O Dicionário Biográfico de Cinema#345: Jean-Claude Carrière

 


Jean-Claude Carrière, n. Colombière, França, 1931 (*)

Em sua autobiografia, Meu Último Suspiro (publicado na França em 1982), Luis Buñuel realizou uma generosa mesura a Carrière: "Não sou escritor, mas meu amigo e colega é. Um ouvinte atento e escrupuloso gravador durante nossas muito longas conversas, ajudou-me a escrever este livro." O débito pode permanecer ainda maior. Algo mágico aconteceu com Buñuel quando passou dos 60. Alguma força, ou anjo, reinterpretou seu espírito do surrealismo para uma era moderna e encontrou uma forma de realizar sonhos possível com fotografia suave e grandes estrelas. Carrière escreveu estes filmes, e suspeito que fosse o anjo que habilitou Buñuel em alguns dos mais perspicazes, divertidos e se encontrando totalmente entre os melhores filmes já feitos: Le Journal d'une Femme de Chambre [Diário de uma Camareira] (63); Belle de Jour [A Bela da Tarde] (67); La Voie Lactée [Via Lactéa] (68); Le Charm Discret de la Burgeoisie [O Discreto Charme da Burguesia] (72); Le Fantôme de la Liberté [O Fantasma da Liberdade] (74); e Cet Obscur Objet du Désir [Este Obscuro Objeto do Desejo] (77).

Já seriam façanhas o suficiente para nossa gratidão. Mas Carrière serviu há muitos outros diretores, com tato e graça. Mesmo que não haja nada que se compare aos filmes de Buñuel. Além do que, Carrière possui suas próprias ambições diretoriais - fez um curta, La Pince à Ongles (68), e um longa - L'Unique (**) (86) - e, portanto, sua disposição em ser um ajudante vital, embora necessariamente bastante discreto, para os outros é bastante admirável. 

Possui muitas habilidades: foi desenhista que colaborou com Pierre Étaix; escreveu peças - L'Aide-Mémoire (68) - e romances - Le Lézard (57) e L'Alliance (63). Também atuou ocasionalmente. Mas ele é demasiado bom na elaboração de roteiros habilidosos, particularmente adaptações, tendo muita liberdade permitada para qualquer outra coisa: Le Souspirant [O Pretendente]  (62, Étaix); Nous N'Iron Pas au Bois (63, Étaix); Insomnie (63, Étaix); La Reine Verte (64, Robert Mazoyer); Yoyo (64, Étaix); Viva Maria! (65, Louis Malle); Tant Qu'on à la Sant (65, Étaix); Cartes sur Tables (65, Jesus Franco); Le Voleur [O Ladrão Aventureiro] (65, Malle); Hotel Paradiso (66, Peter Glenville); La Piscine [A Piscina] (68, Jacques Deray); Le Grand Amour [Esse Louco, Louco Amor] (68, Étaix); L'Alliance (70, Christian de Chalonge); Borsalino (70, Deray); La Cagna [A Cadela] (70, Ferreri); Un Peau de Soleil dans l'Eau Froide [Um Pouco de Sol na Água Fria] (71, Deray); Taking Off [Procura Insaciável] (71, Milos Forman); Le Moine (72, Adonis Kyrou); Un Homme est Mort [Os Gângsters Não Esquecem] (72, Deray); France Société Anonyme [France S.A.] (73, Alain Corneau); Dorothea Rache [A Vingança de Dorothea] (74, Peter Fleischmann); Un Amour de Pluie[Os Indiscretos Pingos da Chuva] (74, Jean-Claude Brialy); Le Clair et l'Orchidée [A Marca da Orquídea] (74, Patrice Chereau); Grande Nature [Tamanho Natural] (74, Luis Berlanga); La Femme aux Bottes Rouge [The Woman in Red Boots] (74, Jean-Luis Buñuel); Sérieux Comme le Plaisir (74, Robert Benayoun); Le Gang (77, Jacques Deray); Julie Pot-de-Colle (77, Phillippe de Broca); Photo Souvenir (***) (78, Edmond Séchan); Un Papillon sur l'Epaule (78, Deray); Die Blechtrommel [O Tambor]; Une Semaine de Vacances [Um Olhar para a Vida] (80, Bertrand Tavernier); Sauve qui Peut (la Vie) [Salve-se Quem Puder (A Vida)] (80, Jean-Luc Godard); Die Fälschung [O Ocaso de um Povo] (81, Schlöndorff); Danton [Danton - O Processo da Revolução] (82, Andrzej Wajda); Le Retour de Martin Guerre [O Retorno de Martin Guerre] (82, Daniel Vigne); La Tragédie de Carmen (83, Peter Brook); Un Amour de Swann [Um Amor de Swann] (84, Schlöndorff); Max Mon Amour [Max, Meu Amor] (86, Nagisa Oshima); Oviri [Wolf at the Door] (87, Henning Carlsen); Les Possédés [Os Possessos] (87, Andrzej Zulawski****); The Unbereable Lightness of Being [A Insustentável Leveza do Ser] (88, Philip Kaufman); The Mahabharata [O Mahabharata] (89, Brook); Valmont [Valmont - Uma História de Seduções] (89, Forman); Cyrano de Bergerac [Cyrano] (90, Jean-Paul Rappeneau); Milou en Mai [Loucuras de uma Primavera] (90, Malle). 

