Filme do Dia: Titio Não é Sopa (1959), Eurípedes Ramos

 


Titio Não é Sopa (Brasil, 1959). Direção: Eurípedes Ramos. Rot. Adaptado: Victor Lima & Eurípedes Ramos, a partir da peça de Henrique Marques Fernandes. Fotografia: Hélio Barroso. Música: Radamés Gnatalli. Montagem: Hélio Barroso & Wilson Monteiro. Dir. de arte: Nicolau Lounine. Cenografia: Benedito Macedo. Com: Procópio Ferreira, Eliana Macedo, Herval Rossano, Ronaldo Lupo, Nancy Montez, Afonso Stuart, José Policena, Grace Moema.

Paulo (Rossano), dono de uma concorrida boate no Rio de Janeiro, a Casablanca,  vê-se em apuros quando seu Tio, Gregório, milionário, que vive no interior, decide visitá-lo e conhecer o asilo para idosos que acredita o sobrinho ter construído com os 200 mil que lhe doou, dinheiro que foi investido no clube noturno. Com o velho, vem sua afilhada, Verinha (Macedo). Os dois ficam hospedados na mansão de um amigo de Paulo,  Luís (Lupo), fazendo-se passar pelo proprietário da residência, enquanto o verdadeiro dono se torna mordomo,  com a promessa de que ficará com 10% da prometida herança do tio rabugento de Paulo. Verinha rapidamente descobre o Casablanca, e afirma que não contará nada ao tio se ele deixar ela lá se apresentar. A vedete da casa e namorada de Paulo, Julie (Montez), que o trai com um espertalhão, compreende a situação e também o chantageia para que ele não contrate a “caipira”. Paulo leva o tio para umas obras, fingindo serem as do futuro asilo, tendo antes combinado com o mestre do serviço. Porém, esse retornará lá e descobrirá que foi enganado, vindo a saber inclusive, a partir daí, que Paulo é proprietário da Casablanca. E lá vai disfarçado como janota americano, assim como uma vez mais na pretensa residência do sobrinho, onde decide comprar a boate.

Como quase toda chanchada, já inicia a partir de uma farsa – a mentira contada por Paulo para o tio de dois empreendimentos completamente antípodas em termos de valorização moral pela sociedade. Porém, nem de longe possui a verve dos melhores produtos da Atlântida, então já em decadência financeira, mas não criativa (vide O Homem do Sputnik). As interpretações são pura empostação, e os diálogos não ajudam nesse sentido, sendo que a fala de que as receitas não cobrem as despesas de Paulo sobre a sua boate, a mais pura exemplificação do diálogo mais que óbvio, em texto vivo, que ganha uma interpretação à altura, na canastrice do iniciante Rossano. E já se imagina que irão forjar uma situação camuflada para o generoso e milionário tio. E que o monstrengo imaginado por Paulo é uma beldade. E que o retorno da verdadeira família surgirá como mais um obstáculo a ser contornado. E os tipos sociais são uma caricatura ainda mais amesquinhada que os da companhia mais famosa do gênero. A empregada anda se rebolando. E as polaridades do gênero surgem incólumes, como a do campo, impregnada de valores considerados “autênticos” e modelados na religião, em contraste com os tipos urbanos, mais ligados ao prazer. Assim como a interesseira vedete em relação a mais recatada, mas brejeira, mocinha – que aqui, como uma variação já observada em outras chanchadas, também pretende seguir uma carreira no mesmo ambiente da vedete. Eliana, em final de carreira, após ter feito par romântico com Anselmo Duarte e Cyl Farney, tentou algo semelhante com Rossano (com quem também contracenaria em Samba em Brasília, de dois anos após, dirigida pelo tio). Não faltam estereótipos simplórios a figura do “baiano”, em um número musical completamente desvinculado da trama e, inclusive, de seus personagens. Suas tentativas de comicidade são um tanto pífias, como demonstra a queda do mestre de obras na cal, mero motivo de antecipação para cena similar que possui uma motivação maior. O carnaval, motivo maior do gênero em sua forma mais “clássica” aqui surge menos nos números musicais, que como uma menção um tanto remota, nos trejeitos a la Carmen Miranda, de Eliana, ou ainda numa breve alusão próxima ao final que se suspeita que tudo acabará em carnaval, embora finde mesmo como bufonaria trivial. E não apenas a simpática Eliana nos faz lembrar suas congêneres anteriores. Arranha-se algumas inversões.  A suavização da figura do mocinho, que mesmo mentindo ao tio e vivendo dessa mentira, é desculpado porque foi “manipulado” pela mau caráter que se envolveu, para ficar em um exemplo; como aqui inexiste a figura do “malandro”, é como se algo desse se incorporasse sub-repticiamente ao herói, mas bastante lapidada e com direito a didática exegese de seus bons princípios aos olhos de um tio travestido de americano– outra herança é claro. Só, que tudo isso com menos brilho e brio.  Em meio a tantas fragilidades, sobressai-se a grandeza de Procópio Ferreira, que consegue emprestar modulações perfeitas do tio rabugento que apoquenta a todos a maior parte do tempo, mas cuja reserva de generosidade é observada ao final. Cinedistri/Cinelândia Filmes para Cinedistri. 80 minutos.

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