Filme do Dia: Entre los Hielos de las Islas Orcadas (1928), José Manuel Moneta

 


Entre los Hielos  de las Islas Orcadas (Argentina, 1928). Direção José Manuel Moneta.

Após uma abertura incomum para documentários do tipo travelogue, bastante excêntrica para estes padrões, misturando antecipações de imagens da vasta área gelada a ser explorada com uma cidade que não deveria ser outra que Buenos Aires; deve-se lembrar ter sido produzido por Federico Valle, conhecido por cinejornais e travelogues incomuns e que caíram no gosto popular. Dentre as ironias iniciais, o primeiro plano do homem do qual vem a ser dito, através das cartelas, como o mais importante da expedição, seu cozinheiro, Fritz – posteriormente observado a amassar uma massa na cozinha e a “diverti-los” com seus cantos. Lobo e Pinguina são os dois cães que acompanharão os expedicionários. Um cardume de golfinhos festeja a presença do barco, mal sabendo que serão vítimas do arpão de seus homens. Chegam a um porto e uma base, onde outras embarcações – inclusive um navio, aparentemente baleeiro, de bem maior envergadura que o dos expedicionários – estão atracados. E onde homens recortam a carne dos grandes cetáceos. Homens brincam com a enorme arcada dentária de um cachalote. De lobos e elefantes marinhos, observados nas imagens, diz-se gerarem bastante óleo igualmente. Pelos comentários das cartelas, imagina-se que a expedição do barco em questão está longe de exploratória, em relação à geografia ou espécies animais, mas diretamente exploratórias do que pode render economicamente tal fauna. Baleias, com suas majestosas caudas, são observadas próximas da embarcação.  Panorâmicas investem nos enormes montes de gelo e neve. E outros sem neve são apreciados mais rapidamente. Assim como parcialmente cobertos de neve. Ruínas de uma casa histórica onde teria vivido a primeira expedição, em 1904, afirma a cartela. Único plano (ou como a cartela diz, fotografia) na qual aparecem os seis membros da expedição, estes são observados em torno dos locais onde se encontram enterrados o que supomos ser membros da primeira expedição ou também de outras que vieram após. Um sistema de telégrafo é ressaltado como o primeiro meio comunicação do “continente antártico”  com o resto do mundo. Aparentemente, como no célebre Nanook, filmado apenas uma dúzia de anos antes, busca-se ocultar o máximo possível a presença da câmera. Quando a cartela já comentada fala a respeito de “seis expedicionários” ela estaria esquecendo quem filma as imagens ou este também colocaria o equipamento para filmar e depois se uniria ao grupo? Ou haveria revezamento na função? Porque há inúmeras imagens em que aparecem cinco integrantes e um sexto em atividade próxima, caso do momento em que Fritz cozinha, quando os outros cinco se encontram a sala. A noção de simultaneidade, evidentemente como muito do bem mais conhecido documentário de Flaherty, poderia ter sido forjada. Há um momento de caça de peixes no gelo, após ter sido feito um buraco, devidamente acompanhado por um curioso pinguim, enxotado com um balde de água retirado da pequena cratera. E observa-se uma pesca bem mais prosaica de um pequeno peixe, ao contrário da tensão elaborada pela montagem no filme do estadunidense. Uma cena fomenta a luta de dois leões marinhos. Um deles vem ser morto à bala e sua carne é recortada. A consequência da cena anterior se apresenta em planos de Fritz preparando o que presumidamente foi caçado e o alvoroço dos rapazes à mesa. A bandeira argentina é hasteada a 25 de maio, dia que se protocolou como marco rumo à independência do país. Apresenta-se então sobreposições de paradas militares sobre a bandeira hasteada, em cena de gosto duvidoso. O termômetro diante da estação argentina acusa 40 graus negativos. Boa parte da estação é encoberta pela neve e cumpre se usar do velho método de retirar a neve com pás, pois já ultrapassam a altura das janelas. A chegada da primavera não modifica grandemente a paisagem. Os cães perseguem uma acuada foca, que consegue desenvolver uma velocidade considerável para se safar. Um dos expedicionários agarra uma ave pelo pescoço para poder mostrar o ovo que ele retira do ninho. Depois surgem imagens de filhotes, completamente brancos, ao contrário da tonalidade preto e branca de quando adultos. Não há a menor sutileza na intrusão dos ambientes em que os animais chocam seus ovos. O flagrante de um acidente, quando um dos expedicionários cai em um buraco. Teria havido simulação na cena? A construção de um iglu, com requintes como uma “janela”.  Construção que é menos circular que quadrada. Uma leoa marinha amamentando seu filhote. Cenas de carinho maternal em meio a um poço de gelo. Deserta ao inverno e superpovoada no verão, com uma quantidade enorme de pinguins (“una pinguiñera”). Os pinguins catam pedregulhos com o bico para forjar seus ninhos. Quando a operação é concluída, por vezes se tem um monte de altura razoável. Um filhote recém-nascido. O barco ressurge. Agitação entre os rapazes. Há uma confraternização ao redor do mastro com a bandeira argentina e o barco ao fundo. Despedem-se, deixando outra equipe que lhes rende – provavelmente uma encenação em termos, pois também observamos o “contracampo”, digamos assim, dos que ficam; como a câmera ficaria mais tanto tempo?|56 minutos.

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