Filme do Dia: Frances (1982), Graeme Clifford

 


Frances (EUA, 1982). Direção Graeme Clifford. Rot. Original Eric Bergren, Christopher De Vore & Nicholas Kazan. Fotografia László Kovács. Música John Barry. Montagem John Wright. Dir. de arte Richard Sylbert & Ida Random. Cenografia George Gaines. Figurinos Patricia Norris. Com Jessica Lange, Sam Shepard, Kim Stanley, Bart Burns,  Allan Rich, Jeffrey DeMunn, Lane Smith,  James Karen,

Frances Farmer (Lange) possui simpatias à esquerda quando jovem e gera antipatia da população de sua provinciana cidade, ao fazer um discurso ateísta, aplaudido apenas por sua mãe (Stanley) e decide ir morar em Nova York, contra a vontade da mãe, mas com aceitação do pai (Burns), e com o interesse afetivo de um amante ocasional, Harry (Shepard). Ela consegue algum destaque na cena teatral e é quase automaticamente convidada para Hollywood, onde o sucesso inicial vinculado a uma produção, cuja estreia se dá na sua cidade, não é continuada, por conta de seu constante estranhamento com a máquina da indústria, representada sobretudo pelo produtor da Paramount, Bebe (Rich). Sua relação profissional, e posteriormente amorosa com o dramaturgo engajado Clifford Odets (DeMunn) tampouco vai muito adiante. Vítima do cerco da imprensa e com relação constantemente tensa com uma mãe, que não aceita ela não insistir em sua carreira, e com suas pretensões teatrais negadas por sua relação problemática com o mundo do cinema, é internada em uma instituição de repouso, da qual foge com ajuda de Harry. Após um novo período errante, em meio a propostas enganosas e produções de péssimo padrão, desiste de qualquer vínculo com o entretenimento, e termina hospitalizada em uma clínica psiquiátrica onde sofre procedimentos radicais, como terapia com eletrochoque e lobotomia. Tempos depois, é entrevistada em um programa de televisão, assistido por Harry, que vai de encontro a ela, quando ela sai do Hotel Roosevelt, onde houve uma recepção em sua homenagem.

Quanto mais se conseguem afastar de generalizações rasteiras sobre um passado, melhor se tornam filmes ambientados em algum lugar deste. As impressões iniciais não são das melhores neste quesito. Quando se observa os primeiros minutos, tem-se o pressentimento de que o filme versará sobre duas tradições que não exatamente se bicam em Hollywood, a não ser em documentários ou sendo subtrama – a simpatia por ideologias de esquerda e a indústria do cinema. De fato, como é regra em Hollywood, ficará como detalhe, em panorama, a eventual simpatia esquerdista da atriz, o que ameaçaria um processo de empatia pela personagem no contexto de recepção mais ampla do público conterrâneo contemporâneo. Tudo regulado por um constrangedor senso de lida com caracterizações que já conhecemos demasiado: atrizes adultas interpretando adolescentes através de seu sorriso mais pueril;  mães caricatamente possessivas; coincidências como a de Frances assistir um cinejornal no qual ela e Harry são tematizados como assuntos de blocos distintos, e logo na sequencia a seguir ele a abordar no meio da rua. Dito isto, e deixando à parte o quão fakes são as reconstituições de época hollywoodianas com o passar do tempo, ou mesmo já em seu nascimento, temos expressões interessantes de modulações das reações de Frances ao sistema dos estúdios, representativo do sistema capitalista mais amplo em certo sentido, trazendo reveses a sua já frágil personalidade, como é o caso da descoberta de chegar em sua casa e encontrar todos seus objetos retirados para ceder espaço a uma nova aspirante à estrela. E não apenas, mas se imiscuindo em objetos pessoais seus, seu diário incluído. E se tornando objeto sensacionalista da imprensa, que já esperava por qualquer deslize dela desde o momento que destratara um dos espiões de Louella Parsons, a mais célebre fofoqueira de Hollywood então. Sua representação da internação na clínica é de longe menos caricata do que a representada em filmes célebres anteriores ou posteriores a este (Um Estranho no Ninho, para ficar em um único exemplo) – embora tampouco esta caricatura esteja ausente, na sessão de pacientes, como se dizia à época “crônicos”, de uma instituição psiquiátrica – por ter feito uso de estabelecimentos de instituições mentais, houve um acordo para que houvesse uma notificação da inexistência dos tratamentos retratados desde os anos 1940, postos pelos produtores espertamente no final dos créditos de vários minutos, quando provavelmente todos os espectadores já deixaram a sala ou fecharam o arquivo do filme. E o filme pinta, em última instância, um quadro de alguém sensível em meio a três instituições a fortalecerem o adoecimento, a família, Hollywood e o hospital psiquiátrico.  E o “amor” não surge como uma janela salvadora, mas outra possibilidade de negociação – o momento de Frances se render ao amor de Harry é apenas um despiste, calculadamente negociado internamente, até conseguir ganhar a estrada outra vez. No que diz respeito a ser um “filme de época”, há uma cena de composição histórica a fazer uso das ruas de Nova York algo acima da média, com o pai a observar a filha se afastar, e as gotas de chuva sobre o vidro a se fazerem de lágrimas sobre seu rosto. E ainda mais bem resolvido, é a sua reprodução da textura da imagem de um programa de tv estadunidense de entrevistas dos anos 1950. E, por mais que o personagem de Harry (vivido pelo companheiro de Lange, Sam Shepard) seja composto de modo tão monotonal, sempre disposto a implorar que vivenciem uma relação, quase como um fã (se lembrarmos que ele guarda um porta-retrato dela no auge da fama), e a cena final possa ser observada como uma indicação futura de final feliz já bastante codificada, os letreiros por fim desmentem-no, afirmando ela ter morrido solitária, como viveu. Se é bem verdade que apresentar um desfecho feliz seria quase uma remissão a validar os tratamentos brutais aplicados a Farmer, por outro lado tampouco se cai em um vitimismo a ser a causa de todos os males, emprestando, inclusive, uma dignidade maior ao desejo da personagem de viver a seu modo, percebendo, por experiência própria, os outros a terem um contato demasiado próximo sempre como uma sombra de ameaça a sua integridade psíquica. A única produção de Frances destacada, e da qual não nutre menor orgulho, é Meu Filho é Meu Rival (1936). Anjelica Huston é extra, devidamente creditada, como uma das pacientes do hospital psiquiátrico.  Co-produzido por Mel Brooks, então no auge de seu interesse em produzir filmes “sérios” e de ambições artísticas (O Homem Elefante, A Mosca, Nunca Te Vi, Sempre Te Amei).|Brooksfilms/EMI Films para Universal Pictures. 140 minutos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Filme do Dia: Der Traum des Bildhauers (1907), Johann Schwarzer

Filme do Dia: El Despojo (1960), Antonio Reynoso