Filme do Dia: Bola de Fogo (1941), Howard Hawks
Bola de
Fogo (Ball of Fire, EUA, 1941). Direção Howard Hawks. Rot. Original
Charles Brackett & Billy Wilder, partindo do argumento de Wilder &
Thomas Monroe. Fotografia Gregg Toland. Música Alfred Newman. Montagem Daniel
Mandell. Dir. de arte Perry Ferguson. Cenografia Howard Bristol. Maquiagem Mel
Berns. Guarda-Roupa Edith Head. Com Gary Cooper, Barbara Stanywick, Oscar
Homolka, Henry Travers, S.Z. Sakall, Tully Marshall, Leonid Kinskey, Dana
Andrews, Dan Duryea, Richard Haydn.
Grupo de dedicados especialistas que há tempos
organizam uma enciclopédia, liderados por Bertram Potts (Cooper) fica
baratinado com a chegada na casa onde vivem de uma cantora, Sugarpuss O’Shea
(Stanwyck), jovem, sensual e – mal sabem eles – envolvida com um perigoso
gangster, Joe Lilac (Andrews).
Como Pernalonga, a Miss O’Shea de Stanwyck domina oito
homens com condescendência. Sua batalha está ganha quando o mais obstinado
deles – vivido evidentemente por Cooper, em uma má escalação de elenco,
provavelmente porque Cary Grant não se encontrava disponível – afirma
espontaneamente que um raio de sol sobre os cabelos dela foi o suficiente para
que ele tomasse uma ducha fria; e O’Shea reduz, em termos anatômicos, a
duplicidade envolvida no relato (brilho sobre os cabelos nela, glândula que
fica situada ao final da nuca nele). Possui uma das cenas mais inusitadas até
então já realizadas por Hollywood – após uma sucessão de muitas menções
misóginas, contrapondo a sensualidade de Stanwyck à velha criada. Outra,
tampouco esperada, embora mais convencional, é a do bando de velhinhos armados
com metralhadoras ao final, disparando. Também é um festival de coadjuvantes
célebres, dos quais não reconhecemos o nome se não formos a algum dicionário ou
similar. A transição de O’Shea do eixo do mal para o do bem já está posta e o
momento de virada é a comiseração que passa a sentir pelo Potts de Cooper. Há
evidentes referências aos sete anões – que estavam no imaginário coletivo
recente, com o lançamento do longa da Disney, observado na marquise de um
cinema – na figura dos oito professores, sendo que sete são mais tipicamente um
coletivo apócrifo, sem personalidade muito delineada, ao contrário do vivido
por Cooper, e a piada ainda foi ressaltada em um diálogo. E antes mesmo que a
conga o demonstrasse mais obviamente, no momento de dança de Stanwyck com “seus
anões”, ela já havia ressaltado um vínculo de seu erotismo com o carisma latino
da brazilian bomshell Carmen Miranda. Também há o evidente
Anti-intelectualismo a perpassar todo o melhor cinema clássico americano, e
muito associado ao gênero cômico, que seria reverberado alhures – bastante no
cinema brasileiro e na chanchada particularmente, a seu modo – no exemplo-mor
do Prof. Xenofontes de Oscarito em Carnaval Atlântida. No geral o clima
de farsa demasiado domesticada, o que já é uma redundância em termos, soa como
pratos criteriosamente postos sobre a mesa, dos quais a eventual surpresa de um
cálice se espatifar ao chão não abala o arranjo inteiro. Não é a toa que Hawks
tenha servido como modelo, mais que qualquer outro provavelmente, do humor
chanchadesco e de seu desdobramento posterior na telenovela brasileira. E não é
mera coincidência que Wilder, ainda virgem de direção em Hollywood, tenha sido
um dos a escrever o roteiro, tendo em vista o que fará futuramente com material
não muito distante (Quanto Mais Quente Melhor). Hawks não parece ter
sido um grande enamorado do estilo visual, como demonstram as projeções de
fundo ainda mais canhestras que as habituais da época, mesmo tendo a seu
serviço um fotógrafo como Toland, no auge de suas experimentações com Wyler e
Welles. Seria refeito sete anos após, pelo mesmo Hawks, como comédia musical (A
Canção Prometida), com Danny Kaye e Virginia Mayo nos papeis de Cooper e
Stanwyck. |The Samuel Goldwyn Co. para RKO Radio Pictures. 113 minutos.![]()

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