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domingo, 12 de abril de 2015

Filme do Dia: Acossado (1959), Jean-Luc Godard

Acossado (Á bout de Souffle, França, 1959). Direção: Jean-Luc Godard. Rot. Adaptado: Jean-Luc Godard, baseado no conto de François Truffaut. Fotografia: Raoul Coutard. Música: Martial Solal. Montagem: Cécile Decugis & Lila Herman. Dir. de arte: Claude Chabrol. Com: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Daniel Boulanger, Jean-Pierre Melville, Henri-Jacques Huet, Jacques Mansard, Roger Hanin.
        Michel Poiccard (Belmondo) é um farsante que vive de pequenos furtos e sonha ser Humphrey Bogart. Apaixonado por Patricia Franchini (Seberg), uma americana que vive em Paris, ele assassina um policial rodoviário que se encontrava em seu encalço. No dia seguinte sua foto se encontra nos principais jornais da cidade e ele se torna um alvo fácil da polícia. Franchini é blasée o suficiente para não afirmar que sente nada a respeito dele. Ela entrega o New York Herald Tribune nas ruas da cidade e sonha em ser jornalista, indo para uma entrevista coletiva com um famoso escritor, Parvulesco (Melville). Em dúvida se deve seguir ou não com o amante para Roma, ela também passa a ser vigiada pelo inspetor de polícia (Boulanger) que investiga o caso e afirma que entregará a pista de Poiccard, que na verdade chama-se Lazlo Kovacs, se encontrar com ele novamente. Abrigados no apartamento de um amigo, ela cumpre com o que havia dito para o policial, delatando o paradeiro de Poiccard, que é assassinado.
          Com essa produção de enredo simples, inspirado nos filmes-B americanos, Godard realizou o filme que talvez hoje, mais que qualquer outro, prenuncie uma nova forma de se fazer cinema, característica do que ficaria conhecido como Nouvelle Vague. Ao contrário da produção em voga, na época na França, assim como em boa parte do mundo, o filme se distancia do padrão literário e pouco dinâmico de então, apelando para uma sensibilidade em que uma aparente espontaneidade, beirando a improvisação, e leveza, são suas marcas características. Os diálogos em sua maioria são banais ou expressam um certo pendor para a filosofia – como quando Franchini afirma que “eu não sei se eu estou livre porque eu estou infeliz, ou se estou infeliz porque eu estou livre”. Em ambos casos ocorre um distanciamento do padrão de diálogo então reinante, mais próximo do que  era considerado realismo. Godard também sem qualquer preocupação com a tentativa do cinema clássico de perpetrar uma montagem invísivel introduz no universo da ficção a utilização das jump cuts, os cortes abruptos, que no cinema documental já haviam sido utilizados soberbamente por Jean Rouch. Não menos modernos são os recursos vários que também utiliza como a desdramatização do que seria o ápice do drama – as caretas que Poiccard/Kovacs faz para Franchini no momento em que morre – ou a originalidade dos ângulos que escolhe – como o belo plano que observa a movimentação de Poiccard na rua de dentro do carro, ou ainda a seqüência inicial em que o protagonista fala diretamente para a câmera. Já se percebe no comportamento anárquico do casal de protagonistas um certo niilismo desesperado que se torna bem mais visível em O Demônio das Onze Horas, com o mesmo Belmondo. Logo esse novo estilo influenciaria as cinematografias mais diversas, resultando em obras tão díspares como o cinema politizado de Bertolucci ou a paródia criativa assimilada aos valores da cultura local de Sganzerla (que, inclusive, utiliza também da apresentação de painéis luminosos para apoiar a narrativa de seu O Bandido da Luz Vermelha). Melville, um dos poucos cineastas da geração anterior que não era criticado pelos cineastas da geração de Godard, faz uma ponta como o escritor/guru que comenta sobre generalidades da sociedade e da relação entre os gêneros. Em 1983 Jim McBride realizou uma refilmagem americana. Prêmio Jean Vigo. Imperia/Les Filmes George de Beauregard/SNC. 90 minutos.


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