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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Nobleza Gaucha (1915), Humberto Cairo, Ernesto Gunche & Eduardo Martinez de la Pera

Nobleza Gaucha (Argentina, 1915). Direção: Humberto Cairo, Ernesto Gunche & Eduardo Martinez de la Pera. Rot. Adaptado: José González Castillo, baseado  nos poemas Martin Fierro, de José Hernandez e Santos Veja, de Rafael Obligado. Fotografia: Ernesto Gunche & Eduardo Martinez de la Pera. Música: Francisco Canaro. Com: Orfillia Ricco, María Padín, Celestino Petray, Julio Scarcella, Arturo Mario.
Inescrupuloso e rico fazendeiro (Mario) seqüestra o novo amor (Padín) de um gaúcho de fibra, Juan (Scarcella), Esse vai com o amigo Don Genaro (Petray) até Buenos Aires e, após muitas trapalhadas, conseguem encontrar a mansão do fazendeiro.  O fazendeiro se encontra nas primeiras tentativas de abordar violentamente a garota. Juan consegue salvar a amada, deixando o fazendeiro ferido. Esse, indignado, ordena que a polícia prenda Juan. Quando a polícia chega ao rancho, a garota corre e avisa Juan. Juan, ao fugir, encontra-se com o fazendeiro que, temeroso da fúria de Juan, cai de um barranco com o cavalo e morre.
Visivelmente  menos estruturado em termos narrativos do que o filme que la Pera dirigiu somente com Gunche no ano seguinte, Hasta Después de Morta,  com a primeira parte mais se assemelhando a meros pretextos para a apresentação de costumes tradicionais gaúchos, a narrativa de fato somente engrena a partir de sua segunda metade, ambientada na cidade. Mesmo que as fontes literárias ilustres ambicionem já um reconhecimento cultural, que os entretítulos não fazem esquecer, não se restringindo somente a mesma, mas também citando o Fausto, de Goethe, dentre outras obras, não há como tampouco não associá-lo ao cinema norte-americano, sobretudo Griffith e, mesmo, às comédias do primeiro cinema. Porém, se o aspecto risível que há no primeiro contato com os equipamentos urbanos e a modernidade por parte da dupla de gaúchos em Buenos Aires pode soar às vezes quase tão escrachada quanto as curtas paródias dos primeiros anos do cinema, não deixa de ser interessante que aqui, ao contrário da grandessíssima parte dos filmes que envolvem sequestro ou ameças a mulheres ou crianças, invariavelmente os alvos são personagens provenientes da burguesia enquanto os perpetradores do crime de origem humilde, algo que Humberto Mauro reproduziria no cinema brasileiro décadas após (em Ganga Bruta, por exemplo), aqui a situação se inverte. Não que tal crítica seja puramente social, embora não deixe de apresentar traços evidentes de um comentário negativo sobre a prepotência da classe abastada, que sente-se acima da lei, inclusive corrompendo-a. À nobreza gaúcha que se refere o título parece, no entanto, ser menos vinculada a situação de classe em si, do que a uma ligação quase orgânica com a terra, o campo, e nesse sentido a própria nação argentina numa visão pastoral, enquanto o cosmopolitismo urbano, mesmo explorado em diversos momentos, encontra-se associado a corrupção e a ganância, temas tampouco isentos de longa tradição. E exemplos de magnanimidade dessa nobreza se encontram quando Juan abdica de assassinar o fazendeiro por se encontrar inconsciente ou quando se sente compadecido de sua agonia final. Aliás, esse final parece bastante consciente da necessidade de terminar com a referida cena, sem que, portanto, fique implicada a grande chance de Juan ser penalizado pela morte do fazendeiro. Como no filme seguinte de la Pera, humor e drama se mesclam, ainda que no caso aqui, tal mescla pareça ocorrer de forma menos temperada e, curiosamente, o herói podendo ser abordado nos dois registros, ao mesmo tempo patético correndo atrás de um bonde com seu amigo caipira ou imponente na destreza com que monta e galopa ou consegue libertar sua amada. Destaque para a competente encenação do acidente do fazendeiro. O filme foi quase completamente restaurado em 2001, ficando aparentemente apenas uma breve seqüência de uma noitada de farra na mansão do fazendeiro representada por fotos fixas. Os entretítulos de passagens literárias não faziam parte da versão original. Cairo Films. 60 minutos.


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