Filme do Dia: Tudo Azul (1952), Moacyr Fenelon
Tudo Azul (Brasil, 1952). Direção:
Moacyr Fenelon. Rot. Original: Alinor Azevedo, a partir de argumento dele e de
Henrique Pongetti. Fotografia: Mário Pagés. Montagem: Rafael Justo Valverde.
Cenografia: Pablo Olivo. Figurinos: Julieta Lombardi. Com: Luiz Delfino,
Marlene, Laura Suarez, Milton Rodrigues, Antônio Nobre, Benito Rodrigues, João
Martins, Elias Kaiuca, Zizinha Macedo.
Cantor frustrado, Ananias (Delfino)
acha insuportável seu trabalho de funcionário público. Seu patrão (Rodrigues)
também acha insuportável seu ser relapso e o mesmo afirma sua mulher, Sofia
(Suarez). E até mesmo a secretária do trabalho, Maria Clara (Marlene), que
inicialmente parecia interessada em levar adiante o namorico deles, afirma que
sua vida seria a mesma se ela tivesse sido a escolha da vida dele. Após ter
ouvido em poucas horas do patrão e da esposa que ele poderia se suicidar, após
seus habituais reclames, Ananias toma veneno e encontra um portão alado no qual
todos os seus sonhos começam a se realizar como em um passe de mágica. Até a
realidade voltar duramente a se fazer presente.
Conduz relativamente bem sua fantasia
a la Capra (A Felicidade Não Se Compra,
cujo título brasileiro chega a ser citado a determinado momento), em que certa
ironia parece sempre acompanhar o caráter demasiado auto-complacente de nosso
herói – algo que inexiste na produção norte-americana, diga-se de passagem, até
o momento em que se transforma sem nenhum aviso em musical, mais da metade do
mesmo já transcorrida e de forma um tanto desconexa. E numa relação aparentemente ambígua com Capra, o filme
parece também fazer troça do seu próprio equivalente hollywoodiano, muitas
vezes excessivamente roséo e escapista, em um padrão de ambiguidade mais complexo que o habitual nas chanchadas. É uma pena que os números musicais, por
si só interessantes, sejam enfileirados sem nenhum critério ou organicidade,
quase como para tapar os buracos de uma boa ideia que não conseguiu ser
trabalhada o suficiente para render um longa-metragem. Tanto é que artistas
como Dalva de Olveira, Linda Batista, Blecaute ou Vírginia Lane surgem e
desaparecem com eles. A última, aliás,
chama a atenção a ousadia nos trajes carnavalescos (assim como a letra) de Eu Quero Sassaricar, efetuando um movimento com sua púbis que
transforma os rebolados posteriores de Elvis Presley ou os números musicais das
estrelas hollywoodianas em algo decoroso. Destaque para a criatividade do
cenário “transparente” de cabaré para Deixa
Essa Mulher Chorar com Linda Batista. E, tirando partido de sua aberta
fantasia, o momento talvez mais hilário e moralmente avançado para a época, em
que mulher e amante trocam elogios e o marido beijos com as duas na frente uma
da outra, mesmo que, evidentemente, a contraparte ousada feminina seja
personificada na prostituta de Batista. Uma das ilustrações musicais mais
felizes é a de Lata d’Água com
Marlene, vivendo uma dondoca de trajes elegantes que saracoteia de saltos altos
evocando suas musas populares que, por sua vez, surgem em imagens documentais,
em várias camadas de contrastes que vão da encenação e modelo narrativo opostos
como igualmente do abismo social e racial – a esmagadora maioria das mulheres
do morro que surgem são negras – brasileiro. Nunca é demais frisar o contraste
do belo cruzeiro barroco no alto do morro e das rústicas casas da favela com o arremedo de apartamento
modernista art déco em que Marlene e Luiz Delfino se deliciam com a música,
selando mais outro contraste, o do esitlo de vida do artista em relação a
muitos dos temas que canta. O esgotamento da narração se torna progressivo como
é o caso do verdadeiro port-pourri que ocorre nesse momento, sendo que agora as
canções, ao contrário de Lata d’Água
ocorrem em cenários mais tipicamente do teatro de revista, gênero que mais
inspirava tais produções. Destaque para a presença de tipos femininos de
diversas cores no momento que ilustra a beleza feminina na praia, mesmo que não
se encontre presente uma negra – essas ainda se encontram restritas às mais
cruas cenas documentais. Ou quando surgem no palco em grande número (trata-se
de membros da escola de sama Império Serrano) e coadjuvam Dalva de Oliveira em Estrela do Mar, sendo a exceção o
protagonismo de Blecaute, mesmo sendo um barman a servir o trio de Delfino e
suas duas mulheres. E destaque também para o recurso ocasional de
verdadeiros tableaux vivants seja
para ilustrar o que seria uma estilização do Nordeste, tornando-se mais um
elemento a compor o cenário. Restaurado em 2001, cinquentenário de sua
filmagem. Seu final, com a notícia de um novo filho enquanto passaporte para
uma possível conciliação do casal soa tão emblematicamente convencional quanto
qualquer final feliz hollywoodiano contemporâneo. O retorno à realidade soa
muito mais efetivo (e desprazeroso), sendo outro trunfo desse filme um tanto
irregular mas com muitos felizes achados. Cinedistri/Flama Filmes. 79 minutos.

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