Filme do Dia: Quando Nem um Amante Resolve (1970), Frank Perry
Quando Nem um
Amante Resolve (Diary of a Mad Housewife,
EUA, 1970). Direção: Frank Perry. Rot. Adaptado: Eleanor Perry, a partir do
romance de Sue Kaufman. Fotografia: Gerald Hirschfeld. Montagem: Sidney Katz.
Dir. de arte: Peter Dohanos. Cenografia:
Robert Drumheller & Sam Robert. Figurinos: Ruth Morley. Com: Carrie
Snodgress, Richard Benjamin, Frank Langella, Lorraine Cullen, Frannie Michel,
Lee Adams, Peter Dohanos, Katherine Meskill.
Tina
(Snodgrass) vive com um marido, Jonathan (Benjamin) que a trata como empregada
e apenas pensa em seus compromissos sociais e de trabalho. certa noite em que o
acompanha a um evento social, no qual ele fica a maior parte do tempo com sua
amante é cortejada pelo galanteador George (Langella). Porém a relação
extra-conjugal, que parecia inicialmente ser uma via de escape para Tina,
rapidamente se torna um passaporte para os devaneios sádicos de George,
decidindo-se ela por retornar ao marido, que se encontra em crise
pessoal-profissional.
A
opção que Perry faz uso de apresentar a opressão misógina e as formas de escape
possíveis na vida burguesa americana da época pode soar um tanto caricata,
ainda mais quando amparada em um trabalho de atores não mais que razoável em
uma produção pequena, mas é no geral positiva em meios aos acertos (David e Lisa, Enigma de uma Vida) e erros (Cruéis Jogos Infantis) que consistem os tipos e situações “excêntricas” que
habitualmente atraem o realizador. Se
Jonathan é uma caricatura de marido abusivo e personalidade quase
grostescamente egóica e infantil que costuma acompanhar traços da personalidade
masculina ao infinito, o filme não abdica por completo de sua postura realista,
ao contrário de produções mais abertamente alegóricas como Martha, de Fassbinder. E a personagem de Tina é que é observada de
maneira mais próxima e complexa, o que a leitura brasileira da época, como se
pode perceber em seu título, aparentemente não referenda a crítica e ainda
reforça o caráter misógino. Há nuances um tanto inovadoras em Tina, ao menos
nos seus propósitos iniciais de não se envolver com o amante para além do sexo
– em um trato que antecede o do casal de O
Último Tango em Paris – que se dilui ao final, quando ela se encontra
incomodada de George não querer saber nada sobre sua vida e também manter
relações com outras mulheres, e tampouco deixa-la consciente do que
efetivamente faz da vida. E, não deixa de ser decepcionantemente banal a aposta
final do filme, tão pouco crível quanto a dos filmes da Hollywood dos anos 50,
em que o acúmulo de achaques e vitupérios subitamente cede espaço a compreensão
e elogios, por conta de um “momento de fraqueza” do marido. Snodgrass vive sua
personagem com uma espontaneidade bastante incomum, e quase nunca a se alterar,
ao contrário dos dois homens que lida, embora sua presença tenha infelizmente
se tornado incerta em produções cinematográficas (mesmo com uma indicação ao
Oscar por esse papel) voltando-se cada vez com mais frequencia para seriados anódinos de
TV; embora tivesse filmado uma ponta não
creditada em Sem Destino,
trata-se de sua virtual estreia no cinema, assim como de Langella. Frank
Perry Films Inc. 95 minutos.

Comentários
Postar um comentário