Nos anos 90, ficou evidente que Carrière estava trabalhando mais frequentemente em adaptações de clássicos romances na TV. E pode se acrescentar que, após a morte de Buñuel, Carrière foi incapaz de reclamar o leve toque letal do mestre. Trabalhou em At Play in the Fields of the Lord [Brincando nos Campos do Senhor] (91, Hector Babenco); Le Retour de Casanova [O Retorno de Casanova] (92, Edouard Niermans); La Controverse de Valladolid (92, Jean-Daniel Verhaeghe); The Night and the Moment [Noite de Sedução] (94, Anna Maria Tato); La Duchesse de Langeais (94, Verhaeghe); o muito exuberante Le Hussard sur le Toit [O Cavaleiro do Telhado e a Dama das Sombras] (95, Rappeneau); Der Unhold [O Guardião da Floresta]; The Associate [O Sócio] (96, Donald Petrie); Une Femme Explosive (96, Deray); Chinese Box [O Último Entardecer] (97, Wayne Wang); Clarissa (98, Deray); Salsa (00, Joyce Buñuel); Madame De...(01, Verhaeghe); Lettre d'une Inconnue (01, Deray); La Bataille d'Hernani (02, Verhaeghe); Ruy Blas (02, Jacques Weber); Les Thibault (03, Verhaeghe); e um co-roteirista no intrigante Birth [Reencarnação] (04, Jonathan Glazer).

Para a televisão francesa, adaptou Le Père Goriot (04, Verhaeghe) e Galilée ou l'Amour de Dieu (05, Verhaeghe); fez o roteiro para Goya's Ghosts [Sombras de Goya] (06, Milos Forman); Marie-Antoniette (06, Francis Leclere e Yves Simoneau); Ulzhan (07, Schlöndorff); The 4th Wall (10, Clement Gharini); El Artista e la Modelo (12, Fernando Trueba); Syngué Sabour, Pierre de Patience [A Pedra da Paciência] (12, Atiq Rahimi).

Texto: Thomson, David. The New Biographical Dictionary of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2014, pp. 414-16.

N.do E: (*) falecido em 2021.

(**) no IMDB tal produção tem direção de Jérôme Diamant-Berger, sendo Carrière creditado como roteirista. 

 (***) episódio de uma série composta de 116 filmes realizados para a TV, chamada Cinéma 16

(****) No IMDB consta como dirigido por Andrzej Wajda. 

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