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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Filme do Dia: Alemanha, Mãe Pálida (1980), Helma Sanders-Brahms

Alemanha, Mãe Pálida (Deutschland Bleich Mutter, Al. Ocidental, 1980). Direção: Helma Sanders-Brahms. Rot. Adaptado: Helma Sanders-Brahms, a partir de um poema de Bertolt Brecht. Fotografia: Jürgen Jurges. Música: Jürgen Knieper. Montagem: Uta Periginelli & Elfie Tillack. Dir. de arte: Gotz Heimann. Figurinos: Janken Janssen. Com: Eva Mattes, Ernst Jacobi, Elizabeth Stepanek, Angelika Thomas, Angelika Thomas, Rainer Friedrichsen, Gisela Stein, Fritz Lichtenhahn, Anna Sanders, Sonja Lauer, Miriam Lauer.
       Helene (Mattes) casa-se com Hans (Jacobi), que admira por não ser nazista, justamente no momento em que o nazismo, já devidamente instalado no poder a certo tempo, descumpre suas promessas de paz e promove a guerra. Hans parte para a frente de batalha. Lene, como é conhecida, fica esperando, como a maior parte das mulheres então. Em um de seus retornos, o casal decide ter uma criança. Essa (Sanders e Sonja e Miriam Lauer), tornando-se a única verdadeira companhia de Lene no difícil cenário de destruição, fome e violência – sendo Lene estuprada por dois soldados americanos diante da própria filha. Hans retorna após certo tempo, porém a vida conjugal para Lene acaba se tornando o pesadelo que imaginara no período que se encontrava só com a filha. Tendo sofrido precocemente um derrame e tido sua dentição extraída por completo, ela se torna crescentemente distante da vida social, por vezes avessa à própria filha, decidindo por tentar o suicídio.
         Iniciando com o poema de Brecht que lhe serviu de inspiração, recitado pela filha do próprio, esse filme trafega entre a simplicidade de seu aparente realismo e o modo algo encenado em demasiado com que os personagens se movimentam em cena, sobretudo em seu início, quiçá tendo como pretexto sua onipresente narrativa over, efetuada pela filha do casal protagonista, que proporciona momentos inteligentemente sutis de auto-reflexividade – como quando a narradora, descrevendo as cenas do casal de pais recém-casados afirma que ela “se encontra entre eles”, enquanto obstáculo; algo não apenas evidente através da própria estruturação da sequencia das imagens como no próprio interior dessas, sendo que a ausência de maior pujança erótica no encontro entre os dois talvez se dê justamente por estar sendo imaginado pela filha e – mais importante – tem-se implícita desde sempre que tal narração é a proporcionada pela filha e não um acesso direto ao próprio passado. O fato de seus pais não serem simpatizantes do fascismo, por sua vez, demarca e legitima uma posição de afastamento ideológico com relação a identidade de um passado traumático, via de regra constante na produção do Novo Cinema Alemão. Algo que é sublinhado a partir das relações familiares, nas quais o cunhado e a irmã de  Hans são simpatizantes do nazismo. Por outro lado, do pai, enquanto representação masculina dominante, sobretudo então, não se poupa o egoísmo e a indiferença para com a filha, como se essa tivesse roubado de fato o afeto que a esposa lhe devotava. Simplesmente desaparece em quase todas as situações de tensão. Destaque para as belas cenas, como a que se observa um grupo de franceses metralhados a partir da perspectiva distanciada de quem os fuzila e tendo um belo céu azul ao fundo. Ao contrário do filme de guerra tradicional, o enredo permanece na esfera doméstica-feminina, não partindo para os eventos bélicos, que acompanhamos mais através de cenas documentais. O uso constante dessas pretende enfatizar sua textualidade diferenciada, ainda quando, a determinado momento, faz com que a personagem vivida por Mattes “dialogue” com um garoto pertencente a esfera das imagens documentais. Já o laço identitário mãe-filha, fundamental para um cinema de uma realizadora feminista, torna-se ainda mais ressaltado pela ausência do pai durante a guerra e, portanto, mais que justificada na reflexão da filha (décadas após) como não passando “de um estranho”. O elemento “alienígena”, norte-americano se soma a brutalidade masculina, a oposição de gênero, para vitimizarem a mulher-nação, no estupro perpetrado pelos soldados americanos diante da criança, que apenas observa tudo muda. Quando retorna à razão, Lene apenas comenta patética sobre “o direito dos vencedores”. Mesmo a solidariedade feminina expressa pela relação mãe-filha resiste ao crescente embrutecimento da mãe. Dito isso, trata-se de um filme irregular, no qual algumas de suas melhores opções, como a da interação constante da narração com as imagens, torna-se menos frequente e algumas sequencias se tornam demasiado arrastadas, como a do longo conto que a mãe narra à filha. Helma Sanders-Brahms Filmproduktion/Literarisches Colloquium/WDR para Basis-Film-Verleih-GmbH. 123 minutos.

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