Filme do Dia: A História da Eternidade (2014), Camilo Cavalcante
A História da Eternidade (Brasil,
2014). Direção e Rot. Original: Camilo Cavalcante. Fotografia: Beto Martins.
Música: Zbigniew Preisner. Montagem: Vânia Debs. Dir. de arte: Julia Tiemann.
Cenografia: Diogo Balbino. Figurinos: Paulo Ricardo. Com: Marcélia Cartaxo,
Leonardo França, Débora Ingrid, Claudio Jaborandy, Zezita Matos, Irandhir
Santos, Maxwell Nascimento.
No sertão algo inóspito de Pernambuco,
um pequeno povoado de não mais que uma meia-dúzia de edificações e seus
habitantes, desejos, sonhos e frustrações. O rude agricultor Nataniel
(Jaborandy), seu irmão de pretensões artísticas Joo (Santos) e a sobrinha
Alfonsina (Ingrid), que admira os devaneios do tio. A velha beata Dona Das
Dores (Matos) que recebe o neto vindo de São Paulo, Geraldo (Nascimento). A
solitária e sofrida Querência (Cartaxo), sempre abordada pelo acordeonista cego
Aderaldo (França), proclamando seu amor. Os 15 anos de Alfonsina são celebrados
com a matança de 4 bodes, embora o grande sonho dessa fosse conhecer o mar. No
dia seguinte o tio a leva para conhecê-lo, na verdade para desfrutar de uma
experiência de senti-lo em sua imaginação. Numa noite de chuva forte, Geraldo
conta a avó que fugiu de São Paulo e se encontra jurado de morte iminente,
Querência acolhe Aderaldo da chuva para uma noite de amor e Alfonsina aproveita
da situação de fragilidade do tio para fazer amor com esse. Mortes e vida irão
resultar nos encontros dessa noite.
Observando sobretudo a partir da
perspectiva feminina do desejo de três gerações distintas, o filme se enquadra
numa apropriação estilística demasiado codificada para soar verdadeiramente
interessante. Por um lado existe o tratamento dramático convencional que busca
“traduzir” visualmente momentos de epifania, como o virtuoso movimento de
câmera no momento da dança-libertação efêmera de Joo ou da “visualização” do
mar por parte de Alfonsina, por outro tipos que nem mesmo as idiossincrasias
associadas ao desejo – como no caso da avó pelo neto – os tornam mais densos
que os de qualquer telenovela. O risco da condescendência com que são
observados esses outros, à guisa de provocarem um contato extremamente fácil
com o espectador médio, é o risco da ausência de ousadia, de se filiar ao já
estabelecido. Compartimentado em 3 partes, embora sem exatamente provocarem um salto
narrativo cada uma, pipocam referências a filmes renomados do cinema brasileiro
de Deus e o Diabo na Terra do Sol a Pixote, ainda que essas se deem
completamente integradas em sua narrativa para soarem como tributos isolados.
Em alguns momentos falta timing e/ou existe excesso nas interpretações
provocando cenas potencialmente constrangedoras, como a que o pai desaba
literalmente aos pés da filha na sua festa de 15 anos. Pode-se pensar numa
gradação do desejo feminino que vai desde o aniquilamento, somente podendo ser
vivido enquanto literal auto-flagelamento no caso da mulher mais velha até
partindo da própria mulher, no caso da mais jovem e passando pela madura que
consegue resistir aos encantos do músico até determinando momento. Porém, em
última instância, o que o filme apresenta como único fruto de uma relação que
parte desse desejo feminino não se encontra em nenhum dos extremos, nem no
desejo reprimido que surge de forma intempestiva na figura da avó que se sente
atraída pelo neto nem tampouco no desejo da sobrinha que admira intensamente o
tio, mas na relação que é, pelo cânone tradicional melodramático, “construída
pelos passos do bem.” Cavalcante já
havia realizado um curta de mesmo nome em 2003, do qual o filme é parcialmente
inspirado. Aurora Cinematográfica/República Pureza Filmes. 120 minutos.

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