrado fogo na homossexualidade e, principalmente, obsessão pela morte de Mishima, deixando em papel completamente secundário a forte ligação de sua obra com a história do Japão. Quando aproxima-se desta temática só o faz para descrever, de forma um tanto quanto esquemática, a paixão de Mishima pela tradição dos samurais e pelo imperador, destroçados pela capitalização do país. Ainda assim um filme instigante e complexo, que pede um  conhecimento mínimo do expectador sobre o que fala para seu maior envolvimento.
       Admirador confesso da cultura nipônica, Schrader não perdeu a oportunidade de homenagear Mizoguchi (além de ter um livro escrito sobre Ozu) com o nome de um personagem. Também homenageia Tarkovski ao filmar rapidamente no complexo de viadutos de Tóquio onde foi realizada a mais bela sequência de Solaris. Seu estilo lembra, por outro lado, Peter Greenaway, também fascinado por culturas ancestrais e com uma ainda mais forte paixão pela estilização visual, embora com maior carga de experimentação. Ogata realiza uma excelente interpretação no papel-título. A composição da imagem nas sequências baseadas nas obras do autor é impressionante, mesclando iluminação, cor, elementos cenográficos e interpretação dos atores com marcada predominância do gestual. Embora a linha narrativa que descreva o último dia de Mishima seja estritamente realista, uma exceção é feita na cena final do harakiri do mesmo que utiliza trucagens para representá-la com maior carga dramática. Warner. 122 minutos.


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