Filme do Dia: Mauro, Humberto (1968), David Neves
Mauro, Humberto (Brasil, 1968).
Direção e Rot. Original: David Neves.
Espécie de explicitação em filme da
estratégia programática traçada pelo Cinema Novo (sobretudo Gláuber Rocha, que
aparece em breve momento do filme fazendo sua famosa equiparação de Mauro com
mestres nacionais de outros fazeres
artísticos) da figura de Humberto Mauro. Não é à toa, portanto, que o filme
acabe retratando o patrono do Cinema Novo nas situações mais banais de seu
cotidiano, traçando um paralelo com seu imaginário fílmico que o narrador off insiste em ser guiado pelo instinto,
mais que pelo intelectualismo, associado com artificialismo. Mauro fala somente
ao final, quando rapidamente descreve porque ele considera que “cinema é
cachoeira”, demonstrando que é mais importante para a geração cinema-novista a
imagem idealizada de um Mauro silencioso que propriamente seu discurso. Além
dele, as outras únicas intervenções de corpo presente (com som pessimamente
sincronizado) são a já citada de Glauber e a do ator e companheiro de trabalho
no Instituto Nacional de Cinema (INCE), que protagoniza o curta de Mauro mais
inventivo, A Velha a Fiar.
Acertadamente as imagens dos filmes de Mauro que ocupam mais metragem são não
só de seu melhor filme, Ganga Bruta, como justamente a mais bela de suas
seqüências, que é a do jogo de sedução do casal, numa cópia propiciada pelo
INCE de imagens de uma beleza cintilante. Ou ainda de seu último
longa-metragem, O Canto da Saudade
(1952). O ingresso de Mauro no INCE, aliás, e sua associação com curtas
institucionais para a ditadura varguista, é logo suavizado pela narração que
afirma que só o fez pela impossibilidade de viver produzindo apenas cinema
comercial. Sobre as imagens de O Descobrimento do Brasil (1937), em versão oficiosa e burocrática, o filme
apenas ressalta a música de Villa-Lobos e a habilidade de Mauro com o
Tupi-Guarani. Sobre o não menos ideologicamente problemático, pelo menos para
os princípios cinema-novistas, Argila (1940), apenas se acentua a
plasticidade de sua iluminação e a utilização da música através de um viés
expressionista. Enfim, um filme-tributo que procura selar uma continuidade em
meio ao isolamento dos ciclos ocasionis do cinema brasileiro – ressaltado pela
presença do cartaz do então recentemente lançado Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), aliás quando se anuncia
Humberto Mauro o que vemos é justamente a fiugra de Corisco no cartaz do filme
de Gláuber - que não vai muito além do acadêmico, como a própria grafia
impessoa do título sugere. Curta de estréia de David Neves. No IMDB consta como sendo de 1975. 21 minutos.

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